Cultura

Poesia contemporânea: Helena Zelic, durante um terremoto

Esse texto também poderia ter o título: durante um terremoto, de Helena Zelic: poemas de amor a Mariana e a quem bate ponto.

Gabriela Farrabrás

São Paulo | @gabriela_eagle

domingo 24 de maio| Edição do dia

Durante um terremoto é o segundo livro de Helena Zelic. Apesar de termos estudado na mesma universidade em períodos muito próximos só me lembro fisicamente de Helena em manifestações políticas na rua; e não é muito dizer que isso me alegra, pois da um sentido mais verdadeiro a alcunha de “militante feminista” na sua apresentação na orelha deste livro.

Durante um terremoto me chamou a atenção, entre tantos livros de poesia contemporânea que venho devorando durante a quarentena - e aqui é muito bom que caiba o lembrete: leiam escritores vivos - porque ele traz em si assuntos pouco tratados por poetas, infelizmente, o trabalhador. Poucos poetas conseguem trazer pro texto a questão do trabalho, o trabalhador... eu, que me considero uma pessoa que entende um pouco de poesia contemporânea, sou capaz de contar nos dedos da mão quantos poetas conseguiram fazer isso.

Você deve se perguntar porque quero ressaltar isso, porque busco isso nos poemas e porque me encanto quanto encontro; é porque sou uma militante, que se pretende revolucionária, e que crê que o sujeito revolucionário, aquele que será capaz de fazer a revolução, é o trabalhador, é a classe operária. E aquele capaz de tão grandioso ato merece estar nos poemas, não para ser eternizado, como bem coloca Helena em um dos seus poemas, mas para que todos escutem sobre ele e saibam de seu poder.

Você pode ler Durante um terremoto e pensar que ele é um livro para o que está acontecendo nesse momento, é isso não é um acaso; isso se dá porque esse é um livro que se inscreve em meio a uma crise capitalista que se arrasta há mais de dez anos e se vê escancarada agora em meio a uma pandemia, uma crise sanitária sob os pilares da crise capitalista.

Os poemas de Durante um terremoto

Em Dimensões Helena entrega que esse será um livro sobre angústia, treva, sonhos, abraços, guerras... Aqui ela já faz presente o que muitas vezes é ignorado na poesia: “as terras dos quilombos/... as decapitações históricas/ (...)/ a revolução bolivariana”.

O mundo da poesia de Helena é um mundo em convulsão, o nosso mundo, mas que pode também ser apenas “... o sonho estranho/ de uma cachorra velha.”

Durante um terremoto é também um livro de amor, um amor romântico entre duas mulheres, duas meninas; e também um outro amor, igualmente político, pela vontade de mudança, por um novo mundo a ser construído.

Um livro escrito sobre cidades construídas sob “os matadouros/ galpões de fábrica/ os tijolos das velhas indústrias/ onde se batia ponto.” (Helena, você sabe que amo poemas onde se bate ponto.)

“porque este mundo não é de deus
mas há de brotar ainda assim
como o herbário da rosa luxemburgo
e os milhos coloridos que nascem nos andes.
você canta o apito da fábrica de tecidos
o amor ao proletariado
você canta porque sabe
que eu vou chorar de leve.
você sempre sabe,
há vinte e nove dias você sabe.”

  • trecho do poema Conjecturas

Helena é uma poeta de língua portuguesa, mas não é portuguesa e “... nunca, sob hipótese alguma/ poderei escrever como uma poeta portuguesa.” porque Helena é latino-americana, escreve em português e espanhol, sobre as ruas de São Paulo, Santos, las calles de habana, é a revolução bolivariana; e faz questão de dizer: “são outros os meus heróis”. É nesse contexto que se localiza o terremoto de Helena Zelic.

SOBRE QUANDO MONTAMOS SIBILOS

certas palavras fazem
barulhos bonitos
quando faladas
fissura
rastro
malefício
baluarte
frissom
casulo
tijolo
socialismo

ainda que pouco saibamos
dos reais significados
para tanto significante
fonema após fonema
mesclados, mordidos em busca
nos mapas da boca humana:

dentes, palato, garganta
é toda vontade de dizer.

Helena consegue algo que pouquíssimos poetas conseguem: Helena fala de socialismo usando a palavra em si sem ser panfletária, faz uso de uma delicadeza para falar sobre algo tão forte, que me espanara a beleza.

POEMA DA DIALÉTICA

que a eternidade dos homens e mulheres é a mudança.
hoje estamos amanhã não.
às vezes a amo mais; às vezes.
é que não passo fome.
como acordar no dia seguinte
a um golpe de estado?
se o sol é o mesmo, ardente
se as rotas dos carros mantém seus traçados
no mapeamento da cidade
se não vemos diferença
entre os abacateiros de ontem e hoje
a terra seca, a água seca, os caminhões
mas quando um cobrador de ônibus
já meio careca
declama ao mundo de viajantes
esse partido não está lá por nós
é gira catracas para os moleques
nós a humanidade lembramos:
estamos vivos

a mão de quem mexe as terra não são as mesmas:
cada dia um novo reforço
para os mesmos calos

Em Contemporâneas a poeta vem falar sobre o ser poeta nos dias de hoje. Helena escreve sobre quantos poetas de hoje se perderão, que só chegarão a ser conhecidos daqui a cinquenta anos dois ou um e meio entre cem mil. E mesmo assim, contra toda essa estatística, Helena se coloca entre essa multidão de poetas até o fim, como uma promessa com o objetivo de gritar o que ouve nas “conversas nos pontos de ônibus”.

Eu falei que Helena iria falar dos trabalhadores e do trabalho. Mas não consigo exprimir em um parágrafo alguma explicação crítica de como ela faz isso. Deixo então o poema abaixo (e Mariana) demonstrar por si:

AUTOMÓVEIS

mariana tem me ensinado jeitos de olhar o mundo. o oposto também vale. no último carnaval, ela junto comigo mortos móveis, mesas, prateleiras. quando a música dizia “teu suor vida sofá, cadeira, mesa de centro” eu não entendia. foi mariana quem me explicou que o suor vida cadeira porque toda cadeira é o trabalho exercido nela. a cadeira é um pouco quem a molda, esculpe, monta, lixa. o oposto também vale.

como no filme peões do coutinho, em quem os filhos dos metalúrgicos observam os automóveis e se orgulham: ao menos algum pequeno parafuso foi encaixado, não sem risco, não sem suor, por seus pais. a gente é o que a gente mexe. às vezes, carro, às vezes, greve.

foi mariana quem me ensinou os acordes de um violão. hoje, malemale, sou eu mesma boca, casa, cavalete, caixa, rastilho, cada uma das cordas. a mão que toca às vezes é minha mesmo, às vezes é dela.

Escrever poesia, escrever versos, anotar palavras para Helena “não é tudo que tenho, mas parece/ parece que registrar é uma via para poder voltar.” E de fato a poesia de Helena nos faz voltar para o Chile, país em que ela viveu, para os dias depois do golpe de 2016, para o carnaval, para a vida de seu avô... a poesia guarda esses momentos e nos leva de volta a eles. Ao mesmo tempo que a poesia de Helena não se inscreve só no passado, ela nos serve para o agora e nos servirá para o depois porque talvez “... este poema/ não pertence a este século”.

Helena também nesse livro falará da ditadura, “quando os papais/ de repente/ foram todos embora.”, dos “...

poucos túmulos/ para tantos nomes sem corpo.” no memorial da resistência. Traçando um paralelo sobre sermos seres que ainda tem garras (unhas e dentes) mesmo depois de tantos séculos, e como vemos a direita fascistizante avançar e os militares serem postos no poder dia após dia mesmo após vivermos ditaduras...

Helena aprendeu no Chile em uma conversa em Ancud com rosabetty o que deve ser, para ela, a poesia:

“nunca me llamó la atención hablar de mi misma, servindo a água fervente. me interesa ser capaz de hacer una voz que refleje al pueblo. soy mujer, chilota, provengo de una clase social más baja y des de ahí escribo. fala convicta e tranquila. si vas a dialogar con los otros, hay que tener claro: quién eres tú.”

Durante um terremoto foi lançado em 2018 pela editora Patuá - vale ressaltar: um dos livros dessa editora mais bonitos esteticamente. O livro também está disponível em pdf no link: https://drive.google.com/file/d/1K3vZ3kXMd5y3y9mT1QB3CRTQCOuIPRpl/view?usp=sharing




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