Cultura

POEMA

Poema sobre a "cura gay"

Camila Farão

São Paulo

terça-feira 26 de setembro| Edição do dia

Entre minhas pernas
Veja bem...
Não se trata de ferida
O que vês, perceba
É um espaço entre a morte e a vida.

***

Acordei num domingo cinza
Manhã escura, chuva fina
Ao som das sirenes
Caminhei até a janela
Avistava os de branco
Subindo a escadaria
Rumo ao meu edifício
Pensei: Alguém precisa de ajuda
Toca a campainha
Assutei-me com o estrondo
Da porta que partia.
Estava nua, constrangida.
Fui gritar, no vazio do céu da boca
Preencheram com um pano azedo
Me amarraram
Só rezava, afinal o que havia?
Lanterna na pupila
Martelo no joelho
Água fria
Terapia eletro convulsiva

***

Acordei, minhas pernas estavam como se
Fosse fazer um exame ginecológico ou
Um parto natural.
Chorava, xingava
Temia, tremia
Reagia
Foi quando senti as fitas me espremendo
Uma enfermeira a sorrir
Me deu um átimo de esperança
Até virar demoníaca
Espetando uma agulha dolorida
Enfim, não era minha cúmplice
"Dorme, criança
Descansa, já já estará pronta!"

***

Acordei, e só sentia um buraco na boca
O som não saia direito, un un un un un un?
(Cadê minha língua?)
O desespero me acometeu
Meus olhos dilataram-se
O vazio de todas incertezas
E o descontrole
Passaram no exato momento
Através da minha dorsal. Um frio na barriga.
Um desejo de acordar do sonho.

Chegaram o Dr, o Juíz e o Pastor
"Boa noite!
Você teve a oportunidade de participar
De uma cirurgia moderna
Ela foi um sucesso
Ficará um tempo na clínica de reabilitação
Em pouquíssimo tempo estará curada."

"Satanás saiu do seu corpo e não voltará
Finalmente terá a paz de Cristo no espírito
Por que Deus é bom, perfeito.
Matou seu próprio filho
Para nos salvar
Dentro de sua infinita sabedoria
Você está perdoada, minha filha!"

O juiz bateu o martelo
Os três fizeram o sinal da cruz
E
Amém.

***

Fui mutilada
Abalada
Estava eu num campo verde
Procurava uma corda
Enforcar-me!
Outras estavam ao meu lado
Perdidas, buscando algo
Desmembradas, destroçadas, curadas!
Em poucos minutos
Nós achamos
Nós juntamos
Não se via mais cada uma
Só uma imensa mulher
Num mosaico de peles
Unidas pela ausência dos membros
Tornamonos uma mega mulher tectônica




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