Internacional

CRISE TRUMP

Poderá um militar colocar ordem na Casa Branca?

Claudia Cinatti

Buenos Aires | @ClaudiaCinatti

quarta-feira 2 de agosto| Edição do dia

No dia 31 de julho o presidente Donald Trump instalou John Kelly formalmente como seu mais novo chefe de gabinete. Este general aposentado e com fama de disciplinador chega com um mandato explícito de colocar em ordem as distintas camarilhas que disputam o poder na Casa Branca, agora popularmente rebatizada como "House of Chaos" (Casa do Caos).

Como primeira amostra de sua autoridade, Kelly garantiu a demissão de Anthony Scaramucci, o efêmero e pouco apresentável diretor de comunicações que serviu como alter ego de Trump. Recordemos que Scaramucci esteve somente 10 dias em seu cargo, assumindo o recorde do general Michael Flynn que até então estava em primeiro lugar com 29 dias de permanência como assessor de segurança nacional.

Esses escassos 10 dias foram suficientes para que "the Mooch", como o apelidam, fizesse uma confusão. Antes de sua demissão antecipou a renúncia do secretário de imprensa, Sean Spicer; anunciou o deslocamento do ex-chefe de gabinete, Reince Priebus, ao qual com pouca elegância chamou de "fucking paranoid" e a quem responsabilizou por vazamentos à imprensa; e atacou o representante da "alt right" Stephen Bannon, o qual acusou de "auto fellatio" em uma entrevista reproduzida sem censuras no The New Yorker.

A purga parece não estar concluída. Está na mira o procurador geral, Jeff Sessions, um conservador que chegou ao seu posto pela mão do presidente mas que caiu na desgraça quando rechaçou a investigação sobre a suposta intervenção russa na campanha eleitoral de 2016. Para Trump é o responsável direto pra que se tenha constituido um comitê especial para investigar o chamado Rusiagate, que tem entre seus principais suspeitos integrantes do núcleo familiar do presidente.

A vertiginosa rotação do pessoal em postos chave da administração, incluindo a demissão do chefe do FBI, é produto da intensa luta entre camarilhas e grupos de interesse, e dá uma dimensão da profundidade da crise política na principal potência imperialista. Um jornalista do site FiveThirtyEight identificou ao menos oito setores que disputam pela influência nas decisões da Casa Branca -diversasa alas do Partido Republicano, o núcleo familiar, a extrema direita, Wall Street, os "ex-democratas"- entre as quais Trump pretendia atuar como árbitro. Entretanto, os seis primeiros meses turbulentos de sua presidência indicam que estas rivalidades saem facilmente de controle.

No plano externo, a sintonia dos Estados Unidos com direitas latinoamericanas identificadas nas políticas agressivas contra Cuba e Venezuela, não chegam a configurar uma estratégia.

Como se viu na cúpula do G20 a política de "America First" está deteriorando as relações com outras potências imperialistas, em particular a Alemanha.
O giro de orientação que propunha Trump no intuito de melhorar as relações com a Rússia está em ruínas. Não somente o escândalo do Rusiagate toca a sua família, mas também a sua presidência e sacode o fantasma do impeachment. O Senado votou por maioria esmagadora, com o voto contrário de Bernie Sanders e do republicano Paul Ryan, uma nova rodada de sanções contra a Rússia. Este é um dos principais eixos do Partido Democrata, que considera que os serviços russos acabaram por favorecer Trump contra Hillary Clinton.

Encurralado pelos vazamentos de relações entre funcionários e membros de seu círculo íntimo com funcionários do Governo de Putin, Trump converteu as sanções contra a Rússia, a Coreia do Norte e o Irã em leis e política de estado. Está instalada novamente uma atmosfera tensa carregada de retórica própria da Guerra Fria. Putin respondeu expulsando mais de 700 funcionários da embaixada norteamericana na Rússia, uma medida com um forte conteúdo simbólico, ainda que o verdadeiro perigo esteja na escalada de outros conflitos, como o da Ucrânia. O posicionamento de 100.000 soldados russos na fronteira do território da OTAN já soou os alarmes.

Uma situação potencialmente mais perigosa por suas consequências é o conflito com a Coreia do Norte. Pela segunda vez em um mês, o regime nortecoreano testou na última sexta-feira um míssil balístico intercontinental. Diante disto a reação de Trump foi chicotear a China com uma catarata de tuítes e sem dar muitos detalhes, insistir que todas as opções estão sobre a mesa.

No Meio Oriente, a polarização introduzida pela política exterior de Trump ameaça estender e aprofundar o conflito intra islâmico entre chiitas e sunitas, expresso pela guerra fria regional entre a Arábia Saudita e o Irã. Em sua viagem à região Trump encorajou a formação de uma aliança sunita encabeçada pela monarquia saudita que estreou com um boicote contra o Qatar, um de seus rivais em disputa pela influência regional. A jogada, que produziu uma crise diplomática, militar e econômica sem precedentes não está isenta de riscos para os Estados Unidos: este pequeno estado do golfo abarca nada menos do que o comando militar e uns 10.000 soldados norteamericanos.

A tarefa de Kelly não parece ser nada simples. Tentará disciplinar manu militari [pela força militar] as diferentes frações. E sem o expertise político nem as relações com o establishment partidário que Reince Priebus tinha, deverá remontar a derrota ressonante de seu chefe no senado, onde viu morrer a sua iniciativa para revogar o sistema de saúde conhecido como Obamacare, pelos votos de nada menos que três senadores republicanos.

A agenda parlamentar futura é ainda mais incerta e com projetos polêmicos como uma audaz reforma tributária que promete cortar qualitativamente os impostos às corporações, a aprovação do orçamento e da ampliação da margem da dívida, o plano de infraestrutura e as leis anti-imigratórias.

Esta crise se expressa na baixíssima popularidade do presidente. Segundo a última enquete promovida pelo ABC News/Washington Post, a taxa de aprovação de Trump é de apenas 36%, limitada fundamentalmente a sua base eleitoral, enquanto que 58% desaprova sua gestão. Algumas notícias, como o anúncio de Foxconn de que investirá 7 bilhões de dólares em uma obra em Wisconsin, não conseguem reverter esse clima nem conseguem conferir dinamismo a sua presidência que ainda é uma incógnita.

O que até o momento parece ter mais êxito é a sua política de perseguição dos imigrantes, a qual John Kelly, como secretário de segurança interior, contribuiu de maneira qualitativa.

Os seis meses que se passaram confirmam que Trump tem um governo bonapartista débil, com uma base social estreita, que busca apoio em setores do aparato estatal e, em particular, dos militares. Atualmente, três dos quatro postos mais importantes do poder executivo estão ocupados por militares: John Kelly, um quatro estrelas como chefe de gabinete; o general James Mattis como secretário de defesa e o tenente geral H. R. McMaster como assessor de segurança nacional.

O antecedenete histórico de que um militar ocupe um cargo de gabinete não é nada menos que o segundo governo de Richard Nixon, quando em 1974 nomeou Alexandre Haig, que segundo seu próprio relato foi o responsável por convencê-lo da renúncia diante do escândalo de Watergate. Isto não quer dizer que Trump seguirá o caminho de Nixon, mas que são tempos extraordinários.

O Partido Democrata não consegue se recuperar do baque da derrota de Hillary Clinton. Ameaçou capitalizar no "antiTrumpismo" mas por hora não sai de seu assombro e de seu compromisso de garantir a governabilidade. Inclusive, seus porta-vozes progressistas como Nancy Pelosi, acompanharam a nomeação de John Kelly, que tem como antecedentes a administração do cárcere de Guantánamo e a execução, a mando de Trump, da política policial contra os imigrantes.

A polarização social e política que se expressou pela esquerda na base de jovens que aderiram a campanha de Bernie Sanders, atraídos por sua promessa de "revolução política", "socialismo democrático" e sua denúncia à casta dos grandes partidos patronais, não se esgotou com a subordinação de Sanders à campanha de Clinton.

Muitos destes jovens, que despertaram para a vida política, hoje se integraram ao Democratic Socialist of America (DSA pelas suas siglas em inglês), que segundo seus organizadores passou de 8.000 a 21.000 filiados em seis meses de presidência de Trump. O DSA é um velho partido reformista que ainda reivindica seu pertencimento à Segunda Internacional. Como outras organizações similares, -Podemos, Syriza ou o Partido Trabalhista britânico-, tem como estratégia a gestão do estado capitalista e nisto não se diferencia da velha socialdemocracia. As ilusões nestas variantes reformistas criam as condições para uma nova frustração.

É certo que ainda não estamos diante de processos generalizados de radicalização política. Porém, este novo fenômeno político que hoje se expressa na juventude, que sofre as consequências da crise, da ociosidade, dos baixos salários, do trabalho precarizado, que tem o acesso vetado à educação e que tem a certeza de que terá uma vida pior do que a geração anterior, é a base para construir uma força política verdadeiramente anticapitalista. Este é o nosso desafio.




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