Opinião

CATALUNHA

Podemos: com a graça do Rei da Espanha e de Rajoy, contra a república catalã

André Augusto

Natal | @AcierAndy

terça-feira 31 de outubro| Edição do dia

Imagem: EFE

O desenvolvimento dos acontecimentos no Estado espanhol impressionam quando se observa a conduta das direções tradicionais catalãs. Diante do golpe institucional encabeçado pelo governo de Mariano Rajoy e a monarquia – destituir o presidente da Catalunha e dissolver o Parlamento catalão, convocando eleições fraudulentas para o 21D – Carles Puigdemont, presidente da Generalitat, abandona o Estado e vai para a Bélgica, alegadamente “pedir apoio” à União Europeia, que está firmemente contra a independência.

Puigdemont não tomou nenhuma medida de resistência depois de declarada a independência da Catalunha, não só para que fosse uma realidade, mas para enfrentar a ofensiva do governo. A presidenta do Parlamento catalão, Carme Forcadell, também do partido de Puigdemont – PDCat, Partido Democrático da Catalunha), acatou o golpe institucional (sic) e deu por dissolvido o Parlamento. Para conclusão de tudo, o PDCat e o ERC (Esquerda Catalã) aceitaram as eleições convocadas por Rajoy.

Uma capitulação vergonhosa, que mostra mais uma vez que a luta por garantir a independência catalã está, como sempre esteve, nas mãos daqueles que protagonizaram a greve geral do 3 de outubro após o referendo: da classe trabalhadora e da população.

Mas que dizer do Podemos de Pablo Iglesias? No interior de sua política utópica – defender um referendo de separação da Catalunha pactuado com o Rei, Rajoy e o reacionário Regime de 78 – foi a público dizer que a independência batalhada pelos trabalhadores catalães é “ilegal e ilegítima”, deixando claro que na prática se opõe ao direito à autodeterminação dos povos históricos do Estado espanhol (a não ser que seja abençoada pelo herdeiro de Francisco Franco e a direita espanhola).

De fato, as prefeituras que mais aguerridamente defendem a "unidade da Espanha" são as ligadas ao Podemos. Ada Colau, prefeita de Barcelona pela formação “Barcelona em Comu”, aliada ao Podemos, se tornou paladina da luta contra o direito à autodeterminação da Catalunha.

No caso de Iglesias, seu repúdio ao processo catalão é tão acentuado que interveio na direção da sucursal do seu partido na Catalunha para remover da direção Albano Dante Fachin, que se aproximou dos independentistas e tem uma política indisfarçadamente mais propensa à defesa da declaração de independência.

Ademais, o Podemos propôs um “referendo interno” em sua filial catalã para decidir “se participa ou não das eleições convocadas por Rajoy”, após o golpe institucional encabeçado por ele. Cumpre lembrar que o artigo 65 dos estatutos do Podemos permite sancionar, inclusive com expulsão, os membros do partido que se afastarem da política marcada pela direção de Iglesias.

“Simpatizamos com Rajoy, até nos entendemos”

A política do Podemos não deixa nada à imaginação: o desejo é participar das eleições fraudulentas de Rajoy no 21D. Para sacramentar qualquer tipo de dúvida, Iglesias disse nesta terça-feira que “Rajoy pela primeira vez teve reflexos e atuou de maneira audaz”, por ter convocado eleições na Catalunha depois do golpe institucional. Pode-se ver que apesar da oposição ao governo madrilenho, que dissolveu o governo catalão, isso não impediu o Podemos de buscar se aproveitar eleitoralmente do golpe.


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Em seu discurso no Congresso, Pablo Iglesias conclui a apoteose da conciliação com a direita: em cinco minutos, consegue dizer Mariano Rajoy que "quando nos falamos, simpatizamos um com o outro, e até nos entendemos"; acresce sem pudores que a "Constituição de 1978 reconhece as nacionalidades" (uma mentira, ela foi pactuada com o franquismo e o Rei contra o direito à autodeterminação) e que o governo de Madri "ouça Donald Tusk" (presidente do Conselho Europeu, que ajudou a afogar o povo grego com a austeridade) para "negociar" com a Catalunha (ou seja, o desejo utópico de que Rajoy aprove um novo referendo).

Vídeo da intervenção de Pablo Iglesias

Não vemos nada mais que cumplicidade com a Espanha do Rei, da monarquia e do Regime de 78. Já os trabalhadores e a população catalã só se deparam com o desprezo do Podemos por sua luta.

A grande pergunta a se fazer no Brasil é: onde enfiou a cabeça aquela esquerda que louvou esta formação neoreformista como "a nova esperança da esquerda mundial"?

Uma República catalã independente, operária e socialista

Uma parte importante da classe trabalhadora sente dificuldade na luta pela independência devido ao caráter burguês da sua direção (responsáveis pela pior agenda de cortes em décadas) e pelo conteúdo que esta quer imprimir à república, uma república dos capitalistas catalães. Mas não apenas: tem de se enfrentar com uma esquerda neoreformista que não tem nada a ver com uma estratégia de independência de classe baseada na classe trabalhadora, como é o Podemos.

Para que a potência social da classe trabalhadora se some à defesa da República catalã, único modo de derrotar a ofensiva do Regime, é necessário defender claramente medidas de expropriação e controle operário dos grandes capitalistas que são parte da “guerra econômica” contra a independência, defender a divisão das horas de trabalho sem redução de salário ou expropriar todas as moradias vazias nas mãos de especuladores, ou seja, lutar para construir uma Catalunha operária e socialista.

Esta é a única maneira de unificar as fileiras da classe trabalhadora de todo o Estado em uma luta comum: pelo reconhecimento e a defesa da República catalã, por acabar com a Coroa e o Regime de 78 e impor assembleias constituintes livres e soberanas na Catalunha e no restante do Estado. Uma verdadeira ofensiva contra o veneno espanholista que se quer estender entre os setores populares e que abra caminho para uma livre federação de repúblicas socialistas ibéricas, na perspectiva de lutar contra a UE dos capitalistas por Estados Unidos Socialistas da Europa.




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