Política

ENTREVISTA

Plínio Sampaio Jr: superar a ideia de que é possível fazer grandes reformas por dentro da ordem

Plínio de Arruda Sampaio Jr ofereceu uma polêmica e instigante entrevista ao Esquerda Diário onde analisa as contradições dos governos Lula e Dilma situando-os na raiz da crise atual. Na entrevista também desenvolve sua visão sobre a esquerda brasileira e seus desafios.

Gilson Dantas

Brasília

sábado 23 de setembro| Edição do dia

Esquerda Diário - Você lançou um livro que já está sendo bem comentado [ Crônica de uma crise anunciada – Crítica à economia política de Lula e Dilma ], SG-Amarante, 2017, São Paulo]. Qual a ideia ou a tese central deste livro?

Plínio de Arruda Sampaio Jr - O esforço do livro é demonstrar a economia política dos governos Lula e Dilma. A tese central é de que são governos que atuam dentro dos parâmetros da ordem. Sem questionar o capitalismo dependente e sem questionar o subdesenvolvimento. E que portanto, têm a sua possibilidade de atender as necessidades do povo limitada por tais constrangimentos E o livro mostra que as contradições do crescimento dentro do subdesenvolvimento estão na raiz da gravíssima crise econômica e política que nós estamos vivendo.

Esquerda Diário - Existe um tema relativamente submerso, a despeito da luta que a Fattorelli faz neste país, que é a dívida pública e sua contraface que é o imperialismo. Na universidade não se discute imperialismo e na esquerda local, por exemplo, tampouco se debate; nem dívida pública nem o imperialismo. Na sua hipótese a que se deve a submersão de um tema tão candente?

Plínio de Arruda Sampaio Jr - Esta é uma questão na verdade bem importante, que é a relação entre o controle do capital internacional sobre a economia brasileira e o mecanismo da dívida pública. A dívida pública no Brasil, além de ser um mecanismo de extração, de transferência de renda para a plutocracia brasileira, para os detentores da dívida pública, ele é, sobretudo, um mecanismo de dominação do grande capital internacional sobre a política econômica interna. A dinâmica de funcionamento e de expansão da dívida pública responde aos movimentos do capital internacional. É´um problema complexo, difícil de entender, mas na verdade, dívida interna, dívida pública, e subordinação da política econômica às exigências do grande capital internacional são fenômenos interligados. Por que isso é escondido? Porque na verdade, o debate econômico brasileiro é controlado pelo capital, o capital controla a opinião pública, não há uma visão crítica dos problemas. Na ausência da discussão, a dívida pública acaba sendo atribuída a um excesso de gastos do Estado, que na verdade não existe. O Estado brasileiro produz superávits. Tirando esses dois últimos anos de crise econômica aguda, o Brasil apresentou grandes superávits, o que no fundo é uma poupança. O Brasil gasta em termos reais menos do que ele arrecada.
A expansão da divida decorre da dinâmica financeira e da dinâmica da expansão da dívida externa, dos efeitos dessas dinâmicas sobre a dívida pública. Então dívida pública e imperialismo são problemas correlatos. Só vão ser resolvidos de maneira conjunta.

ED – Quais os cenários que você vê para uma esquerda no Brasil. Fale sobre a miséria da esquerda.

Plínio de Arruda Sampaio Jr - Eu acho que a crise mostra, isto é, tem a capacidade de revelar a realidade. Revela que nosso sistema político é controlado pelo capital. E a forma desse controle é a corrupção. Mostra o que é Lula. O Lula é um pelego, muito habilidoso, mas é um pelego. Ele finge que está de um lado e está do outro. E mostra também a fragilidade da esquerda. A esquerda é invisível porque está fracionada e ele é invisível porque não tem um programa de lutas. A questão que está posta é vencer a fragmentação e construir coletivamente um programa de lutas. E isso é feito pela fusão da crítica com a luta, da crítica a serviço da luta. Esse é o grande desafio que está posto, e do o ponto de vista concreto é preciso superar o programa democrático-popular. Superar a ideia de que é possível fazer grandes reformas por dentro da ordem. Esse capitalismo é hermético às reformas.
As regras do jogo são enviezadas contra o trabalho. E nós precisamos colocar na ordem do dia o debate sobre a urgência de mudar as regras do jogo. É isso que acho que é a conversa séria e que vai despertar o interesse da classe trabalhadora brasileira.

ED - Costuma-se fazer uma crítica ao lulo-petismo como colaboração de classe. O que é que você acha disso? Qual o melhor diagnóstico no sentido de a esquerda tirar um balanço?

Plínio de Arruda Sampaio Jr - Existe a ideia de que o governo Lula foi o governo do ganha-gama. Isto é, de que todos ganharam, mas só que o povo não ganhou de maneira suficiente. Tenho outra visão: acho que o governo Lula foi catastrófico para a classe trabalhadora. Catastrófico de um lado porque agravou os problemas nacionais. Vou dar um exemplo na economia. O ciclo do lulismo foi a pá de cal no processo de industrialização do Brasil, e do ponto de vista político, ele apaziguou a classe trabalhadora. Portanto deixou a classe desarmada para enfrentar essa ofensiva do capital.
Então não sei se foi um governo de conciliação de classes, porque sempre foi, desde o começo, um governo do grande capital. Mas foi um governo que conseguiu uma relativa paz social. Durante o período de expansão. Quando o subdesenvolvimento cresce ele cria margem para a acomodação dos conflitos. E isto o Lula soube manejar muito bem.




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