Educação

LUTA NA USP

Plenária na FEUSP reúne 70 pessoas para debater a reforma curricular do CEE

Na última sexta-feira, o CAPPF organizou, junto com professores e representantes dos funcionários, uma importante plenária para debater a reforma curricular que o CEE quer impor, precarizando os cursos de Pedagogia e as Licenciaturas das três estaduais paulistas e ameaçando impedir a emissão de diplomas.

domingo 13 de agosto| Edição do dia

No dia 11/08 o Centro Acadêmico Professor Paulo Freire da Faculdade de Educação da USP reuniu cerca de 70 pessoas entre estudantes da Pedagogia, de cursos de licenciatura da USP, professores da faculdade, funcionários e professores da rede estadual para debater a deliberação autoritária do Conselho Estadual de Educação (154/2017), que quer impor aos cursos que formam professores na USP, Unesp e Unicamp uma reforma curricular que precariza a formação, tornando-a tecnicista e atacando a reflexão crítica acerca da Educação, sob ameaças de descredenciar estes cursos do Conselho e impedir a emissão de diplomas. Nesaa terça-feira, dia 15, às 16h e às 21h, haverá uma Assembleia de Estudantes da FEUSP para deliberar nossos passos na luta.

Uma semana passando em sala para construir a plenária

Ao longo da semana, o CAPPF (cuja gestão é formada por militantes da Faísca, do Grupo de Mulheres Pão e Rosas e estudantes independentes), junto com estudantes da Pedagogia, da Letras e da Ciências Sociais, passou em sala nos cursos de Pedagogia e nas licenciaturas presentes no Campus Butantã denunciando o ataque e convocando para a plenária. Nos cursos, um misto de surpresa e indignação. Muitos estudantes sequer sabiam do ataque, já que os demais centros acadêmicos e o DCE ainda parecem não ter se dado conta da profundidade da precarização que essa reforma gera, e nada têm falado a respeito disso.
Mesmo diante de uma novidade, a resposta foi quase unânime: é preciso lutar contra esse ataque. Por parte dos professores, muitas respostas positivas à iniciativa do Centro Acadêmico da FEUSP. Muitos nos apoiaram, ressaltando para os estudantes que isso afetaria decisivamente a sua formação. Na Letras, um professor apontou que a reforma geraria uma duplicação de disciplinas, criando, por exemplo, uma disciplina de “Gramática para a licenciatura”, como se o currículo que temos no curso (Elementos de Linguística I e II, Fonética e Fonologia, Morfologia, Filologia, Sintaxe e Teorias do Texto) não fosse suficiente para formar um professor para ensinar gramática na escola. Na Química, um professor deixou bem claro: “essa reforma destrói a formação de cientistas, joga sal no solo da pesquisa, tornando infértil a universidade. Se antes vocês estudavam química durante 40h em uma semana, passarão a aprender química apenas por 8h semanais”.

As diversas intervenções na plenária deixam claro: esse ataque precisa ser barrado!

Abrindo a plenária, professoras da Faculdade de Educação explicaram o ataque. Trata-se da substituição de disciplinas atualmente oferecidas nos cursos de pedagogia e licenciatura por outras que revisem o conteúdo do Ensino Médio. Dessa maneira, adequa-se o currículo a uma perspectiva mercadológica de ensino, meramente técnica.
Desde 2012, as faculdades de Educação têm se colocado contra essas mudanças no currículo. Neste ano, o embate se intensificou. Em maio, representantes dos docentes dessas faculdades foram chamados para uma reunião em que a nova deliberação, que ainda não tinha sequer sido aprovada, foi apresentada como uma imposição, sem que houvesse nenhum espaço para diálogo. A reforma curricular impõe a substituição de disciplinas “prioritariamente do primeiro ano” dos cursos de Pedagogia por 600h de revisão do conteúdo ministrado no Ensino Fundamental e Médio baseado na Base Nacional Curricular Comum – base essa que também não foi aprovada, e no caso do Ensino Médio, está em fase de formulação. Nas licenciaturas, 200h serão alteradas. No entanto, mesmo com essa base ainda por ser aprovada, o conselho já encomendou a impressão de material didático para as escolas da rede pública.
Para os professores da FEUSP não resta qualquer dúvida: não se trata de uma preocupação com a formação dos professores, e muito menos com a qualidade de ensino na educação básica. Os conselheiros estão, com essa reforma, querendo impedir que uma concepção de educação seja ensinada nas universidades, intervindo de maneira inconstitucional nos currículos universitários. Para eles, não interessa que os conteúdos do ensino básico já sejam trabalhados ao longo das diversas disciplinas oferecidas nos cursos; o que incomoda o Conselho é a concepção crítica, política, reflexiva a partir da qual esses assuntos são tratados.
Para o Conselho, as universidades públicas paulistas, referências no que tange à reflexão sobre educação, precisam adequar o seu currículo para que formem professores tal qual as universidades privadas, que enriquecem tubarões do ensino com suas mensalidades, oferecendo formação cada vez mais precária para seus alunos.
Na contramão de tudo o que se discute nas salas de aula da Faculdade de Educação, da importância da multidisciplinaridade no ensino e da unidade das licenciaturas, a Reitoria tem tido um papel importante na precarização desses cursos na USP. No último período, a Pró Reitoria de Graduação extinguiu um conselho que reunia os representantes das licenciaturas da Universidade alegando falta de verba para garantir o transporte dos representantes dos cursos de fora da Cidade Universitária. Hoje, pressiona para a aprovação da reforma curricular para que os cursos não sejam proibidos de emitir diplomas e, com isso, afetar a posição da universidade nos rankings.
Luciana Vizzoto, conselheira estadual da Apeoesp pela regional Sudoeste, do Movimento Nossa Classe e do Professores Pela Base, estava na plenária e saudou a iniciativa do Centro Acadêmico. Segundo ela, que se formou na USP, o que o CEE quer fazer agora dentro da Universidade é uma forma de adestrar os professores quando estiverem na sala de aula. “A reflexão crítica que tivemos na sala de aula quando éramos alunos da graduação nos dá munição para enfrentar, nas reuniões de professores, a concepção mercadológica de educação que querem que passemos pros nossos alunos. Querem emburrecer os professores para que possamos emburrecer os nossos alunos.” Diana Assunção fez uma fala pelo Sintusp, saudando a plenária e ressaltando a importância de as três categorias, estudantes, professores e funcionários, lutarem juntas em defesa da educação.
Diversos estudantes estavam presentes, da pedagogia e das licenciaturas, indignados com a gravidade do ataque que estamos sofrendo nesse momento. Uma estudante de Letras, prestes a se formar, chegou a dizer que a perspectiva de não poder pegar o seu diploma a assusta menos do que a precarização que querem impor ao currículo. Muitos estudantes expressaram a necessidade de fazer essa discussão chegar em toda a universidade, pois muitos ainda não entenderam até o final o que significa esse ataque, e é urgente que consigamos barrar essa reforma. O mesmo disseram os professores: é preciso que os professores das licenciaturas tenham por onde se organizar para lutar.

Para barrar o ataque, precisamos de profunda unidade e disposição pra mobilização.

É preciso que fique claro: este é um ataque sem precedentes à universidade. A ingerência autoritária do CEE vai contra a autonomia garantida em lei de as universidades definirem seus currículos. E pior do que isso: a reforma curricular que querem impor nada tem a ver com melhoria da educação, e sim com a precarização dos professores para precarizar mais ainda a educação básica, e com isso atender a demandas do mercado de baixos salários para uma mão de obra mal formada e aos interesses da grande indústria de material didático. Além disso, abre espaço para o Ensino à Distância na universidade, já que não há professores suficientes pra dar conta dessa nova demanda, o que precariza também as condições de trabalho e aprofunda a divisão que a reitoria já vem querendo implementar entre pesquisadores e professores na USP, terceirizando também o trabalho docente.
Os cursos afetados por essa reforma são (não coincidentemente) os cursos que mais têm negros, mulheres e egressos de escola pública. São os cursos onde os filhos da classe trabalhadora estão. E esses cursos estão ameaçados de não poderem emitir diplomas. Ficou claro pra quem estava na plenária: com esse ataque, os cursos de pedagogia e licenciatura estão correndo o risco de não poder abrir vagas.
Após a concessão à revelia da burocracia universitária de cotas-étnico raciais, não é mera coincidência que queiram fechar vagas nos cursos onde mais negros e indígenas entrariam a partir de 2018. São as mulheres, os negros, os estudantes que mais dependem de permanência estudantil que estão correndo o risco de não terem o direito de pegar os seus diplomas.
Nessa última semana, o CAPPF deu um exemplo de como deve ser a atuação de um Centro Acadêmico. Passou em sala de manhã à noite em 14 cursos diferentes dentro da Cidade Universitária, distribuindo mais de 5mil panfletos em diversos cursos e no bandejão. Mas ainda não é suficiente. É urgente que os demais centros acadêmicos e o DCE se joguem pra construir essa luta, que é uma pauta prioritária para o movimento estudantil nesse início de semestre. Chamamos também as entidades estudantis da Unesp e da Unicamp para que possamos nos articular estadualmente contra esse ataque.
Está nas nossas mãos a defesa da Educação pública, gratuita e de qualidade, que esteja a serviço da classe trabalhadora e do povo pobre que sustenta essa universidade, e não daqueles que querem despejar a crise sobre as nossas costas com todo o pacote de reformas do governo golpista. É preciso relembrar dos grandes momentos do movimento estudantil e retomar a gana da vitoriosa mobilização contra os decretos do Serra, que em 2017 completa dez anos, e da recente mobilização dos secundaristas, em novembro de 2015, que impediu o fechamento de centenas de escolas.
É possível barrar esse ataque. Mas pra isso é preciso intensa unidade e mobilização para que gritemos em uníssono que a educação vale muito mais do que o lucro deles.

PRÓXIMOS PASSOS DA LUTA:

Terça-feira, 15/08: Assembleia de Estudantes da FEUSP, às 16h e às 21h, no saguão do Bloco B da FEUSP. (aberto a estudantes de pedagogia e licenciaturas)

21/08: Ato “Contra a Reforma Curricular do CEE! Pedagogia e Licenciaturas resistem!”. Horário e local a confirmar.

22/08: Assembleia Geral dos Estudantes da USP, às 18h, local a confirmar.

Nesta semana, o CAPPF distribuirá uma edição especial do seu jornal sobre a Reforma Curricular em diversos cursos da USP. Para enviar propostas de texto ou pra organizar a distribuição do material no seu curso, entre em contato com o Centro Acadêmico pela página no facebook:
https://www.facebook.com/InfoCAPPF

ASSINE O ABAIXO-ASSINADO:
https://secure.avaaz.org/po/petition/Conselho_Estadual_de_Educacao_CEE_Contra_a_Reforma_Curricular_do_Conselho_Estadual_de_Educacao/?tTkdkmb

APOIE A CAMPANHA NO FACEBOOK:
https://twibbon.com/support/contra-a-reforma-curricular

Para mais informações sobre a reforma:

USP quer implementar reforma curricular que aumenta precarização nas licenciaturas

CAPPF chama estudantes, centros acadêmicos e o DCE da USP a lutar contra a reforma curricular do CEE




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