SEMANÁRIO

Planos para uma organização de negros*

Leon Trotski

Tradução de Jéssica Antunes

Planos para uma organização de negros*

Leon Trotski

Coyoacán, México, 11 de abril de 1939

Apresentamos aqui a tradução de uma das discussões de Leon Trotski com C.L.R. James e outros líderes do Partido dos Trabalhadores Socialistas dos EUA (SWP, na sigla em inglês) ocorridas no ano de 1939.

James: As sugestões para o partido de trabalhadores estão nos documentos e não há necessidade de se debruçar sobre eles. Proponho que seja considerada pelo Comitê Político [SWP] a ideia de um número especial para a New International [Nova Internacional] sobre a questão negra. É urgente a necessidade de um panfleto escrito por alguém familiar com as tratativas do PC sobre a questão negra e relacionando-as à Internacional Comunista e sua degeneração. Isso seria um trabalho teórico preliminar para a organização do movimento negro e o trabalho do próprio partido junto aos negros. O que não é necessário é um panfleto lidando de modo geral com as dificuldades dos negros e afirmando que, em geral, negros e brancos devem se unir. Seria outra coisa de uma longa lista.

A organização dos Negros

Teórica
1. O estudo da história dos negros e da propaganda histórica deve ser:
(a) Emancipação dos negros em São Domingos1 relacionada à Revolução Francesa.

(b) Emancipação dos escravos no Império Britânico relacionada à Lei da Reforma Britânica de 1832.

(c) Emancipação dos negros nos Estados Unidos relacionada à Guerra Civil dos EUA.
Isso leva naturalmente à conclusão de que a emancipação dos negros nos Estados Unidos e no exterior está relacionada à emancipação da classe branca trabalhadora.

(d) As raízes econômicas da discriminação racial.

(e) Fascismo.

(f) A necessidade de autodeterminação dos povos negros na África e uma política similar na China, Índia, etc.
N.B.2: o partido deveria produzir um estudo teórico da revolução permanente e os povos negros. Deve ser em um estilo muito diferente do panfleto sugerido anteriormente. Não deveria ser uma polêmica com o PC, mas uma análise política e econômica positiva, mostrando que o socialismo é o único caminho e tratando a teoria definitivamente no mais alto nível. Isso, no entanto, deve partir do partido.

2. Uma análise escrupulosa e uma exposição da situação econômica dos negros mais pobres e o modo como isso retarda não apenas os próprios negros, mas toda a comunidade. Levar aos próprios negros uma descrição elaborada de sua condição por meio de diagramas simples, ilustrações, gráficos, etc. é de máxima importância.

Teoria – Meios de organização
1. Jornais semanais e panfletos da organização dos negros.

2. Estabelecer a International African Opinion [Opinião Africana Internacional] como uma revista teórica mensal, financiada até certo ponto a partir dos Estados Unidos, dobrar seu tamanho atual e, após alguns meses, entrar de forma ousada na discussão do socialismo internacional, enfatizando o direito à autodeterminação, tomando o cuidado de mostrar que o socialismo será decisão dos próprios estados negros com base em sua própria experiência. Chamar uma participação internacional de todas as organizações do movimento operário, intelectuais negros, etc. Espera-se que o camarada Trótski possa participar disso. Essa discussão sobre socialismo não deve fazer parte do jornal de agitação semanal.

Organizativa
1. Convocar um pequeno grupo de negros e de brancos, se possível: quarta-internacionalistas, lovestonistas, — revolucionários sem partido — esse grupo deve ter clareza sobre (a) a questão da guerra e (b) o socialismo. Não podemos começar colocando uma questão abstrata como socialismo ante os trabalhadores negros. Me parece que não podemos promover confusão no que diz respeito a essa questão na direção; pois é desta questão que depende toda a orientação da nossa política cotidiana. Nós tentaremos remendar o capitalismo ou destruí-lo? Na questão da guerra não pode haver desacordos. O Secretariado tem uma posição e essa deve ser a base para a nova organização.

Programa
1. Uma cuidadosa adaptação do programa das demandas transitórias, com ênfase nas demandas por igualdade. Isso é tudo o que pode ser dito no momento.

Etapas práticas
1. Escolher, após um estudo cuidadoso, um sindicato onde a discriminação afeta um número grande de negros e onde exista a possibilidade de sucesso. Mobilizar uma campanha nacional com todos os meios possíveis de frente única: AFL, CIO, SP, SWP, igrejas negras, organizações burguesas, etc, numa tentativa de acabar com essa discriminação. Essa deve ser a primeira campanha, para mostrar claramente que a organização está lutando como uma organização de negros, mas que não tem nada a ver com o garveyismo3.

2. Construir uma organização nacional por moradia para os negros e contra os altos preços dos aluguéis, buscando atrair mulheres para a militância.

3. A discriminação em restaurantes deve ser combatida por meio de uma campanha. Um número de negros em qualquer região vai a um restaurante em grupo, pedindo, por exemplo, um café e recusando-se a sair até que sejam servidos. É possível que se passe o dia inteiro ali sentado de modo ordeiro e jogar para a polícia a necessidade de remover os negros. Uma campanha a ser construída em torno dessa ação.

4. A questão da organização dos empregados(as) dos serviços domésticos é muito importante e, apesar de difícil, uma investigação minuciosa deve ser feita.

5. Desemprego entre os negros – embora aqui seja necessário ter muito cuidado para evitar a duplicação de organizações; e este é provavelmente o papel do partido.

6. A organização dos negros deve considerar a Organização dos Meeiros do Sul como sua. Deve fazer dela uma das bases para a solução da questão negra no Sul, popularizar o seu trabalho, seus objetivos, suas possibilidades no Leste e no Oeste, tentar influenciá-la numa direção mais militante; convidar seus porta-vozes; urge tomar uma atitude contra os linchamentos; e sensibilizar toda a comunidade negra e a branca de sua importância na luta regional e nacional.

Orientação política
1. Iniciar a luta militante contra o fascismo e garantir que os negros estejam sempre à frente de qualquer manifestação ou atividade contra o fascismo.

2. Insistir na impossibilidade de que qualquer ajuda venha dos partidos Republicano ou Democrata. Os negros devem impulsionar seus próprios candidatos com um programa da classe trabalhadora e formar uma frente única apenas com aqueles candidatos cujo programa se aproxime do seu.

Organização interna
As unidades locais dedicarão a essas questões de acordo com a urgência da situação local e das campanhas nacionais planejadas de forma central. Estas só poderão ser decididas após estudos.

(a) Começar com uma campanha em larga escala por fundos para estabelecer um jornal e, pelo menos, duas sedes — uma em Nova York e uma em alguma cidade como St. Louis, a curta distância do Sul.
(b) Um jornal de agitação semanal que custe dois centavos.
(c) O objetivo deve ser ter rapidamente ao menos cinco revolucionários profissionais — dois em Nova York, dois em St. Louis (?)4 e um constantemente viajando a partir do centro. Uma turnê nacional no outono, depois que o jornal estiver estabelecido, e um rascunho programático e objetivos estabelecidas. Uma conferência nacional no verão.
(d) Buscar um militante negro da África do Sul para uma turnê por aqui o mais rápido possível. Há pouca dúvida de que isso possa ser facilmente arranjado.

Os membros do partido na organização formarão uma fração, e todos os documentos importantes submetidos pela fração à organização dos negros deve ser ratificado pelo Comitê Político ou seus representantes designados.

Curtiss: A respeito de abrir a discussão sobre o socialismo no boletim [o periódico teórico proposto], mas excluindo-a, ao menos por um tempo, do jornal semanal: me parece que isso é um pouco perigoso. Acaba caindo na ideia de que o socialismo é para intelectuais e para a elite, mas que as pessoas de baixo só devem se interessar pelos assuntos comuns e do cotidiano. O método deve ser diferente em ambos os lugares, mas acho que deve ter, pelo menos, um direcionamento em relação ao socialismo no jornal semanal, não apenas do ponto de vista das questões do dia a dia, mas, ainda, no que costumamos chamar de discussão abstrata. Isso é uma contradição — o jornal de massas teria que tomar uma posição clara sobre a questão da guerra, mas não sobre o socialismo. É impossível fazer o primeiro sem o segundo. É uma forma de “economicismo” que os trabalhadores devam se interessar pelas questões cotidianas, mas não pelas teorias do socialismo.

James: Eu vejo as dificuldades e a contradição, mas tem algo que não consigo ver muito bem — se queremos construir um movimento massivo, não podemos mergulhar numa discussão sobre o socialismo, porque acho que isso causaria mais confusão do que faria ganhar apoio. O negro não tm interesse pelo socialismo. Pode ser conduzido ao socialismo com base em suas experiências concretas. Caso contrário, teríamos que formar uma organização de negros socialistas. Acho que devemos apresentar um programa mínimo, um programa concreto. Concordo que não devemos colocar o socialismo como algo distante no futuro, mas o que estou tentando evitar são longas discussões sobre o marxismo, a Segunda Internacional, a Terceira Internacional, etc.

Lankin: Essa organização abriria as portas para negros de todas as classes?

James: Sim, com base em seu programa. Os negros burgueses podem entrar para ajudar, mas apenas com base no programa da organização.

Lankin: Eu não consigo ver como a burguesia negra pode ajudar o proletariado negro a lutar pelo seu avanço econômico.

James: Em nosso movimento, alguns de nós são pequeno-burgueses. Se um burguês negro é excluído de uma universidade por conta de sua cor, essa organização provavelmente vai mobilizar as massas a lutar pelos direitos do estudante negro burguês. A ajuda para a organização será mobilizada com base em seu programa e não poderemos excluir nenhum negro dela se ele estiver disposto a lutar por aquele programa.

Trótski: Acredito que a primeira questão é a atitude do Partido Socialista dos Trabalhadores [SWP] em relação aos negros. É bastante inquietante descobrir que até agora o Partido não fez quase nada nesse campo. Não publicou um livro, um panfleto, um folheto, nem mesmo um artigo na New International. Dois camaradas que compilaram um livro sobre a questão, um trabalho sério, continuam isolados.5 Esse livro não foi publicado, nem mesmo há citações dele publicadas. Isso não é um bom sinal. É um mau sinal. O que caracterizava os partidos de trabalhadores nos EUA, as organizações sindicais e assim por diante era seu caráter aristocrático. Esta é a base do oportunismo. Os trabalhadores qualificados que se sentem inseridos na sociedade capitalista ajudam a classe burguesa a manter os negros e os trabalhadores não qualificados em uma escala muito baixa. Nosso partido não está a salvo da degeneração se continuar a ser um lugar para intelectuais, semi-intelectuais, trabalhadores qualificados e trabalhadores judeus que se mantêm quase isolados das massas genuínas. Sob essas condições, nosso partido não pode se desenvolver; vai se degenerar.

Precisamos manter esse grande perigo diante dos nossos olhos. Muitas vezes propus que cada membro do partido, especialmente os intelectuais e semi-intelectuais que, em um período, digamos, de seis meses, não consigam ganhar um trabalhador para o partido deveriam ser rebaixados à posição de simpatizantes. Podemos dizer o mesmo em relação à questão negra. As antigas organizações, começando pela AFL, são as organizações da aristocracia operária. Nosso partido faz parte do mesmo meio e não das massas exploradas na base, entre as quais os negros são os mais explorados. O fato de que nosso partido até agora não se voltou para a questão negra é um sintoma muito inquietante. Se a aristocracia operária é a base do oportunismo, uma das fontes de adaptação à sociedade capitalista, então as camadas mais oprimidas e discriminadas são as mais dinâmicas da classe trabalhadora.

Precisamos dizer aos elementos negros conscientes que eles estão convocados, pelo desenvolvimento histórico, a se tornarem vanguarda da classe trabalhadora. O que serve de freio nas camadas mais altas? Os privilégios, os confortos que os impedem de se tornar revolucionários. Isso não existe para os negros. O que pode transformar uma certa camada, fazendo-a mais capaz de coragem e sacrifício? Isso está concentrado nos negros. Se nós, no SWP, não formos capazes de encontrar o caminho em direção a essa camada, então, não teremos valor algum. A revolução permanente e todo o resto será apenas uma mentira.

Nos Estados Unidos, nós temos agora várias disputas. Competição para ver quem vai vender mais jornais, e assim por diante. Isso é muito bom. Mas precisamos estabelecer uma competição mais séria – a captação de trabalhadores e, especialmente, de trabalhadores negros. Até certo ponto, isso independe da criação de uma organização especial de negros.

Acredito que o partido deve usar a permanência temporária do camarada James nos EUA (a turnê foi necessária para que ele se familiarizasse com as condições), mas agora para os próximos seis meses, para trabalho organizativo e político de bastidores a fim de evitar atrair muita atenção das autoridades. Um programa de seis meses pode ser elaborado para a questão negra, para o caso de James ser obrigado a retornar à Grã-Bretanha por razões pessoais ou sob pressão da polícia. Antes de meio ano de trabalho teremos uma base para o movimento negro e um núcleo sério de negros e brancos trabalhando juntos nesse plano. Trata-se de uma questão da vitalidade do partido. É uma questão importante. Refere-se a se o partido vai se tornar uma seita ou se será capaz de encontrar seu caminho para acamada mais oprimida da classe trabalhadora.

Propostas ponto a ponto
1. Panfleto sobre a questão negra e os negros no PC, relacionando isso à degeneração do Krêmlin.

Trótski: Bom. E, também, talvez não seria bom mimeografar esse livro, ou partes dele, e enviar junto a outros materiais sobre a questão às várias seções do partido para discussão?

2. Um número da New International sobre a questão negra.

Trótski: Acredito que isso é absolutamente necessário.

Owen: Me parece perigoso lançar um número sobre a questão negra antes de ter uma organização negra capaz de garantir sua distribuição.

James: Não é planejado primordialmente aos negros. É planejado para o próprio partido e demais leitores da revista teórica.

3. O uso da história dos próprios negros para formá-los.

Acordo geral
4. Um estudo sobre a revolução permanente e a questão negra. 

Acordo geral
5. A questão do socialismo — ou trazemos pelo jornal ou pelo boletim [o periódico teórico proposto].

Trótski: Eu não acho que possamos começar excluindo o socialismo da organização. Você propõe uma organização ampla, um tanto heterogênea, que vai inclusive aceitar pessoas religiosas. Isso poderia significar que se um trabalhador, um camponês, ou um comerciante negro faz um discurso na organização afirmando que a única salvação para os negros é a igreja, seremos tolerantes demais para expulsá-lo e, ao mesmo tempo, tão sábios para não o deixarmos advogar a religião, mas nós mesmos não vamos advogar o socialismo. Se entendermos o caráter desse meio social, adaptemos a ele a apresentação das nossas ideias. Seremos cautelosos; mas amarrar nossas mãos de saída – dizer que não introduziremos a questão do socialismo por ser um tema abstrato – não é possível. Uma coisa é apresentar um programa socialista geral; outra coisa é estar muito atento às questões concretas das vidas dos negros e opor o capitalismo ao socialismo nessas questões. Uma coisa é aceitar um grupo heterogêneo e trabalhar com ele, outra coisa é ser absorvido por ele. 

James: Concordo bastante com o que você está dizendo. O que tenho medo é de levar adiante um socialismo abstrato. Você vai lembrar que eu disse que o grupo dirigente precisa entender precisamente o que está fazendo e aonde está indo. Mas que a formação socialista das massas deve emergir das questões cotidianas. Estou ansioso apenas em evitar que as coisas se desenvolvam em uma discussão interminável. A discussão deve ser livre e plena através do órgão teórico.

No que diz respeito à questão do socialismo, no órgão de agitação, minha opinião é que a organização deve definitivamente se estabelecer a partir do trabalho com o cotidiano dos negros de forma que as massas de negros possam se envolver com este antes de se envolver nas discussões sobre o socialismo. Embora, é claro, um indivíduo possa levantar quaisquer pontos que deseje e apontar sua solução para os problemas dos negros, a questão é se aqueles que estão dirigindo a organização como um todo devem começar falando em nome do socialismo. Acho que não. É importante lembrar que aqueles que tomam a iniciativa devem ter algum acordo comum quanto às questões fundamentais da política hoje, de outra forma, haverá grandes problemas à medida que a organização se desenvolva. Mas, embora estes, como indivíduos, tenham o direito de apresentar seu ponto de vista particular na discussão geral, ainda assim a questão é se eles devem falar como um corpo de socialistas desde o início, e na minha visão pessoal não devem.

Trótski: No órgão teórico, você pode ter discussão teórica, e no órgão de massas, uma discussão política de massas. Você diz que eles estão contaminados pela propaganda capitalista. Diga a eles, “Vocês não acreditam no socialismo. Mas vocês verão que, nos combates, os membros da Quarta Internacional não apenas estarão com vocês como serão, provavelmente, os mais militantes.” Eu chegaria ao ponto de que todos os nossos oradores terminassem seus discursos dizendo: “Meu nome é Quarta Internacional!” Eles verão que nós somos os lutadores, enquanto aqueles que pregam a religião, no momento crítico, vão para a igreja em vez do campo de batalha.

6. Os grupos organizadores e indivíduos da nova organização devem estar em completo acordo sobre a questão da guerra.

Trótski: Sim, é a questão mais importante e a mais difícil. O programa pode ser muito modesto, mas, ao mesmo tempo, deve permitir a todos liberdade de expressão em seus discursos, e assim por diante; o programa não deve ser o limitador da nossa atividade, mas apenas nossa obrigação comum. Todos devem ter o direito de ir além, mas todos são obrigados a defender o mínimo. Veremos como esse mínimo será cristalizado à medida que avançamos nas primeiras etapas.

7. Uma campanha em alguma indústria pelos negros.

Trótski: Isso é importante. Isso trará conflito com alguns trabalhadores brancos que não vão querer. É uma mudança dos elementos trabalhadores mais aristocráticos para os elementos das camadas mais baixas. Atraímos para nós algumas das camadas mais altas dos intelectuais quando eles sentiram que precisávamos de proteção: Dewey, LaFollete, etc. Agora que estamos empreendendo um trabalho sério eles estão nos deixando. Acredito que perderemos mais duas ou três camadas e penetraremos mais profundamente nas massas. Essa será a pedra de toque.

8. Campanha de habitação e aluguel.

Trótski: É absolutamente necessário.

Curtiss: Também funciona muito bem com nossas demandas de transição.

9. Manifestação em restaurantes.

Trótski: Sim, e conferir-lhe um caráter ainda mais militante. Poderia haver piquete do lado de fora para chamar atenção e explicar o que está acontecendo.

10. Empregados(as) dos serviços domésticos.

Trótski: Sim, eu acredito que isso é muito importante; mas acho que há uma consideração a priori de que muitos desses negros trabalham para pessoas ricas e estão desmoralizados e foram transformados em criados moraiscriadagem moral. Mas há outros, uma camada maior, e a questão é ganhar aqueles que não são tão privilegiados.

Owen: Este é um ponto sobre o qual eu gostaria de intervir. Há alguns anos eu morava em Los Angeles, perto de um setor de negros – um que ficava separado dos outros. De negros que eram os mais prósperos. Perguntei sobre o trabalho deles e os próprios negros me disseram que eram criados – muitos deles em casas da movie colony6. Me surpreendeu o fato de haver criados nos altos estratos. Essa colônia de negros não era pequena; consistia de algumas milhares de pessoas.

James: É verdade. Mas se você é sério, não é difícil chegar às massas negras. Eles vivem juntos e se sentem juntos. Essa camada de negros privilegiados é menor que qualquer outra camada. Os brancos lhes tratam com tal desprezo, que, apesar de si mesmos, estão mais próximos dos outros negros do que você pensa. Nas Índias Ocidentais, por exemplo, há grandes divisões entre os negros – determinadas classes de negros não confraternizam com outra classe. Mas isso não é verdade aqui. Aqui, são mantidos em guetos.

11. Mobilizar os negros contra o fascismo.
Acordo geral

12. A relação dos negros com o Partido Republicano e o Partido Democrata.

Trótski: Quantos negros há no Congresso? Um. Existem 440 membros na Câmara dos Deputados e 96 no Senado. Então, se os negros tiverem quase 10% da população, eles têm direito a 50 membros, mas têm só um. É uma imagem clara da desigualdade política. Nós podemos , com frequência, opor um candidato negro a um candidato branco. Essa organização de negros pode sempre dizer: “Nós queremos um negro que conheça nossos problemas”. Isso pode ter consequências importantes.

Owen: Me parece que o camarada James ignorou uma parte muito importante do nosso programa — o de um partido trabalhista.

Johnson: A região de maioria negra quer apresentar um candidato negro. Dizemos-lhes que não devem se apresentar apenas como negros, mas ter um programa adequado às massas negras pobres. Eles não são estúpidos e eles podem entender isso e isso deve ser encorajado. Os trabalhadores brancos colocam um candidato trabalhista em outra seção. Então dizemos aos negros na região de maioria branca: “Apoie esse candidato porque suas demandas são boas demandas dos trabalhadores”. E dizemos aos trabalhadores brancos na região negra: “Você deve apoiar o candidato negro, porque, além de negro, você pode ver que o programa dele é eficaz para toda a classe trabalhadora”. Isso significa que os negros têm a satisfação de ter seus próprios candidatos em regiões onde eles são maioria e, ao mesmo tempo, construímos a solidariedade operária. Isso se encaixa no programa do partido trabalhista.

Carlos: Isso não se aproxima da Frente Popular7, votar em um negro só por que é negro?

James: Essa organização tem um programa. Quando os democratas colocam um candidato negro, dizemos: “De maneira alguma. Precisa ser um candidato com um programa que possamos apoiar”.

Trótski: Isso é uma questão de outra organização pela qual não somos responsáveis, assim como eles não são responsáveis por nós. Se essa organização apresenta um certo candidato, e nós como partido achamos que devemos apresentar o nosso próprio candidato em oposição, temos pleno direito de fazê-lo. Se somos fracos e não conseguimos que a nossa organização escolha um revolucionário, e eles escolhem um negro democrata, podemos até retirar nosso candidato com uma declaração concreta de que estamos nos abstendo de concorrer não contra um democrata, mas contra um negro. Consideramos que a candidatura do negro em oposição à candidatura do branco, mesmo que ambos sejam do mesmo partido, é um fator importante na luta dos negros por igualdade; e neste caso podemos apoiá-los criticamente. Acredito que em certos casos isso pode ser feito.

13. Um negro da África do Sul ou Ocidental para uma turnê pelos Estados Unidos.

Trótski: O que ele ensinará?

James: Tenho em mente vários jovens negros, e qualquer um destes poderá transmitir uma imagem anti-imperialista e antiguerra nítida. Acho que seria muito importante para construir uma compreensão do internacionalismo.

14. Submeter documentos e planos ao Comitê Político.

Acordo geral

James: Concordo com sua postura sobre o trabalho do partido em conexão com os negros. Eles são uma força tremenda e dominarão o conjunto dos estados do Sul. Se o partido se mantiver aqui, a revolução está ganha nos Estados Unidos. Nada pode pará-la.

***

* Tradução feita com base no original em inglês constante do capítulo 5 de At the rendevouz of Victory: Select Writings [Do encontro de Victória: escritos escolhidos], intitulado “Discussions with Trotsky” [Discussões com Trótski], publicado pela Lawrence Hill Books em 1985 em comparação com Leon Trotsky on Black Nationalism and Self-Determination [Leon Trótski sobre o nacionalismo negro e autodeterminação], segunda edição, organizado e editado por George Breitman e publicado pela Pathfinder Press em 1977.

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