Cultura

Pierre Broué e as lições da luta pelo bolchevismo

Fernando Pardal

@fepardal

domingo 18 de janeiro de 2015| Edição do dia

Pierre Broué foi o mais importante historiador do bolchevismo, tendo dedicado um grande esforço para elaborar diversos trabalhos capazes de demonstrar as ideias, a prática, o percurso histórico desse que, até hoje, permanece sendo o mais importante partido revolucionário que a classe operária já construiu.

Acaba de ser lançado pela editora Sundermann um de seus mais importantes trabalhos: O Partido Bolchevique, um monumental estudo no qual Broué procura resgatar a história do partido de Lênin e Trotsky desde os primórdios do marxismo na Rússia até a reorganização da oposição à burocracia soviética após a Primavera de Praga, em 1968.

Contudo, dada a época em que escreveu o livro – tendo sua primeira edição sido lançada em 1963 – é nítido que o autor fez uma escolha sobre o que priorizaria na obra. Toda a primeira fase da construção da Social-Democracia russa, passando pela constituição do Grupo Emancipação do Trabalho sob a direção de Gyorgy Plekahnov, depois a fase do jornal Iskra elaborada pelo pequeno grupo de marxistas exilados, a divisão entre bolcheviques e mencheviques, e mesmo o período das revoluções de 1905 e 1917 não são o tema principal a ser tratado por Broué. O próprio León Trotsky elaborou obras que tratam com um nível de detalhamento maior esse período de auge do bolchevismo, como sua excelente autobiografia, Minha Vida.

Assim, é compreensível que Broué tenha optado por não hierarquizar esse período – ainda que lhe trace um ótimo panorama – e tenha dado muito mais ênfase para abordar aquilo que, em sua época, constituía o centro das divergências sobre o significado histórico do bolchevismo: a luta da oposição contra o stalinismo. O intuito de Broué é criar uma sólida e inconstestável contraposição ao senso comum que a burguesia procura criar sobre o bolchevismo e o comunismo em geral, de que a tirania despótica de Stalin não é mais do que uma “consequência natural” da construção de um partido operário que lute para tomar o poder e de todo o pensamento estratégico e teórico de Lênin.

É por isso mesmo que, ao retratar as primeiras décadas do bolchevismo, Broué dá grande destaque ao enorme papel que a democracia interna cumpria no partido. Lênin, ao idealizar o regime partidário, elaborou a fórmula dialética do “centralismo democrático”, no qual, a depender das necessidades do momento, se combina o mais livre debate interno no partido com a unidade de ação para que o partido possa “golpear como um só punho” contra o tzarismo e a burguesia. Foi essa democracia partidária que inclusive permitiu que Lênin impusesse a vontade da base do partido sobre sua direção que vacilava, e aprovasse suas “teses de abril” para preparar uma revolução autenticamente operária e lutar por todo poder aos sovietes em 1917. Para isso, teve que mudar a linha que dirigentes como Stálin, Zinoviev e Kamenev desejavam para o partido de – em maior ou menor medida – conciliar com o governo provisório que unia mencheviques, socialistas revolucionários e burgueses numa luta para conter os anseios das massas operárias e camponesas.

Broué traça um quadro detalhado da luta da oposição, a começar em 1923, quando Lênin, afetado gravemente pela doença que tiraria sua vida, torna-se incapaz de levar adiante aquilo que entendia como uma luta fundamental: contra a burocratização do partido. Seu testamento político, o documento derradeiro para travar essa luta, foi omitido do partido, mostrando que já então a luta era dura. Contudo, a obra não é simplista, e por isso consegue destruir os mitos que procuram justificar a burocratização como obra de um “gênio do mal” que seria Stálin. Na verdade, Broué dá argumentos sólidos para demonstrar a correção da posição trotskista, que vê no ascenso de Stálin a consequência da miséria e do atraso da Rússia e, fundamentalmente, do isolamento da revolução russa frente às importantes derrotas da classe operária em diversos países, principalmente na Alemanha. Derrotas estas que, por sua parte, passam a ser fruto direto da política da Internacional Comunista sob a direção de Stálin e Bukharin.

O livro nos mostra a vacilação dos mais importantes dirigentes históricos do bolchevismo diante da burocratização soviética. Os exemplos mais importantes, sem dúvida, são os de Kamenev e Zinoviev, que no primeiro momento se aliam a Stálin, constituindo a troika (triunvirato) para combater e caluniar a Oposição de Esquerda que se formava com Trotsky à cabeça em 1923; a partir de 1926, no entanto, Kamenev e Zinoviev, vendo o perigo representado pelo stalinismo e sua condução do partido, fazem um balanço público de se aliam a Trotsky, compondo a Oposição Unificada, que irá agregar dezenas de milhares de militantes para combater a linha oficial do partido e seu avançado processo de burocratização. Mas a máquina partidária, inflada por centenas de milhares de arrivistas e presa à dinâmica social da miséria russa, já contava com um aparato poderoso demais, e utilizando de todos os recursos disponíveis, inclusive da força física, impediu que a Oposição Unificada expusesse seu ponto de vista para a classe e o partido.

Zinoviev e Kamenev, completamente abatidos pelas primeiras derrotas e por uma circunstancial “virada à esquerda” da burocracia, decidem capitular a Stálin para “combater por dentro” o processo de burocratização. Paralelamente, Bukharin constitui a “Oposição de Direita”, com uma divergência centrada fundamentalmente na política econômica em relação aos camponeses. Este, também um importante dirigente que havia se aliado a Stálin para combater a Oposição Unificada, nesse momento irá dizer a Kamenev: “Este é um dirigente sem princípios que é capaz de tudo em sua ânsia pelo poder. (...) Ele fez certo número de concessões para poder nos degolar melhor. (...) Só conhece a vingança e a punhalada pelas costas. (...) Ele nos assassinará! É o novo Gengis Khan, nos estrangulará.” Essa fala desesperada expressa o que todos os aliados de Stálin irão sentir em algum momento, quando passam a ser as vítimas de sua perseguição. Kamenev e Zinoviev serão presos e, posteriormente, fuzilados nos “Processos de Moscou”, que marcam o início dos grandes expurgos e assassinatos em massa promovidos por Stálin contra o partido. Antes disso, sob uma brutal tortura, eles, como muitos antigos bolcheviques depois, “confessaram” seus crimes e os anunciaram publicamente, louvando também a linha stalinista.

O foco de Broué não é apenas as disputas internas do partido, mas, como um marxista que compreende que tais disputas estão associadas à situação da luta de classes nacional e internacional, o autor demonstra em detalhes os fracassos contundentes da política stalinista. A disputa entre a política econômica defendida pela oposição (Preobrazhenski e Trotsky) e a política da burocracia para o enriquecimento dos camponeses ricos (kulaks), defendida por Bukharin. A revolução alemã em 1923, a formação do comitê anglo-russo em 1926, a revolução chinesa em 1926-27 são todos episódios fundamentais para afundar possibilidades concretas de novas revoluções que poderiam dar um novo fôlego par a Rússia. Todas essas derrotas são uma consequência direta da política stalinista que hegemoniza a III Internacional.

A luta da oposição dirigida por Trotsky, Zinoviev e Kamenev (um “sancho pança de duas cabeças”, como os definiu em certo momento Trotsky) se encerra com a vitória de Stálin e o exílio de Trotsky. Mas Broué demonstra como, por baixo, segue a luta de dezenas de milhares de oposicionistas. Mesmo após os brutais expurgos dos anos 1930, após a monstruosa política de aliança entre Hitler e Stalin, seguirá a luta da oposição. Quando estoura a guerra entre Alemanha e URSS, os oposicionistas presos nos campos de trabalhos forçados se oferecem aos milhares para ir para o front, e inclusive participar de ataques suicidas, para defender as conquistas da revolução. Os que sobrevivem à guerra são posteriormente executados por Stálin.

Talvez um dos maiores méritos do livro de Broué seja demonstrar como, ano após ano, massacre após massacre, a burocracia de Stálin e, após sua morte, dos “novos” burocratas, nunca foi capaz de extinguir os oposicionistas. Assim, por exemplo, Broué mostra como, após os levantes da Primavera de Praga de 1968, ganha força uma nova oposição comunista na URSS dirigida por um veterano bolchevique, Alexei Kosterin, militante do partido desde 1911 e sobrevivente dos campos de trabalhos forçados do stalinismo, os Gulags. Essa oposição luta pelo retorno a Lênin e ao “bolchevismo-leninismo” (denominação utilizada pelos oposicionistas trotskistas dos anos de 1920-30). Isso porque, como afirma Broué, “Sem dúvida, as leis da história são mais poderosas do que o mais perfeito aparato ou do que a polícia mais dura e mais capaz na utilização de métodos ditos científicos.”

Essa é a lição fundamental a aprendermos com o livro de Broué: quase cem anos após a revolução russa, o capitalismo se restaurou em seu berço e não existe mais o partido de Lênin. A classe operária passou por décadas de derrotas, de fragmentação e decomposição. Contudo, hoje ela é mais numerosa e poderosa do que nunca, e a crise do capitalismo que se desenvolve e se aprofunda há quase dez anos mostra a vigência dessas palavras de Broué, autenticamente marxistas. As leis da história são mais poderosas do que qualquer burocracia ou do que os ataques mais ferozes da burguesia. O marxismo, o bolchevismo-leninismo, segue vivo. As oportunidades históricas de demonstras sua atualidade e sua potência para destruir o capitalismo e retomar a obra histórica de Lênin, Trotsky e de milhões e milhões de trabalhadores, estão ressurgindo. Cabe a nós e as futuras gerações fazer valer o sacrifício, a heroica luta dessas gerações combatentes que nos antecederam.




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