Cultura

ARTES PLÁSTICAS

Picasso e a força da pintura

“A pintura é mais forte que eu, me faz dizer o que ela quer” disse o artista que se tornou um dos mais importantes pintores do século XX, percursor de técnicas e estilos, defendeu uma arte engajada. A Exposição Picasso: Mão Erudita, Olho Selvagem, no Instituto Tomie Ohtake irá até domingo, 14/08.

sexta-feira 12 de agosto| Edição do dia

O Beijo, 1925

Picasso é um dos grandes nomes da arte do século XX, sua vasta e múltipla produção artística lhe renderam fama mundial e influência sobre diversas vanguardas artísticas, ecoando, desta forma, seu estilo ao longo das décadas.

Sua infância sempre foi rodeada pela arte, filho de um pintor e restaurador de obras, aos 14 anos já estudava na Escola de Belas Artes de La Coruña, a qual seu pai era professor. Neste ambiente inicia a imersão nos estudos da arte, sobretudo espanhola e absorve com grande destreza variados tipos de técnicas, suportes. O período de juventude de Picasso é marcado por diversas experimentações estilísticas as quais nitidamente nota-se a influencia das obras de Paul Gauguin, Henri de Toulouse-Lautrec e Edward Munch, transitava muito entre as cidades de Madri e Barcelona fazendo-se conhecido na vanguarda pelo seu trabalho gráfico no restaurante Quatre Gats. É possível notar a grande semelhança entre seu trabalho e as gravuras de Toulouse-Lautrec.


Esquerda: Quatre Gats Menu - Barcelona, Picasso, 1899-1900; Direita: Reine de Joie, Lautrec, 1892

A partir de 1906, Picasso passa por uma transformação profunda em seu estilo, caminha para o característico traço que o distinguirá por toda sua carreira. Influenciado principalmente por Paul Gauguin, mas também pela arte ibérica e as esculturas românicas catalãs, adotou gritantes simplificações de forma e espaço que podem ser facilmente compreendidas ao observarmos As Senhoritas de Avignon. A geometrização e a forma de “tratar a natureza com cilindros, esferas, cones, tudo em perspectiva” de Paul Cézanne, passam a ser absorvidos e aprofundados cada vez mais por Picasso, que em 1908, em conjunto com Georges Braques inaugura o cubismo.


As Senhoritas de Avignon, 1907

“Tentamos nos livrar da técnica do ‘trompe-l’oeil’ para adotar a do ‘trompe l’esprit’", anunciou o jovem Picasso. Os dois artistas tinham como intuito representar o mundo não como se apresentam aos olhos, mas sim como se apresentam ao intelecto. Utilizam elementos que Picasso nomeia como “atributos” – chaves de leitura que permitem a compreensão do que é representado – para que sua obra seja decifrada em meio a um turbilhão enigmático. Dentro do cubismo o próprio Picasso possui diferentes fases: a primeira é a chamada cezanniana (1908-1909), marcada pela herança de Paul Cézanne e a geometrização; a segunda, analítica (1910-1911) é caracterizada pela decomposição e sobreposição do motivo – padrão, algo que se repete no quadro, por exemplo – em diferentes perspectivas; e a terceira, sintética (1912), que é perceptível pelo recorrente uso da colagem em suas obras, onde desde então a colagem ganhou um papel importante na produção artística moderna com a utilização de objetos cotidianos na arte.


Composition with a Violin Paris, 1912, or later

Não entraremos nos outros inúmeros objetos de estudo e experimentações de Picasso, que passam desde seu mergulho no classicismo, desenhos de figurinos do balé russo, passagem pelo surrealismo, incrível dedicação à produção cerâmica e um posterior mergulho aos temas clássicos de pinturas do corpo feminino, abraços e beijos, pois excederíamos as linhas deste texto, mas há um período em especial que marcou definitivamente a vida e carreira do artista e de milhões de civis espanhóis: O ascenso do fascismo e a resistência.

Picasso tem uma mudança em suas obras, antes coloridas e vivas com sua experimentação surrealista, passam a assumir, nos fins de 1930, uma tonalidade escura com corpos rígidos. Em 1936 engaja-se no lado republicano e se envolve nos projetos de desenvolvimento de arte e cultura do governo da Frente Popular. Quando em 1937 é convidado para expor na Exposição Universal realizada na cidade de Paris, pinta Guernica como resposta ao bombardeio nazista nesse vilarejo em abril de 1937. Esta obra viria a se tornar seu quadro mais famoso e símbolo da resistência ao fascismo de Franco, tendo dimensão da repercussão que poderia causar este seu ato entra em contato com Dora Maar para fazer o registro fotográfico da confecção da obra.


Guernica, 1937

“Como seria possível não se interessar pelos outros homens e, com total indiferença, afastar-se da própria vida que eles mesmos trazem com tanta abundância? Não, a pintura não é feita para decorar apartamentos. É um instrumento de guerra ofensiva e defensiva contra o inimigo”, declarou.

Durante todo o período da guerra, suas obras ganham um tom monocromático, com diversas alegorias que trazem à tona o constante sentimento de insegurança, além disso, outro elemento bastante ressaltado é a condição meramente mortal do ser humano e a intensa violência psicológica a qual estava submetida a população civil, expressa em rostos formados e corpos retorcidos.

A contribuição de Picasso é imensurável, sua influência está presente em inúmeras obras contemporâneas e seu ideal estético abriu margem para toda uma reflexão de representação artística. Conhecer um pouco mais sobre a vida e a obra desse artista é extremamente importante e ainda mais com a oportunidade de ver ao vivo uma parcela de suas obras e esboços que estão em exposição no Instituto Tomie Ohtake até este domingo, 14/08.

A exposição que traça uma linha cronológica destrinchando os “diferentes picassos” traz cerca de 150 obras do artista pertencentes ao Musée National Picasso-Paris. Picasso: mão erudita, olho selvagem ilustra a compreensão da estética de Picasso com diversos esboços, obras de cerâmica, colagens e pinturas que revelam desde seus estudos mais tenros até a demonstração do choque que um artista no crepúsculo da vida pode causar. Apesar de a exposição não trazer Guernica, os registros de sua intensa elaboração feitas a partir dos olhos e lentes de Dora Maar, são apresentados juntos a áudios-visuais que não deixam a desejar em traduzir a força dessa importante obra.




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