Política

OPINIÃO

Pesquisas mostram que crise política só aumenta, Temer e suas reformas contribuem

Novas pesquisas feitas pelo IBOPE e pelo instituto IPSOS mostram como a elite tupiniquim tem que ficar atenta com suas comemorações pelos grandes ataques aos direitos dos trabalhadores. Cresce a cada dia a desconfiança com as instituições e com todos políticos, inclusive aqueles criados do bolso da BOVESPA e da cabeça publicitária como João Doria. A rejeição atinge todos políticos de Lula a FHC e Alckmin, alcançando até mesmo os supostamente “outsiders” Bolsonaro e Marina.

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

sexta-feira 28 de julho| Edição do dia

Pesquisas mostram o aumento da rejeição a políticos e um recorde de desaprovação das instituições. Como essa constatação, empiricamente comprovável nas ruas, pode trazer estabilidade (burguesa) ao país? Podem as reformas de Temer garantir não só o sorriso do pato da FIESP mas a aceitação dos “escravos modernos”, os assalariados, com cada vez menos direitos?

Temer se aguentou depois de reiteradas investidas do consórcio Globo-Fachin-Janot. Não havia consenso para a posse de Rodrigo Maia como novo condutor dos ataques que alçaram uma corja ao poder mediante um golpe institucional. As centrais sindicais, mesmo com um ataque aos direitos trabalhistas digno do século XIX se calaram e traíram a vontade dos trabalhadores de rejeitar essa e outras reformas para garantir seu imposto sindical. Todos esses fatores podem se reverter, pode surgir um consenso patronal pró-Maia, Janot pode dar uma cartada final antes de perder seu cargo em Setembro e – batalhamos por isso – os trabalhadores podem superar os entraves das burocracias sindicais e revogar a reforma trabalhista e outras medidas (a força que o dia 28 de Abril mostrou seria o ponto de partida). Mas suponhamos que nada disso se concretize e Temer, na malandragem e na retranca, aguente até os 45 do segundo tempo. Isso promete estabilidade (burguesa) ao país?

O ministro da fazenda Henrique Meirelles tuitou essa tarde feliz com os novos dados do desemprego. Estaríamos rumando a uma retomada da economia e a “felicidade geral”?

Supostamente o desemprego caiu. Coitadas das estatísticas. Podem ser espancadas até dizerem o que seus donos quiserem. A taxa de desemprego caiu mesmo que o número de empregos formais também tenha caído. Como? Segue alto o número de trabalhadores que desistem de procurar emprego (e escapam da estatística oficial) e com um substancial aumento do trabalho precário, informal. Um traço tão brasileiro como a escravidão dos negros que durou mais de três séculos.

E nesse aumento do trabalho precário: sim, Meirelles falou a verdade, isso sim é resultado das medidas do governo. Estão garantindo que o Brasil reproduza seus traços mais característico em maneira ampliada. O país campeão de emprego informal aumenta essa característica que acomete em primeiro lugar as mulheres, os negros, os jovens.

Como que esse dado pode ser comemorado? Daria ele um novo rumo ao país, um novo discurso hegemônico a recompor não só a governabilidade mas as instituições e dar uma coesão que una os “de baixo” aos “de cima” e seus interesses?

Não há sinais na economia mundial de um vento de cauda a ajudar a economia sustentadamente pela via de exportações. E na esfera da política o descontentamento só cresce como mostram as pesquisas.

Diz o relatório de pesquisa do IBOPE: “A confiança na instituição presidente foi a que apresentou a variação mais expressiva: de 30 pontos em 2016 para 14 neste ano. A segunda queda mais acentuada foi na instituição governo federal: de 36 para 26. (...) Assim, o Índice de Confiança Social em 2017 fica em 52 pontos, mesmo patamar do ano passado (51). A média permanece estável, apesar da queda das instituições políticas, que foram compensadas pelo crescimento na confiança das Igrejas, polícia, bancos, meios de comunicação e escolas públicas”.

Temer está conseguindo a proeza não só de ter uma rejeição maior a de Dilma como está arrastando a Presidência da República junto a seus abissais níveis de aprovação, derrubando a credibilidade da instituição mesmo se tomarmos por comparação o recorde negativo de julho do ano passado em meio a todos trâmites do impeachment.

A perspectiva de substituição de Temer não parece conferir novas balizas seguras, pois as eleições podem dar fôlego a algum “outsider”, ou até mesmo a um Macron brasileiro a conduzir renovada ofensiva patronal contra os trabalhadores, mas até mesmo o “flamante” exemplo francês está se chamuscando rapidamente e todos políticos mensurados hoje em dia pelo instituto IPSOS têm maior rejeição que aceitação. As únicas exceções mensuradas foram Luciano Huck, Joaquim Barbosa e Sérgio Moro.

Ou seja, todos políticos que não esses mencionados acima e que oficialmente não são candidatos a nada (ainda), poderiam ganhar eleições, mas não ganhar “mandato”. Vejamos a avaliação negativa de alguns políticos segundo esse instituto.

Temer: 93%
Eduardo Cunha: 92%
Aécio: 91%
Renan: 84%
Dilma: 82%
FHC: 74%
Lula: 68%
Rodrigo Maia: 64%
Marina Silva: 62%
Gilmar Mendes: 58%
Henrique Meirelles: 57%
Crivella: 56%
Ciro Gomes: 55%
Bolsonaro: 54%
Doria: 52%

Na política não há vazio. O fortalecimento de instituições não democráticas como o exército, a polícia, a mídia, as igrejas como aponta a pesquisa do IBOPE mostram que esse descrédito geral pode dar lugar a “novidades” com décadas ou mesmo séculos de velhice.

Está claro que as conquistas da burguesia para aumentar a exploração dos trabalhadores e destruição de direitos sociais, como a PEC 55 faz com a saúde e educação, gera tapinhas nas costas nos convescotes da high society e possivelmente uns cheques para financiar campanhas futuras, mas disso a garantir e formar uma nova hegemonia parece faltar “feijão” ao regime político e suas frações.

Essa instabilidade na política e não aprovação das medidas de ataque (mensurável em diversas pesquisas de opinião) não é garantia de que as coisas rumem a esquerda e favoravelmente aos trabalhadores. Nunca uma pesquisa irá impor o fim das demissões, a rejeição de uma proposta defendida pela FIESP. Isso é arrancado, conquistado.

Como dissemos em editorial, a conjuntura pré-revolucionária aberta entre maio e junho, com o salto na crise do governo e a possibilidade de novas ações de massas, refluiu e se fechou, com a responsabilidade crucial da traição das burocracias conservadores que dirigem as centrais sindicais (CUT, Força Sindical, CTB). Este refluxo, porém, se dá no marco de uma situação complexa em que a partir da volta do recesso parlamentar podemos voltar a ter conjunturas mais “quentes” no segundo semestre.

As centrais, o PT, atuam para deixar passar todos ataques, em primeiro lugar a nefasta reforma trabalhista. Toda essa crise de representatividade que se soma a crise econômica e social do país, traços marcantes da situação política podem ser aproveitadas pela esquerda anticapitalista e revolucionária, do contrário com o tempo os ataques de Temer se consolidarão e mais, a mídia, as igrejas, Bolsonaro estão aí, à espreita. O futuro nunca está garantido de antemão, por maior que seja a crise, por isso, como dizia o poeta revolucionário russo Maiakovski: é preciso arrancar alegria ao futuro.




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