Política

ELEIÇÕES 2016 SP

Pesquisa eleitoral de SP: Russomano e Erundina, os sinais da crise de representatividade

Os primeiros números da pesquisa de opinião eleitoral divulgados pelo Ibope mostram uma eleição imersa na crise de representatividade e na crise com os principais partidos da burguesia.

Fernanda Montagner

São Paulo

quarta-feira 24 de agosto| Edição do dia

Nem o candidato do PSDB, João Dória, consegue expressividade, com 9% de intenção de voto, mesmo em um estado comandado desde 1994 pelo seu partido, nem o atual prefeito do PT, Fernando Haddad, também com 9%, que apesar de ser uma aposta do petismo vê sua popularidade baixíssima.

Lidera as pesquisas o deputado Celso Russomanno (PRB-SP), com 33% de intenções de voto, candidato que é um ponto fora da curva da antiga polarização entre PT e PSDB, e vem conseguindo entrar pela direita nesse sentimento de desgaste com o regime. Por outro lado, também Luiza Erundina (PSOL) com 9% de intenções de voto, mas que em pesquisa anterior estava alguns pontos à frente do PT, indica um espaço eleitoral que busca alternativas à esquerda, apesar de todas as contradições dessa candidata, que desenvolveremos abaixo.

Já a senadora e ex-prefeita Marta Suplicy (PMDB) está em segundo lugar, com 17%. Major Olímpio (SD) chegou a 2% das intenções de voto. Quatro candidatos têm 1%: Altino Melo Prazeres Jr. (PSTU), João Bico (PSDC), Levy Fidelix (PRTB) e Ricardo Young (Rede). Henrique Áreas (PCO) não chegou a 1% de citações, branco ou nulo somam 13%, não souberam responder chegam a 4%. A margem de erro é de 3 pontos porcentuais, para mais ou para menos. A pesquisa utilizada foi realizada entre os dias 19 e 22 de agosto, não pegando assim a influência do primeiro debate eleitoral realizado pela Band.

Haddad, sofre com a maior rejeição, de 52% dos entrevistados, seguido de Marta com 35%. Ambos sofrem com o desgaste do petismo, em uma cidade com um setor antipetista duro, Marta nesse caso vive entre a cruz e a espada, petista pelo passado, golpista pelo presente. Marta ainda carrega em sua figura a ligação com o antigo partido, que apesar de tentar negar, não pode de todo pois isso significaria jogar fora sua vida política e impor a si mesmo uma contradição de perder pontos de apoio eleitoral para a campanha.

Não por acaso, esse foi seu flanco fraco no debate, atacada por Dória que usava seu passado várias vezes tentando emparedar a candidata, quando se direcionava a ela e “seu partido”, remetendo ao PT. Por outro lado, no atual PMDB, partido golpista de Temer, também sofre com o desgaste dos setores mais progressistas e democráticos que lutaram contra o golpe. A atual PMDBista busca retomar sua influência nas periferias.

Haddad, por sua vez, mais atrás que Marta, é o candidato mais “espremido”, entre Marta e Erundina, e não consegue ter um perfil de esquerda tanto pela sua gestão que privilegiou a classe média, mas que reprimiu secundaristas junto a Alckmin, aumentou a tarifa dos ônibus, propôs privatizar as UBS, mas também pelas recentes afirmações relativizando o Golpe. No debate era nítido seu nervosismo, principalmente nesse tema. Como se desvencilhar do PT para arrancar voto da direita sem acabar com seu papel “jovem e democrático”?

Pelo visto não tem tido muito sucesso nessa manobra, inclusive os elogios a sua gestão vem principalmente a partir de critérios neoliberais, como de Nassif que o elogiou porque melhorou a relação receita/divida, reconhecendo entretanto que isso não gera nenhum voto, salvo se as agências de crédito votassem. Esse é um problema nacional para o PT que tinha no Haddad um ponto de apoio para preparar as eleições de 2018.

Já Doria, com um perfil de direita séria, privatista e empresarial, sofre pelo desconhecimento com um dos piores resultados na pesquisa até o momento. Veremos em breve se a vantagem que tem por maior tempo de TV, resultado das suas dezenas coligações, vai lhe render maior popularidade.

Russomanno, por sua vez, reservou a si mesmo o privilégio de não entrar nas polêmicas e tentar administrar sua posição. Seus movimentos são de quem prepara um segundo turno sem se desgastar frontalmente com a base petista, buscando personalizar o Haddad, mas sabendo que em um possível segundo turno com Marta terá que ter margem de manobra para dialogar com um setor anti-tucano. Uma vez que Marta, por ser apoiada por Temer e Serra, terá sua figura aproximada ao tucanato, e, principalmente, pelo setor petista.

O candidato do PRB, mais do que uma direita privatista, expressa uma direita ideologicamente reacionária. Russomanno é apresentador do programa Cidade Alerta, que saúda a polícia e seus assassinatos e perseguições a juventude negra. Uma de suas propostas polêmicas é cercar a Cracolândia, medida xenofóbica e que incita um sentimento de ódio aos moradores de rua e dependentes químicos, que não tem auxílio social adequado, tão pouco emprego e moradia para seguirem uma vida digna. Por fim, o candidato que hoje lidera as pesquisas, é ligado à Igreja Universal.

O que explica seus 33% de intenção de votos, muito superior ao que teve nas últimas eleições, é justamente o que viemos chamando de crise orgânica, onde surgem novas formas de pensar e agir contrárias ao tradicional, e que em um Estado onde tiveram as maiores marchas pelo golpe e com uma burguesia e classe média maior que a média do pais, ele é o candidato que melhor consegue, até o momento, entrar nesse espectro pela direita.

Esses sujeitos, somados ao Major Olimpio, reacionário e militarista, foram os que desfrutaram do direito ao debate. A restrição no regime eleitoral é também uma medida da burguesia de “resolver” a crise orgânica por cima, impedindo a expressão da esquerda, e assim fortalecendo principalmente os partidos da direita. A candidata Diana Assunção, MRT pelo PSOL, declarou que o debate era semelhante a um jantar com uma tradicional família conservadora.

A candidata pelo PSOL, Luiza Erundina destaca-se por desafiar o voto progressista do PT na maior cidade do país, mesmo que consideremos sua trajetória como ministra do privatizador Itamar e longos anos no burguês PSB, estar empatada com o PT na maior cidade do pais é também sinal desta crise orgânica. O PT tem sua hegemonia no progressismo contestada. Erundina consegue angariar votos desse setor democrático que rompeu com o petismo e lutou contra o golpe, seus 9% mostram que existe um espectro a esquerda amplo buscando alternativas aos partidos do regime.

A pesquisa eleitoral é um primeiro termômetro da mãe das batalhas eleitorais em curso. A batalha paulista será um importante medidor de forças entre os partidos do regime, de alas dos mesmos (como na batalha Serra e Alckmin através de Marta e Doria, respectivamente) e das tendências a questionamentos (à esquerda e à direita) aos partidos do regime.




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