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ARGENTINA

PepsiCo: primeiras reflexões sobre a primeira etapa de uma grande luta

Notas sobre um conflito em curso que já é emblemático. Macrismo, kirchnerismo e esquerda. A resistência e a organização que transformaram a PepsiCo em uma luta exemplar.

Fernando Scolnik

Buenos Aires | @FernandoScolnik

sexta-feira 14 de julho| Edição do dia

Tradução: Marie Castañeda

A luta das operárias e operários da PepsiCo pelos seus postos de trabalho já se transformou, sem nenhuma dúvida, em uma briga emblemática desta etapa contra os planos de ajuste, os ataques patronais e as traições da burocracia sindical.

A vontade de luta dos operários chama a atenção, em parte porque contrasta enormemente com a atitude das cúpulas das centrais sindicais, que em um ano e meio já deixaram passar mais de 200.000 demissões, uma escalada na inflação, aumentos nas contas, repressões e planos de flexibilização do trabalho como o da região petrolífera de Vaca Muerta. Ontem o triunvirato da CGT confirmou a sua trégua, disfarçando-a bastante mal com um chamado a uma mobilização sem paralisação para daqui 40 dias, no dia 22 de agosto, depois das PASO [prévias eleitorais].

Neste marco, a resistência na PepsiCo contra a repressão foi acompanhada por todo o país pelos meios de comunicação e se transformou em um grande fato político. A simpatia de milhões esteve ao lado dos operários, dando-lhes novas forças para os seguintes passos do plano de luta que será anunciado hoje, em coletiva de imprensa.

Os fatos cumpriram assim o papel de reforçar, mais uma vez, que o macrismo é um governo para os ricos e que Maria Eugenia Vidal não é compatível com a imagem que quer vender. Eles, junto ao Poder Judiciário, enviaram as forças repressivas para despejar os trabalhadores com grande violência à serviço do grande capital.

Também dentro dos sindicatos se clarificou novamente quem é quem: de um lado, os trabalhadores, seus delegados combativos da agrupação Bordô (PTS e independentes), a esquerda (em especial centenas de militantes e figuras públicas do PTS participaram por toda a noite até a metade do dia) e as organizações solidárias que apoiaram a luta e enfrentaram a repressão; do outro lado, Rodolfo Daer, Secretário Geral do Sindicato da Alimentação, justificou o despejo e “honrou” sua tradição, que tem entre outros “feitos” seu nefasto papel frente à CGT na década menemista.

Por outro lado, a repressão gerou atrito dentro do kirchnerismo. Hebe de Bonafini, na parte da tarde, disse “estou desapontada, foi visível que éramos poucos”. Fazia referência à escassa presença de dirigentes kirchneristas, que não deram corpo à luta. Talvez escutavam Cristina Kirchner, que foi pedir à Corrente Federal da CGT que levantasse uma mobilização. Também foi infeliz dentro deste espaço de intervenção a deputada Gabriela Cerruti, que no seu twitter, muito afastada dos fatos, dedicou-se a atacar a esquerda que estava enfrentando a repressão junto aos operários. Da “resistência com firmeza” [lema dos kirchneristas], nem notícia.

Uma fábrica com uma longa história de luta e organização

Uma luta que toma tamanha magnitude não cai do céu. Há quase 20 anos, Leonardo Norniella, junto a Catalina Balaguer e outros companheiros, se transformaram nos principais organizadores de uma Comissão Interna democrática e combativa para defender os direitos os trabalhadores, tradição de luta que hoje continuam outros delegados, militantes e ativistas da agrupação Bordô, que é a oposição ao sindicato.

Eles e elas forjaram uma tradição de luta pela unidade entre efetivos e terceirizados (contra o trabalho precário), contra a discriminação com as mulheres trabalhadoras às quais são dados os piores postos, de confluência com outros setores em luta e de defesa das condições de trabalho, em uma empresa onde, longe das hipócritas imagens que mostram suas propagandas, são moeda corrente as doenças como a tendinite, bursite, bico de papagaio, hérnia de disco, escoliose, deformação da coluna, entre muitas outras. Os lucros da multinacional se constroem arruinando a saúde dos trabalhadores e agora querem ir por ainda mais.

Nestes longos anos também foram múltiplas as manobras da patronal e da burocracia do sindicato da alimentação (STIA) para tentar derrotar a organização combativa dos trabalhadores, desde a demissão de Norniella e Balaguer (esta última reintegrada mediante um acontecimento histórico que se estuda nas universidades, que a consideraram delegada “de fato” apesar de não existirem foros sindicais), até a fraude das eleições sindicais, passando por inúmeros episódios. Alejandro Morelli foi reintegrado em 2011 por decisão judicial, considerando que sua demissão havia sido discriminatória e antisindical.

Os passos que transformaram PepsiCo em uma luta exemplar

Desta tradição de luta e organização partiram os trabalhadores da PepsiCo para se prepararem para a luta atual. Há anos vem denunciando o esvaziamento da empresa (com o fechamento das linhas de produção, demissões voluntárias e manobras antisindicais), e levando adiante medidas de luta como bloqueios e manifestações para enfrentá-lo. Sinalizaram antecipadamente o objetivo da patronal de mudar a produção para outra planta da mesma empresa em Mar del Plata, onde as condições de trabalho são mais precárias.

Desta forma, quando no dia 20 de junho a multinacional norteamericana comunicou o fechamento da sua sede em Florida com um cartazinho na porta da fábrica, os operários rapidamente se colocaram para explicar que não havia nenhuma crise que justificaria tal decisão: durante 2016 PepsiCo faturou $4.800 bilhões de pesos na Argentina, segundo dados que surgiram da Revista Mercado que elaborou um ranking das mil principais empresas que operam na Argentina. Trata-se claramente de um ataque antisindical para começar a produzir em Mar del Plata.

Desde o primeiro momento os operários, com a sua Comissão Interna à frente, exigiram do STIA, conduzida por Rodolfo Daer, que se colocou à frente da luta. Em uma plenária do sindicato no dia 23 de junho, três dias depois do fechamento, foram defender a necessidade de um plano de luta de todo o sindicato. O Secretário Geral do sindicato negou de imediato essa possibilidade, dizendo que não é possível lutar e deveríamos aceitar indenizações, pendendo os postos de trabalho e dar uma mensagem ao macrismo “nas urnas” (chamando a votar de fato com Florencio Randazzo, com quem Daer está alinhado). No dia seguinte, para que não restassem dúvidas, o chefe do sindicato participou com outros burocratas sindicais e empresários de um jantar com Mauricio Macri.

Uma vez consumada a traição de Daer, os operários decidiram em Assembleia, no dia 26 de junho, entrar na fábrica para permanecer dentro dela em defesa de seus postos de trabalho e cuidar das máquinas, que se encontram em condições perfeitas para produzir. Desde então a fábrica se transformou em um centro de organização da luta. Inúmeras delegações de trabalhadores, estudantes, artistas, figuras de direitos humanos e intelectuais passaram pela fábrica para levar sua solidariedade. Os pronunciamentos de apoio cresceram dia após dia até transformar a luta da PepsiCo em uma causa popular.

Em defesa de seus empregos os operários levaram adiante as mais variadas formas de luta: “bloqueios surpresa” de rodovia na Panamericana (principal artéria econômica da Argentina, que liga a capital à maior zona industrial do país), piquete junto a caminhoneiros em um centro de distribuição da empresa, mobilizações na prefeitura de Vicente Lópes, uma jornada nacional de luta com fechamentos de rua no Obelisco e no interior do país, uma grande reunião de solidariedade no dia 30 de junho na sede dos trabalhadores de ATE (Educação), um piquete na planta da Pepsico em Mar del Plata, assim como o impulsionamento de uma grande campanha contra a marca PepsiCo, chamando a não comprar produtos da empresa. Sua vontade lutar até o final ficou evidente.

Ao mesmo tempo, os trabalhadores denunciaram junto aos seus advogados as ações completamente ilegais da patronal, que apresentou um Procedimento Preventivo de Crise que seus lucros milionários desmentem e realizou um lock out ofensivo, que é penalizado pelo artigo 158 do Código Penal. O procedimento da empresa é tão ilegal que nos últimos dias foi descoberto que estão importando produtos do Chile.

A tudo isto, o Ministério de Trabalho, à serviço do grande capital, legitimou todo o processo ilegal da multinacional norteamericana. Por diversas vezes, funcionários como Marcos Peña ou Jorge Triaca “explicaram” que não se podia fazer nada frente à decisão empresarial. O governo dos CEO entende do que se trata.

Insólitos foram também os argumentos do fiscal Gastón Larramendi, que pediu a reintegração baseando-se em um ridículo e suposto risco de “perigo contaminante” de uma fábrica… que não estava operando. A “solução” foi mandar a repressão para devolver a fábrica aos empresários contaminadores.

Ainda nestas circunstâncias, a juíza Andrea Rodríguez Mentasty, ex esposa do deputado provincial da coalizão Cambiemos Walter Carusso (ligado a Macri), pediu a reintegração, endossando inclusive o gigantesco operativo da Gendarmería e da Polícia de Buenos Aires começara, de forma ilegal, no horário noturno.

Uma jornada de luta exemplar e um plano de luta que continua

A persistência dos operários por um lado, e um governo e uma juíza amigos do grande capital, do outro, levaram portanto a um enfrentamento decisivo, que originou a exemplar jornada de luta de ontem contra a repressão e as demissões.
Frente à operação das forças repressivas que começou às 3:30 da madrugada, os operários junto a organizações solidárias que se haviam aproximando frentes aos rumores de desocupação, responderam com piquetes nas esquinas, logo enfrentando o ataque da polícia de Buenos Aires na porta da fábrica e finalmente resistindo em cima do teto. O Izquierda Diario transmitiu ao vivo e diretamente de toda a jornada de luta, que continuou mais tarde com ações solidárias na cidade de Buenos Aires e no interior do país.

No dia de hoje os trabalhadores, em conferência de imprensa, anunciaram novas medidas de luta. Os próximos passos contarão com inimigos poderosíssimos como o governo, a multinacional, a burocracia sindical, mas também com uma enorme simpatia popular a seu favor e respeito ganho com sua enorme valentia na luta.
Frente ao papel da burocracia sindical e dos partidos patronais, é tempo de impulsionar a mais ampla solidariedade com a luta para brigar até o final, assim como continuar construindo nos locais de trabalho, estudo e nos bairros fortes agrupações democráticas e combativas e uma grande campanha do PTS - Frente de Esquerda em todo o país, desenvolvendo uma grande força militante e uma alternativa política dos trabalhadores com peso político, com um programa para que a crise seja paga pelos capitalistas




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