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PepsiCo, a luta contra as demissões que furou o bloqueio da grande mídia na Argentina

A força da luta das trabalhadoras e trabalhadores da PepsiCo contra as 600 demissões impostas pela patronal obrigou a mídia burguesa argentina a repercutir o conflito.

quarta-feira 19 de julho| Edição do dia

Há exatamente um mês, tudo mudaria na vida de 600 trabalhadoras e trabalhadores argentinos e as suas famílias. Estes operários do ramo alimentício foram comunicados da noite para o dia que estavam nas ruas: a PepsiCo, empresa americana que produz a Pepsi, a Ruffles, o Toddy, Gatorade e milhares de outras marcas conhecidas decidiu fechar sua fábrica em Buenos Aires, e mudar a produção para outra planta da empresa em Mar del Plata a 400 km de distância, aonde poderiam pagar salários menores.

Naquela terça-feira 20 de junho, os operários sequer puderam acessar o interior da fábrica, e um aviso da empresa colocado no portão comunicava-os da demissão. A imensa ganância da empresa, que vem de uma alta de ações no mercado e cujo lucro líquido nos EUA foi de US$ 2,1 bilhões de dólares no segundo semestre deste ano, foi motivo para seus executivos norte-americanos decidirem deixar 600 famílias na rua.

Os trabalhadores tomam a luta em suas mãos

Seis dias depois, no dia 26, operários e operárias ocuparam a fábrica dispostos à lutar contra o fechamento da fábrica. Decidiram isto junto à comissão interna da fábrica, após o sindicato de alimentação (STIA) negar-se à lutar pelos empregos dos trabalhadores em uma plenária ocorrida no dia 23, com o seu secretário geral Rodolfo Daer dizendo aos trabalhadores para aceitarem a indenização da empresa.

Assim como no Brasil, na Argentina a burocracia sindical se acomoda nas negociações com a empresa, atuando contra a luta dos trabalhadores. Daer é o sindicalista mais rico da argentina, presidente de um dos maiores sindicatos do país que, sob a direção de uma burocracia sindical encastelada, não se colocou à serviço de um plano de lutas para restituir o emprego dos trabalhadores, em uma conjuntura que já soma cerca de 200 mil demitidos nas indústrias de toda Argentina.

Com a ocupação da fábrica, operárias e operários tomaram a luta em suas próprias mãos, apoiados em sua comissão interna, a representação sindical específica daquela planta combativa e independente do sindicato.

Também souberam ganhar o apoio dos moradores e trabalhadores da região, fartos das demissões e do arrocho salarial, da mesma forma como receberam solidariedade internacional. Assim como no Brasil, o governo argentino traz na bagagem mais ataques aos trabalhadores para aumentar ainda mais o lucro dos patrões, sejam argentinos ou americanos como os da PepsiCo, incluindo uma reforma trabalhista inspirada na reforma de Temer.

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A luta alcança proporção nacional e ocupa as manchetes da grande mídia

No dia 13 deste mês, a luta de PepsiCo tomou outra escala. Com uma decisão judicial pelo despejo da ocupação baseado em uma falsa alegação de que a fábrica estaria contaminada, a justiça e o governo assumem seu papel de defender ativamente os interesses de seus patrões imperialistas.

Depois de uma tensa madrugada com um enorme operativo da polícia e da gendarmeria cercando a fábrica, pela manhã a polícia invade, reprimindo primeiramente os estudantes, organizações de direitos humanos, advogados e defensores dos trabalhadores que formaram um cerco humano na porta da fábrica.

Durante horas, diversos canais da televisão aberta argentina são obrigados a noticiar a brutalidade da polícia contra os trabalhadores, criando um grande mal-estar político para o governo Macri e a governadora Eugenia Vidal (Buenos Aires), ligada a ele. O próprio Macri ordenou a repressão, segundo confirmou a imprensa argentina.

Às 10 da manhã, trabalhadores que se refugiaram no terraço da fábrica decidem descer após haver sido negociado a sua liberdade, intermediado por figuras de organismos de direitos humanos e figuras como Nicolás del Caño, Myriam Bregman e Christian Castillo (FIT) e Luis Zamora (AyL). Mas o estrago para o governo já estava feito.

E nesta terça um massivo ato de 30 mil marchavam no centro de Buenos Aires em apoio aos trabalhadores.Por meio de sua luta os trabalhadores colocaram em pauta os as demissões, o arrocho salarial e os ataques, e com seus métodos de luta ousaram desafiar o governo dos "empresários"(CEO), como gosta de se auto-denominar Macri.

Ao se atrever lutar contra as demissões os trabalhadores demonstraram a necessidade de uma resposta dos trabalhadores para a crise pela qual todos passamos na Argentina e isto fez com que o governo ficasse na defensiva com seus ataques, retardando a reforma trabalhista que Macri planejava colocar em prática, inspirada na reforma dos 201 ataques de Temer.

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O exemplo das lutadoras e lutadores de PepsiCo para ser seguido no Brasil

A luta contra os ataques só começou, são milhares de demitidos em inúmeras fábricas, e em toda a America Latina a classe trabalhadora sofre os efeitos da crise com governos que planejam ainda mais ataques aos direitos dos trabalhadores. Assim como na Argentina, no Brasil a burocracia sindical entrega vergonhosamente a luta dos trabalhadores, não dando resposta à crise política nacional e facilitando com que a casta política investiganda e inúmeras denúncias de corrupção sigam governando e implementando ataques.

Pelo contrário, as Centrais Sindicais como a CUT e a CTB não só deixaram passar a reforma trabalhista, como os inúmeros blogs do petismo, indo do Brasil 247 até a Carta Capital, absolutamente nenhum destes dedica os poucos minutos necessários para citar em seus portais a luta dos trabalhadores da Argentina, com certeza por medo de incitar que um tipo de revolta parecida possa existir no Brasil e sair do controle dos seus planos de eleger Lula, que recentemente declarou que não anularia as reformas, com a permissão da justiça.

O exemplo de PepsiCo deve servir para contagiar os trabalhadores com uma nova tradição, de luta contra as demissões, contra a precarização dos trabalhadores, pela efetivação dos terceirizados e atacando o lucro da patronal. Uma tradição que liga intimamente a auto-organização dos trabalhadores com os métodos de sua classe, junto à um programa que imponha que os capitalistas paguem pela crise. Isto a burguesia Argentina reconhece, esbravejando contra a esquerda, no caso específico, o Partido dos Trabalhadores Socialistas que, na Frente de Esquerda Socialista levanta este programa e atua no movimento de trabalhadores, nas agremiações independentes e nas comissões internas para desenvolver uma organização de trabalhadores deste tipo.




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