Teoria

CRISE CAPITALISTA

Pensar a crise atual a partir da análise da crise dos 1970

Este texto é parte de uma série de notas que publicaremos neste portal com o intuito de pensar as transformações no capitalismo a partir da crise de 2008, refletindo seu alcance no âmbito econômico, geopolítico, social e político como parte da pergunta sobre qual a feição do capitalismo pós-crise.

Iuri Tonelo

São Paulo

quarta-feira 25 de janeiro de 2017| Edição do dia

Para refletirmos sobre o significado para o capitalismo internacional da crise de 2008 é interessante voltar a uma das mais importantes viradas das últimas décadas e que diz um pouco sobre a crise atual: a crise econômica dos anos 1970. Especialmente a partir do “choque de Nixon” extinguindo o sistema Breton Woods e com a crise do Petróleo de 1973, o sentido de “crise do capitalismo” se instalou gerando respostas diversas no debate sobre “para onde iria o capitalismo”, tanto da critica marxista, quanto de variantes burguesas, keynesianas ou monetaristas – todas referindo-se ao que o pensamento marxista chamava de crise de acumulação capitalista.

No início da década de 1970 o economista marxista Ernest Mandel escreveu um dos mais importantes textos de análise do período, buscando dar resposta a nova era que surgia no capitalismo, intitulado “O Capitalismo Tardio”. No texto, expunha traços decisivos do fim do “boom” do pós-guerra e uma nova dinâmica da acumulação capitalista, com a qual ia se desfazendo o mundo do “Welfare State”, imbricando as crises econômicas com as crises políticas relacionadas ao papel intensivo da atuação estatal no pós-guerra, encontrando limites os superlucros advindos das inovações produtivas e tecnológicas dos anos 1950, percebendo as debilidades dos mecanismos econômicos anticíclicos como a “inflação permanente” - que não pode manter eternamente os lucros extraordinários, entre outros elementos. Sem dúvida para Mandel, como para todos os que analisavam esse período, os processos da luta de classes abertos em 1968 como o Maio Francês, Outono Quente italiano, a Primavera de Praga ou a Revolução Portuguesa eram decisivos também para essa reflexão.

A relação entre os distintos elementos econômicos levou Mandel a cunhar a expressão “Capitalismo Tardio”, que serviu para que ele se referisse a esse processo de transformações no capitalismo internacional, expondo os distintos elementos que colocavam fim ao período de “boom” do pós-guerra e ajudasse a dar elementos para pensar o novo período que ganhava a arena internacional com a crise dos 1970.

No entanto, em sua introdução a “O Capitalismo Tardio” Mandel se preocupa em contrariar aqueles que possam utilizar dessas reflexões para compreender que estava surgindo uma nova “época”[1] do capitalismo internacional; pelo contrário, para ele, a faceta mais clara do capitalismo tardio era a de complexificar as tendências expostas pela análise marxista do começo do século em que se consagrou a visão de que a predominância do capital financeiro marcaria definitivamente a “face” do capitalismo contemporâneo. Assim escreve Mandel:

Em primeiro lugar, o termo “capitalismo tardio” não sugere absolutamente que o capitalismo tenha mudado em essência, tornando ultrapassadas as descobertas analíticas de O Capital de Marx e de O Imperialismo, de Lenin. Assim como Lenin só conseguiu desenvolver sua descrição do imperialismo apoiando-se em O Capital, como confirmação das leis gerais, formuladas por Marx, que governam todo o decorrer do modo de produção capitalista, da mesma maneira, atualmente, só podemos intentar uma análise marxista do capitalismo tardio com base no estudo de Lenin de O Imperialismo. A era do capitalismo tardio não é uma nova época do desenvolvimento capitalista; constitui unicamente um desenvolvimento ulterior da época imperialista, de capitalismo monopolista. Por implicação, as características da era do imperialismo enunciadas por Lenin permanecem, assim, plenamente válidas ara o capitalismo tardio (MANDEL, 1982, p.5)

Ainda que Mandel aponte não ver uma nova “época”, uma nova fase no sentido global de operação do sistema, a ênfase nas características econômicas do capitalismo em detrimento dos aspectos geopolíticos (ou da competição interestatal) talvez evidenciem uma das importantes brechas de seu pensamento nesse momento e que confluem com o desenvolvimento de outras visões economicistas do período. Para entender essa brecha no seu pensamento, recorremos a economista argentina Paula Bach, que escreveu uma importante análise no final dos anos 1990 sobre o pensamento de Enerst Mandel, em que dizia:

Se é verdade que [Mandel] reconhece como fator de fundamental importância para dar início ao que nós definimos como crise de acumulação capitalista a quebra da ordem monetária de Breton Woods, ressalta disso especialmente seu aspecto econômico, subvalorizando as consequências políticas e por isso não define como característica essencial do fim do boom o princípio de crise da hegemonia norteamericana e o renascimento das disputas interimperialistas no marco do fortalecimento aos quais haviam chegado os imperialismos competidores, Alemanha e Japão (BACH, 1998)

Daqui se depreende uma questão metodológica que nos parece fundamental: do ponto de vista do marxismo, a análise das transformações do capitalismo (como a que devemos fazer para pensar o mundo pós-2008) não podem ser separadas da análise dos conflitos entre Estados e da situação da correlação de forças entre as classes em nível nacional e internacional. A debilidade apontada na análise de Mandel fatalmente se desenvolve em visões com traços economicistas ou objetivistas da realidade, o que é decisivo para se pensar quando se toma as transformações do sistema em seu conjunto desde uma perspectiva de transformação política, com uma olhar estratégico.

Para exemplificar com uma importante análise que incorre, por problemas semelhantes, em perceber a partir dos 1970 uma transformação de “época” do capitalismo, podemos retomar a análise de István Mészàros em sua obra O Século XXI - Socialismo ou Barbárie?. Nela, o filósofo húngaro parte mais ou menos dos mesmos elementos de análise, mas aponta para uma transformação no desenvolvimento do capitalismo internacional após os anos 1970, com o que chamou de “crise estrutural do capital”. Assim escreve:

Com o sucesso da imposição da hegemonia americana no mundo do pós-guerra – que teve suas raízes no primeiro mandato de Roosevelt (...) fomos submetidos a uma terceira fase do desenvolvimento do imperialismo, com mais graves implicações para o futuro (...) (MÉSZÀROS, 2003, p.39)

Ou seja, o filósofo húngaro ao contrário de ver elementos de crise da hegemonia norteamericana, aponta para seu ultrafortalecimento, vendo a constituição de um “imperialismo global hegemônico”:

Hoje a “competição entre grupos de empresas gigantescas e seus governos” tem um importante elemento limitante: o enorme poder dos Estados Unidos, que tendem perigosamente a assumir o papel do Estado do sistema do capital em si, submetendo, por todos os meios de seu alcance, todas as potências rivais. O fato de ser impossível realizar esse outro objetivo sobre base duradoura não inibe forças que buscam implacavelmente a sua realização (MÉSZÁROS, 2003, p. 41)

Sendo coerente com essa visão, Mészáros, portanto, conclui que o sistema do capital atingiu seus limites a partir dos anos dos anos 1970, concluindo que a crise que se abriu era a “crise estrutural do capital”. Ou seja, com a constituição de um imperialismo hegemônico global, o Estados Unidos, que busca submeter o mundo todo ao seu controle, os elementos que víamos de crise referem-se a crise do sistema em seu conjunto, uma crise estrutural, sistêmica, persistente e rastejante.

O que não se colocava ênfase é no fim do “mundo de Yalta” - que além do fortalecimento dos EUA como potência no pós-guerra existia a URSS outro grande ator internacional, ou seja, existia o stalinismo dominante nos partidos comunistas em esfera global – e por isso uma etapa que tinha como traço decisivo a atuação do stalinismo na contramão de uma saída revolucionária para a luta de classes, freando de conjunto os processos de luta.

Nesse sentido, ao se subvalorizar esse conflito e os demais conflitos interestatais interburgueses e ao se desconsiderar a correlação de forças internacional da luta de classes como parte dos efeitos econômicos que pode ter uma crise, a concepção analítica da crise invariavelmente, como vemos em Mandel e talvez ainda mais em Mészàros, resultará em traços economicistas.

Ou seja, dentro do período que estamos analisando, é impossível falar em hegemonia de uma potência como os Estados Unidos por fora de se observar as consequências concretas para o mundo da crise da URSS (que levará a uma crise da esquerda internacional e uma ofensiva burguesa sem paralelos contra a classe trabalhadora) e a derrota do último ascenso dos anos 1970 e começo dos 1980. Essa combinação consideramos um fundamento metodológico quando se trata da análise da nova etapa aberta, e uma das lições para se pensar o mundo pós-2008.

Ou seja, talvez uma das marcas mais distintivas da abertura da etapa reacionária que se concretiza simbolicamente com a queda do muro de Berlim tenha sua ênfase não tanto os efeitos da crise dos 1970 ou de uma transformação abrupta da hegemonia norteamerica em potência hegemônica (como quer Mészàros), mas sim na derrota sofrida pela classe trabalhadora em seu último ascenso, expresso na fórmula neoliberal Reagan-Thatcher contra o movimento operário. Sintetizam esse ponto Matias Maiello e Emílio Albamonte, na chamada etapa de “restauração burguesa”:

Esse ofensiva reacionária, que foi batizada de “neoliberalismo”, se expressou num primeiro momento nos países imperialistas, a partir da entrada de Reagan no governo dos EUA e de Thatcher na Grã Bretanha, mediante a implementação de uma série de “contra-reformas” econômicas, sociais e políticas, com o objetivo de reverter as conquistas obtidas pelo movimento operário durante os anos de “boom” sob as bandeiras do livre mercado para garantir os lucros capitalistas. Depois se estendeu aos países semicoloniais mediante o chamado “Consenso de Washington”, e teve sua expressão nos ex-Estados operários burocratizados pela via da restauração do capitalismo, ainda que (...) com diferentes consequências na URSS com relação a China (ALBAMONTE, MAIELLO, 2011, p. 13)

Tendo esses elementos em mente, podemos avançar para refletir as consequências da etapa anterior no plano econômico, com a reestruturação produtiva e no plano ideológico, com a ofensiva pós-moderna contra o marxismo, ou seja, as consequências “no corpo e no espírito” da ofensiva burguesa contra o proletariado. Nosso objetivo até aqui, portanto, não era de modo algum adentrar no debate histórico ou teórico da crise dos anos 1970, mas se referir a essa crise nessa década como momento importante de clivagem no panorama internacional, de fim do “boom” do pós-guerra, para pensar metodologicamente qual o exercício de reflexão para pensar aquele momento e como esse exercício pode ajudar para pensar a crise atual.

Notas de rodapé

[1]: Por “época” do capitalismo nos referimos aqui a uma transformação profunda de dimensões que possam requalificar a caracterização do capitalismo e sua dinâmica em seu conjunto (tomado como sistema internacional), e não apenas alguns de seus aspectos. Nesse sentido, para a caracterização clássica de virada de “época” no capitalismo nos referimos ao processo ocorrido na virada do século XX, com predominância do capital financeiro e formação de um “mundo de monopólios”. Para mais informações sobre esse debate, o autor buscou sintetizar algumas dessas ideias em seu livro “A Crise Capitalista e Suas Formas” (2016).

Bibliografia:
BACH, Paula. O Boom de la posguerra . Buenos Aires, 1998. Na integra no site: http://www.ft.org.ar/estrategia/ei7/ei7boom.html.
MAIELLO, Matias, ALBAMONTE, Emilio. Nos limites da restauração burguesa. São Paulo, 2001. Revista Estratégia Internacional. Editora: Iskra.
MANDEL, Ernest. O Capitalismo Tardio. São Paulo, 1982. Editora: Abril Cultural.
MÉSZÁROS, István. O Século XXI – Socialismo ou Barbárie. São Paulo, 2003. Editora: Boitempo.




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