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RACISMO

Pedágio Racial da PM isola a juventude negra das praias do Rio

O racismo de cada dia no Rio de Janeiro. Como já aconteceu em outras oportunidades a Polícia Militar impede a livre circulação de jovens negros moradores de favelas da Zona Norte nas praias cariocas.

Carlos Neira

RIO DE JANEIRO

terça-feira 25 de agosto de 2015| Edição do dia

Na edição do jornal Extra desta segunda feira passada 24/08 foi denunciado mais um caso de racismo no Rio de Janeiro. Mais uma vez pela mão da Polícia Militar. O trajeto dos ônibus provenientes da Zona Norte foram interrompidos no acesso à Zona Sul do Rio. Neles 15 jovens (todos negros exceto um) moradores de favelas como Jacaré e São João na Zona Norte da capital fluminense iam passar o dia na praia, mas acabaram passando o resto da tarde no Centro Integrado de Atendimento à Criança e ao Adolescente, no bairro de Laranjeiras. Segundo a matéria do Extra não portavam nenhum tipo de armas ou drogas e todos eles circulavam com seus documentos de identidade. Todo estava aparentemente dentro da lei, então qual o motivo do recolhimento destes jovens? As razões estão à vista de todo mundo, e os próprios jovens recolhidos expressam isto claramente: "Acham que “nós” é ladrão só porque “nós” é preto".

Algumas autoridades como a defensora pública Eufrásia Souza entrevistada pelo Jornal Extra declara a gravidade frente à ação ilegal da PM. A realidade é que não são excessos de alguns policiais, mas expressa o caráter racista da instituição. E pior, a historia não é nova. Em 2013 o Secretário de Segurança Beltrame anunciou que os ônibus provenientes de bairros da Zona Norte seriam revistados pela Polícia Militar antes de chegarem nas praias da Zona Sul carioca. O alvo, anunciou Beltrame, seriam principalmente os jovens (negros). E os menores de 10 anos que se encontrarem desacompanhados seriam imediatamente encaminhados às autoridades.

Isto foi em Novembro de 2013. Agora, em 2015, a prática racista da Polícia Militar contra a juventude negra das favelas cariocas deverá tornar-se ainda mais escandalosa com o avanço do projeto de lei de redução da maioridade penal e o do aumento das penas apoiado pelo PT.

Nestas condições as blitz da PM que garantem as areias "brancas" nas praias de Ipanema, Copacabana e Leblon irão levar incontáveis jovens negros na cadeia. Com o projeto de lei da redução, a matéria prima do negócio das prisões privadas aumentou. A história tem demonstrado que a Polícia não precisa de motivos que justifiquem as prisões, nem mesmo motivos reais. O único preso pelas manifestações de Junho, Rafael Braga Vieira, negro, morador de rua foi processado por carregar uma garrafinha de desinfetante.

É difícil sustentar nessas condições o mito das praias como um lugar democrático no Rio. Pelo contrário, a gestão municipal com o completo apoio do governo estadual (e Federal, claro, foi o próprio Lula que foi discursar no COI para sedear os Jogos Olímpicos) tem progressivamente expulsado os setores da sociedade Carioca mais precarizados. Da mão da Polícia Militar nas UPP’s, junto com o constante aumento nos alugueis e no custo de vida e os megaempreendimentos imobiliários mais de 67 mil pessoas tem sido removidas das suas moradias desde o ano 2009 nas gestões do prefeito Eduardo Paes. Nestas remoções, é lógico, também a maioria dos removidos são negros.

A impunidade e o racismo da Polícia Militar tem se comprovado em mais de uma oportunidade. Nas jornadas de junho, também em 2013, o desaparecimento e depois o reconhecido assassinato do pedreiro Amarildo ainda continua impune. Os "autos de resistência" e as "balas perdidas" (coincidentemente quando a polícia entra nas favelas) mergulham no mar da impunidade da PM no Rio de Janeiro.

Nesse mar de impunidade o litoral carioca junto com a região dos cartões postais à explorar pela prefeitura e seus parceiros, é cuidadosamente resguardado por uma Polícia Militar que não tem problemas na hora de impedir a livre circulação dos negros no espaço público carioca. O "rolezinho" também está proibido nas praias do Rio e ficou claro para os 15 jovens recolhidos nos Onibus.

O racismo mostra-se tanto nos sumiços e assassinatos de negros nas favelas cariocas, como na discriminação dos negros de utilizar as praias e áreas de recreação. O discurso, tantas vezes repetido,da cultura e do lazer como espaços democráticos, numa cidade que se enche de museus e centros culturais, contrasta fortemente com a situação que vive a juventude negra ao circular pelas calçadas do Rio. Uma cidade que quanto mais investe na sua infraestrutura parece tornar-se mais excludente. E é que sob a lógica que impõe o mercado ao espaço urbano, os investimentos que melhorem a mobilidade, a acessibilidade e ofereçam mais cultura e lazer irão se traduzir em um aumento do custo da vida nessas regiões. Uma cidade que apesar de receber grandes investimentos, e sediar a Copa e agora as Olimpíadas, é a cidade que mais demitiu em 2015. Por tanto a luta por uma cidade mais democrática, com mais direitos vai além das possíveis melhoras produto de reformas nas gestões municipais das grandes metrópoles e necessariamente, coloca à luta por direitos a necessidade de uma perspectiva mais geral e decididamente anticapitalista e que questione para além dos limites administrativos da cidade a sociedade de classes.

Da mesma forma frente a uma polícia que desde suas origens tem o racismo como coluna vertebral, um Rio de Janeiro sem esse racismo de cada dia, do estado e da polícia militar, onde os jovens negros não sejam impedidos de curtir a praia, passa necessariamente pelo fim de todas as polícias.




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