Cultura

MÚSICA

Pearl Jam “Do the Evolution”

Análise sobre o clipe “Do the Evolution” da banda Pearl Jam, inicia uma série de artigos sobre música em uma perspectiva engajada de cultura, com viés político e artístico.

Rodrigo Leon

@RodHeel

quarta-feira 10 de agosto| Edição do dia

O Clipe "Do the Evolution" ( Faça a Evolução) expõe uma perspectiva crítica sobre a história da humanidade. A música foi disponibilizada em 1998 pela banda Pearl Jam, sendo escrita pelo cantor Eddie Vedder. De acordo com o cantor, a música expressa um indivíduo bêbado com a tecnologia e o desejo insaciável de controlar tudo a sua volta.

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No contexto pós guerra fria, a música reflete o mundo passado do embate entre o bloco capitalista e soviético. A simbologia mediante esse período de conflito ideológico fica explícito principalmente no foco na indústria armamentista e no avanço tecnológico irresponsável, e no final da música, no impacto da criação da bomba atômica e seu efeito devastador.

É feito então um paralelo entre o poder e o controle e como indivíduos se agrupam como uma unidade econômica e/ou política para se sobressair sobre outros grupos da sociedade, é mostrado as ferramentas que esse grupo dominante utiliza sobre o grupo dominado para fazer a manutenção de seu poder, ou seja, como várias esferas da sociedade (Religião, Sociedade Civil e Estado) estão interligadas e são muitas vezes intermediários para se alcançar um determinado fim (Religião e Capitalismo). E é por esse movimento de complementariedade que as estruturas de coerção e opressão se relacionam (Capitalismo e Patriarcado) promovendo uma disputa para possuir o poder social e econômico.

Em “Do the Evolution” o Pearl Jam tem na primeira estrofe:

Eu estou à frente, eu sou o homem
Eu sou o primeiro mamífero a vestir calças, yeah
Eu estou em paz com minha luxúria
Eu posso matar porque em Deus eu confio, yeah
Isto é evolução, baby

Uma crítica a racionalidade do “homem” demonstrando em tom de deboche como o ato de colocar calças é o símbolo da evolução, ou seja, a hipocrisia do culto ao homem racional (de valores morais e éticos) enaltecido pelo desenvolvimento armamentista e na produção e consumo de produtos, elementos que sustentam o seu poder e que supostamente o faria mais racional e superior as outras espécies, mas promove a sua própria opressão e destruição.

No verso: "Eu posso matar porque em Deus eu confio" mostra como os valores sagrados são utilizados para justificar as atrocidades cometidas pelos homens. A classe dominante se utiliza dos valores da religião para alienar o grupo oprimido, separando aqueles que são dignos da graça de Deus e aqueles que são rejeitados por essa mesma figura divina. "As ideias dominantes são as ideias de uma classe dominante" nessa citação fica explícito como a religião pode ser utilizada como ferramenta para sujeitar um grupo ao poder político de outro grupo. É nesse momento que a religião se encontra com a política. Exemplos disso é a Inquisição, o apoio da Igreja a regimes totalitários e as cruzadas.

A Igreja, portanto, exerce seu poder político por meio da própria utilização do discurso. A classe dominante utiliza esse discurso para justificar suas ações no aquém (na realidade) e a classe dominada se utiliza desse discurso sagrado para fugir dessa mesma realidade do aquém para cultuar uma realidade do além. Além do discurso o homem entra em confronto com as opressões materiais aquelas vinculadas com o econômico, como o fetichismo da mercadoria.

Nesse cenário de violência e confronto entre grupos, as relações sociais tornam-se um produto e o produto é humanizado, ou seja, homens veem as mulheres como propriedades a serem conquistadas e os produtos são vistos como uma extensão do próprio indivíduo (compra-se uma blusa para mostrar ao outro o quão estiloso, alegre, importante o consumidor é) começa, portanto, há fornecer qualidades humanas para o objeto e a esvaziar o homem transformando sua natureza naquilo que ele produz, para aquilo que ele adquire.

Essa desumanização das relações sociais promove uma banalização da violência , (seja ela a guerra, a morte, a violência contra a mulher etc…) pois a partir do momento em que o homem torna-se mais um objeto a ser consumido, esvazia-se os atributos que o torna humano e pertencente de direitos para aquele que executa a degradações humanas, o rebaixa novamente a um animal irracional, que perde sua consciência política.

"Eu sou uma besta, eu sou o homem. Tinha ações no dia em que a bolsa quebrou", mesmo em 1998, o retrato das crises financeiras (como o Crash da Bolsa de Nova York) que o capitalismo trás, junto com a fome para os milhares de trabalhadores, são retratados como um medo, como algo devastador para milhares, como algo que assombra a sua própria existência e a existência dos demais.

Esses índios ignorantes não conseguem nada de mim
Nada, por ’’que?
Porque... É a evolução, querida!

A conquista por novos territórios, a colonização, a imposição do “mais forte para o mais fraco” (ambos retratados no clipe e letra) demonstram até que ponto a evolução do ser humano está limitado no capitalismo por ideias e valores egoístas, genocidas, preconceituosos e individualistas. Ao ponto da suposta evolução de ser humano ser a sua auto destruição, por guerras ou por um poderio bélico como a bomba atômica.

O Pearl Jam escreveu “Do the Evolution” como uma música que faz uma crítica a nossa atual sociedade, mas não só eles. Muitos artistas, bandas, músicos, etc. fazem o mesmo: desde Bertold Brecht até Rage Against the Machine, de Maria Bêtania até Karol Konka, de Mc Carol até Caetano Veloso, de Racionais Mc’s até Bjork. Por conseguinte, a arte engajada (e principalmente a música) trazem reflexões ao seu público.

Acompanhe semanalmente aqui no Esquerda Diário a coluna de Cultura para saber ver os próximos artigos musicais, cinematográficos etc.




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