Cultura

TRIBUNA ABERTA

Partisan Review e o trotskismo nos EUA

A crítica literária da Partisan Review o trotskismo nos EUA.

Afonso Machado

Campinas

segunda-feira 5 de dezembro de 2016| Edição do dia

Se não é nada mole ser de esquerda no Brasil de hoje em dia, nos EUA também não deve ser brincadeira. Nacionalistas de esquerda consideram papo furado valorizar as atividades marxistas norte americanas, como se o coração do imperialismo não produzisse as suas próprias contradições econômicas e políticas. É no mínimo ignorância desconsiderar a presença, ainda que soterrada, das ideias revolucionárias na cultura dos EUA. Do ponto de vista histórico, os anos 30 abrangem um território literário e político digno de atenção: a revista Partisan Review seria, neste mesmo período, a germinação de um autêntico processo crítico.

A quebra da bolsa de Nova York em 1929 foi o grande empurrão que derrubou a primeira peça do dominó da economia capitalista: logo em seguida os países capitalistas foram abalados e suas economias caíram uma após a outra inaugurando um cenário atravessado pelo desemprego, pela fome, por falências bancárias, indústria golpeada na espinha, etc. A década de 30 é sinônimo de depressão econômica e consequentemente de acirramento da luta de classes. Além das organizações políticas de esquerda engrossarem suas fileiras, intelectuais e artistas de várias partes do mundo passaram a estudar com afinco o marxismo. Nos EUA o esqueleto do liberalismo perdeu o ritmo diante da politização das atividades culturais. A cidade de Nova York em especial, era um esplêndido berço vermelho: foi ali na Union Square, parte baixa de Manhattan, que os debates políticos e literários alimentaram a publicação da Partisan Review. Para aquela geração de intelectuais radicais dos anos 30, que escreviam para este periódico, o marxismo era uma resposta para os problemas sociais e o guia teórico para uma revisão histórico-crítica da literatura norte americana.

Além dos partidos e dos sindicatos, os intelectuais de esquerda atuavam em editoras e clubes literários. A Partisan Review, por exemplo, surgiu no ano de 1934 em torno do John Reed Club, importante iniciativa cultural ligada/financiada pelo Partido Comunista de Nova York. Os editores William Phillips e Phillip Rahv , encaravam o marxismo enquanto concepção filosófica capaz de renovar as perspectivas estéticas da literatura numa direção revolucionária. A revista pensou a História da literatura dos EUA a partir de um olhar dialético: os processos econômicos do país, constituíram uma primeira geração literária marcada pelo nativismo, pelo contexto rural norte americano. Num segundo momento, a arrancada industrial/urbana das grandes cidades (tais como Nova York e Chicago) impulsionou o cosmopolitismo, flagrando a influência das estéticas de vanguarda no trabalho dos escritores(a poesia de T.S Eliot, por exemplo, foi expressão disso). A síntese deste processo histórico-literário seria a elaboração de uma crítica cultural que defendesse uma literatura revolucionária atenta às heranças modernistas, mas ao mesmo tempo comprometida com a denúncia das contradições sociais resultantes do processo de desenvolvimento industrial das grandes cidades. Esta crítica seria a missão da Partisan Review.

Enquanto que a política de frente popular fazia com que o Partido Comunista andasse de mãos dadas com o New Deal do presidente Franklin D. Roosevelt, militantes trotskistas iam na contramão do conservadorismo político e artístico da esquerda majoritária. Inevitavelmente a frente popular também sujava a crítica literária/política com as melecas do stalinismo. Com o Realismo Socialista infectando as letras e o pensamento político da esquerda americana, Phillips e Rahv mandaram os stalinistas às favas: suspenderam a publicação da Partisan Review no outono de 1936, para relança-la em 1937 numa perspectiva marxista independente. Batendo de frente com os stalinistas do jornal New Masses, a Partisan Review pensa a contribuição do marxismo para a elaboração da arte revolucionária nos EUA , de modo inovador: os problemas estéticos não deveriam ser subestimados, sendo insuficiente a criação de uma literatura que apenas ilustre mecanicamente as graves questões sociais daquele momento histórico(é o que muitos escritores marxistas dos EUA, como Michael Gold, faziam com frequência). A crítica revolucionária contra a sociedade burguesa também deveria ser considerada em termos de radicalismo cultural. Talvez a grande atualidade da Partisan Review esteja no fato do marxismo não ser encarado como um carimbo exigido para todas as atividades literárias, mas( como queriam seus editores) concebido enquanto instrumento de análise e avaliação dos problemas da cultura. A revista refletiu sobre a maneira como o proletariado pode reconhecer, através da arte, a miséria gerada pelo capitalismo; ou seja, qual seria o(s) caminho(s) para a literatura contribuir com a consciência de classe.

Naturalmente a crítica ao stalinismo aproximou a revista do trotskismo. É preciso lembrar que os trotskistas norte americanos desenvolveram um importante trabalho político: não foi por acaso que a IV Internacional, criada em 1938 , passou a sediar nos EUA. Entretanto, Trotski teve um trabalho danado para combater no interior do movimento trotskista norte americano tendências pequeno burguesas. O pragmatismo falou mais alto que a dialética, “ denunciada “ por intelectuais americanos como Max Eastman e Edmund Wilson como um “ mito religioso “. Wilson(talvez o crítico literário de maior vulto nos EUA do período entreguerras) publicou um polêmico texto intitulado O mito da dialética, que integraria mais tarde sua célebre obra histórica Rumo à Estação Finlândia(1940). Trotski combateu o revisionismo de alguns intelectuais americanos ao analisar a dialética marxista não como um fator religioso, mas como o fio que conduz ao entendimento dos processos de transformação da história de acordo com as contradições que regem a realidade material. Trotski lega uma verdadeira aula sobre o materialismo dialético na obra Em Defesa do Marxismo, uma resposta devastadora aos quadros pequeno burgueses do Partido Socialista dos Trabalhadores(é preciso mencionar que o cerne da polêmica política daquele momento, envolvia o posicionamento frente à União Soviética; Trotski, mesmo reconhecendo o caráter deformado do Estado soviético impresso pela burocracia stalinista, exigia a defesa da URSS em caso de agressão militar, entrando assim em choque com os revisionistas do partido).

Voltando às discussões sobre a Partisan Review, que procurou apoio de Trotski e solicitou sua colaboração na mesma, houve uma tensão inicial entre o marxista russo e a revista. Trotski exigia uma definição política do periódico, que ele chegou a chamar de mosteiro cultural: tratava-se da ausência de uma abordagem mais combativa num quadro histórico às vésperas da Segunda Guerra Mundial(1939-45). A verdade é que Trotski, apesar de sua exigência política ser correta, pegou pesado com a revista exatamente porque desconsiderou seu o caráter marxista independente num momento em que o stalinismo controlava a produção cultural de boa parte da esquerda. As coisas ficaram na boa entre Trotski e a Partisan Review, sendo que o primeiro colaborou com a mesma(isto foi possível porque a Partisan Review amadureceu politicamente e escancarou o seu anti-stalinismo).

De qualquer modo, apesar das confusões filosóficas e da irregularidade política, muitos trotskistas americanos sofreram um bocado para expressar suas opiniões políticas e, no caso dos escritores , realizar seu trabalho cultural. Ainda que não tenham, a exemplo do Brasil, enfrentado a barra de regimes políticos autoritários, os trotskistas americanos amargaram(e muitos ficaram amargurados ) com a marginalização realizada pelo stalinismo e pelo New Deal. Sérias dificuldades financeiras, rótulos fabricados e perseguições eram parte da rotina dos trotskistas nos EUA. Talvez o melhor registro literário disso seja a obra Dize-me Com Quem Andas(1942), de Mary McCarthy. A autora, que escreveu crítica teatral para a Partisan Review, apresenta uma obra de ficção que expõe de modo satírico(e amargo) os dramas pessoais da personagem Margaret Sargent(que na realidade é a própria Mary) na Nova York dos boêmios e intelectuais radicais. Quem quiser ler este livro terá que garimpar nos sebos, pois a única edição no Brasil, pelo que me consta, foi feita pela Civilização Brasileira em 1967. Além de Mary McCarthy, existem vários outros nomes da literatura norte americana que estiveram ligados ao trotskismo, tais como James T. Farrell.

E o que aconteceu com a Partisan Review? Ainda que permanecesse como importante veículo de crítica literária(a revista foi editada até o ano de 2003), alguns dos seus integrantes assumiram no pós guerra uma posição política conservadora, anti-marxista. Para um militante de esquerda dos nossos dias, interessa mesmo é mergulhar no material que a revista apresentou durante os anos 30. Os artigos da revista neste período articulam de modo avançadíssimo arte e política; cabe mencionar que o Manifesto Por Uma Arte Revolucionária Independente (1938) de Breton e Trotski, chegou aos EUA pelas páginas da Partisan Review. Para quem quiser pesquisar o acervo da revista, a Universidade de Boston disponibiliza na internet a coleção completa da Partisan Review digitalizada. O debate estético da esquerda, ontem e hoje, passa obrigatoriamente por várias questões que os chamados intelectuais de Nova York levantaram.




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