Opinião

MULHERES E ELEIÇÕES

Partidos preenchem cota feminina nas eleições: os interesses das mulheres serão defendidos?

Ter 30% de candidatas mulheres em todos os partidos que disputam os cargos proporcionais nessas eleições significa que estamos avançando para alçancar nossos demandas?

Odete Cristina

São Paulo

sexta-feira 17 de agosto| Edição do dia

Em nosso país as mulheres representam 51,09% da população, no entanto somos menos de 10% no Congresso Nacional. Como uma resposta ao crescente movimento de mulheres em todo o mundo, muitos países começaram a aderir a política de cotas partidárias nas candidaturas, tentando por essa via garantir maior representatividade feminina no parlamento. Segundo a legislação brasileira ao menos 30% dos candidatos a deputados estaduais, federais e vereadores devem ser do sexo feminino. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) 30,7% das candidaturas a deputado estadual e 31,59% das vagas para deputados federais, desse ano foram preenchidas por cargos femininos. No entanto as informações ainda podem ser atualizadas.

Se analisamos os cargos onde não existe exigência mínima de mulheres, o número de candidatas é ainda menor. Somos apenas 15% entre os candidatos à presidência, 12% na disputa a cargos de governos estaduais, e 18% na disputa do senado. E se mantivermos as proporções de 2014, o número de mulheres eleitas pode ser menor ainda.

Nessas eleições também existe uma cota mínima destinada a distribuição de recursos das candidaturas, que também corresponde a 30%. Uma das vias da justiça burguesa de tentar evitar as práticas comuns entre os partidos da ordem, de candidatas fantasmas registradas apenas para burlar a lei.

Em meio a uma eleição tutelada pela Lava Jato, que avança com o golpismo tentando retirar o direito da população escolher em quem votar, e a uma profunda crise econômica, social e política, a disputa pela voto feminino se tornou uma peça chave para os partidos da ordem, cada vez mais deslegitimados frente a população. Quase 80% das mulheres ainda não tem voto definido, 54% está indecisa, 26% pretende anular o voto.

Nossos interesses serão efetivamente representados apenas por ter mais mulheres ocupando postos de poder?

Para nós do grupo de mulheres Pão e Rosas, ter mais mulheres ocupando espaços de poder não significa que iremos ter nossas demandas atendidas. Pelo contrário, mulheres a serviço dos interesses burgueses como Ana Amélia, vice candidata à presidência da república junto a Geraldo Alckmin e representante dos latifundiários gaúchos, Kátia Abreu a motosserra de ouro e vice candidata à presidência junto a Ciro Gomes, ou Marina Silva uma das poucas candidatas a presidência da república, que se coloca abertamente contra o direito ao aborto legal, defende a continuidade do golpe e dos avanços do judiciário contra os trabalhadores, que atinge especialmente as mulheres trabalhadoras.

Definitivamente o interesse dessas mulheres são opostos a ampla maioria dos interesses das mulheres brasileiras, que também são maioria entre a gigantesca classe operária. Nem falar nos interesses das mulheres negras, que em nosso país recebem 60% a menos que os homens brancos, que ocupam os piores postos de trabalhos e cotidianamente tem uma série de direitos negados.

Nos 5 anos que tivemos uma mulher à frente do nosso país, Dilma Rousself do PT permitiu que milhares de mulheres seguissem morrendo ao não legalizar o direito ao aborto, fez acordos que fortaleceram as bancadas fundamentalistas e religiosas que se depois deram o golpe institucional. E em 2015 quando a crise econômica se fez sentir mais forte em nosso país, mostrou que seu compromisso não era com as mulheres pobres e trabalhadores, mas sim com os grandes empresários e banqueiros que roubam fortunas do povo, e para honrar os compromissos com esses interesses de capitalistas estrangeiros, em primeiro lugar o pagamento da ilegítima dívida pública, começou a implementação dos duros ajustes que hoje o golpismo avança a passos largos contra a classe trabalhadora.

Não por acaso, agora a Lava Jato e o judiciário tutelam cada passo dessa eleição, mantendo Lula preso arbitrariamente. Porque querem seguir descarregando os ataques sobre as costas dos trabalhadores, especialmente das mulheres trabalhadoras. E para isso buscam retirar o direito da população escolher em quem votar, mas também fazem demagogia com a ideia de mais mulheres no poder, tentando limpar a cara dessas eleições. Mas nós aprendemos com a história e a experiência cotidiana, que mais mulheres burguesas no poder não significa que nossos interesses e demandas serão atendidas.

Não somos uma no poder, somos milhares pelas ruas

Como parte de uma organização internacional de mulheres, nós do grupo de mulheres Pão e Rosas temos orgulho de apresentar uma perspectiva totalmente oposta a defendida por esses partidos da ordem. Nosso exemplo é a Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (FIT na sua sigla argentina), uma frente eleitoral baseada na independência de classe dos trabalhadores, que pela primeira vez na história inverteu a cota de mulheres na Argentina em 2015, com uma chapa encabeçada majoritariamente por mulheres trabalhadoras, que diferentemente das candidaturas fantasmas apresentadas pelos partidos burgueses, eram referencias políticas em seus locais de trabalhado e estudo, que construíram campanhas militantes por todo o país.

Mas sabemos que não basta apenas a disputa nas eleições, pois os direitos das mulheres se conquistam nas ruas, e é por isso que desde o feminismo socialista do Pão e Rosas sempre estamos na linha de frente das principais lutas das mulheres e dos trabalhadores nos diversos países onde estamos. Como foi recentemente com a maré verde que tomou as ruas pela legalização do direito ao aborto na Argentina e contagiou o mundo ao se enfrentar com todo o reacionarismo da igreja e o conservadorismo do senado argentino. E como mesmo depois da derrota na votação do projeto de lei seguirão com sua luta, pois nós mulheres sabemos que o patriarcado não vai cair sozinho, ele precisa ser derrubado. E a única forma de fazer isso é lutando nas ruas, ao lado dos nosso companheiros homens, se enfrentando também com esse sistema capitalista.

Aqui no Brasil, nós do grupo de mulheres Pão e Rosas temos muito orgulho de estar na linha de frente das lutas contra o golpe e seus ataques e das demandas das mulheres como a legalização do direito ao aborto. E para potencializar essas lutas, iremos levar adiante as candidaturas de Diana Assunção para deputada federal e de Maíra Machado para deputada estadual em São Paulo, de Flávia Valle como deputada federal em Minas Gerais e de Val Muller como deputada estadual no Rio Grande do Sul. Jovens mulheres trabalhadoras e lutadoras que se apresentam ao lado de Marcello Pablito, fundador do Quilombo Vermelho e candidato a deputado estudual em São Paulo, como candidatos do MRT em filiação democrática pelo PSOL para defender nossas ideias. As ideias de que a força da luta das mulheres e negros não está em colocar alguns poucos de nós no poder, mas sim em batalharmos pela unificação da nossa classe, para se enfrentar com o avanço do golpe institucional denunciando a arbitrariedade da Lava Jato e da justiça golpista que busca retirar o direito da população decidir em quem votar. Para inspirados nas mulheres argentinas, para construir em cada local de trabalho e estudo a luta pela legalização do direito ao aborto no Brasil, para se enfrentar com a subordinação e o roubo do país pelo imperialismo, defendendo o não pagamento da dívida pública. E por meio dessa ideias buscar construir uma alternativa que supere o PT pela esquerda. Construir uma voz anticapitalista da classe trabalhadora.




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