Gênero e sexualidade

50 ANOS DE STONEWALL

Parada LGBT em Campinas e os nossos desafios nos 50 anos de Stonewall

Neste próximo domingo (30) ocorrerá na cidade de Campinas (SP) a 19º Parada do Orgulho LGBT com o tema “50 anos de Stonewall – se fere a nossa existência, seremos resistência!”. Trata-se da primeira parada sob o governo ultrarreacionário de Jair Bolsonaro (PSL) e em meio ao aprofundamento da crise do governo de Jonas Donizette (PSB), importante articulador da Reforma da Previdência sendo presidente da Frente Nacional de Prefeitos. É necessário tirar as lições da revolta de Stonewall e confiar em nossas próprias forças pra derrotar Bolsonaro, a reforma da previdência e os ataques aos LGBT.

Livia Tonelli

Professora da rede estadual em Campinas (SP)

sábado 29 de junho| Edição do dia

Em 2019 comemora-se 50 anos de Stonewall. Foram dias de muito combate – barricadas e enfrentamentos corpo a corpo – as forças repressivas do Estado norte americano. Ainda que fosse sistemática a violência dirigida pela polícia de Nova York as LGBTs, em junho de 1969 as forças repressivas do Estado que invadiram o bar Stonewall Inn e deteve travestis por vestirem mais de duas peças de roupa do “sexo oposto” se depararam com a resistência das mesmas. As ruas do Greenwich Village, bairro de Manhattan onde está localizado o Stonewall Inn, foi local de expressão do ódio das LGBTs, principalmente das travestis e lésbicas, que de cabeça erguida e punhos cerrados tijolaram e incendiaram a polícia de Nova York pelo direito de expressar livremente a sua sexualidade e identidade de gênero. Reivindicamos os avanços importantes, ainda que relativos, fruto das batalhadas travadas pelo movimento LGBT e apoiadores naquele junho de 1969 nova-iorquino. É necessário retomar a moral das lutadoras trans e travestis negras, das lésbicas, e dos gays de Stonewall. Assim como sua insubordinação diante das leis discriminatórias e das forças repressoras lgbtfóbicas frente aos desafios que estão dados para nós.

A celebração dos 50 anos da Revolta de Stonewall se dá diante do 11º ano da crise capitalista que coloca para os trabalhadores e juventude pagarem com suas próprias vidas pelo lucro deles e em meio ao ascenso da extrema direita conservadora a nível internacional. Esses setores que atacam a juventude, a classe trabalhadora de conjunto e as LGBTs são os mesmos que fazem demagogia com as nossas demandas. Donald Trump, por exemplo,“comemora” o dia do orgulho LGBT ao mesmo tempo que dispara o ódio que sustenta a nossa opressão. Trump em seu primeiro mês de mandato proibiu que estudantes transgêneros pudessem usar o banheiro que quisessem de suas escolas.

No Brasil, fruto do golpe institucional e do aprofundamento da crise orgânica, esse reacionarismo se expressa de forma escandalosa na figura opressora do presidente outsider Jair Bolsonaro (PSL) e em toda a sua base de governo, tal como, a repudiável ministra inimiga das mulheres e das LGBTs Damares Alves.

Diferente do discurso petista de “cortina de fumaça”, Bolsonaro elencou abertamente os LGBT’s e os demais setores oprimidos como seus grandes inimigos. Isso fica evidente com as reformas, cortes orçamentários e discursos de ódio. Bolsonaro quer acabar com as cotas nas universidades, precarizar ainda mais o trabalho das mulheres, principalmente, das mulheres negras que já ocupam os piores postos de trabalho, extinguiu o departamento de combate à AIDS (em alguns estados já falta remédio para o tratamento). Não à toa, Bolsonaro ataca as LGBTs, as negras e negros e as mulheres. Além de sua convicção conservadora é parte de atender aos anseios de sua base e mantê-la firme. Ainda mais, diante do avanço dos ataques econômicos e as possibilidades desses promoverem o desgaste de seu governo.

O avanço da extrema direita no executivo, no congresso nacional e no judiciário não se dá em meio à passividade dos setores explorados e oprimidos. Centenas de milhares de jovens e trabalhadores ocuparam as ruas do nosso país no último período. A juventude, em especial, expressou grande força nas manifestações dos dias 15 e 30 de maio contra os cortes na educação e a reforma da previdência. Entretanto, tanto essas manifestações como a greve geral do dia 14 de junho poderiam ter sido maiores se não fosse a política das centrais sindicais de separação e traição da luta. Rechaçamos a repudiável reforma da previdência e os cortes na educação. Não aceitamos qualquer reforma mais “light” como defendem alguns setores. Não aceitaremos trabalhar até morrer ou ter que escolher entre estudar ou se aposentar. Queremos gozar de uma vida pela de sentido. Nossas vidas não estão em negociação em nome dos lucros dos capitalistas e dos acordos dos políticos dos partidos da ordem.

É nesse contexto que querem piorar as condições de vida e trabalho das LGBT’s. É importante ressaltar que amargamos o recorde de ser o país com maiores índices de assassinatos de LGBT’s no mundo inteiro. Ano passado, 1 LGBT foi morta no Brasil a cada 16 horas. Nas últimas eleições, fruto do discurso de ódio disparado por Bolsonaro, o número de ataques LGBTfóbicos aumentou absurdamente. As travestis e transexuais que tem no nosso país a expectativa de apenas 35 anos de idade se deparam além da violência cotidiana com todas as dificuldades de uma sociedade lgbtfóbica, machista e patriarcal de conseguir emprego. A reforma da previdência e os ataques de conjunto à classe trabalhadora irão aprofundar as condições de exploração e opressão das LGBTs.

Foi nesse contexto também que o movimento LGBT obteve uma reivindicação histórica, a criminalização da homolesbotransfobia. Uma medida mínima aprovada no mês de julho pelo Supremo Tribunal Federal frente à opressão cotidiana que nós sofremos. Contudo, não podemos depositar nenhuma confiança nessa instituição e considerá-la aliada das LGBTs. O STF foi importante agente do golpe institucional que manipulou as eleições e que mantém arbitrariamente o Lula preso. Exigimos a liberdade de Lula, sem dar nenhum apoio político ao PT. O STF tem um objetivo: nos impor as condições mais miseráveis possíveis de vida. Foi o STF que aprovou, por exemplo, a terceirização irrestrita ano passado que ataca em sua maioria as mulheres negras e LGBT’s e que aprovou o ensino religioso nas escolas.

Existe também as empresas dentro do movimento LGBT, que se dizem pelos nossos direitos e nossas vidas, mas financiam abertamente políticos que alimentam o ódio contra nossos gêneros e sexualidades. Esse é o Pink Money. Vêm as LGBT’s como um consumidor em potencial a ser explorado mercado. Por isso não confiamos e não deixamos nossa luta na mão de setores que querem nos ver trabalhar até morrer. Explorando o máximo que podem de nossas vidas. A libertação do desejo do ser e sentir, não virá das mãos das empresas capitalistas, inclusive porque a piora das condições de vida e os ataques ao conjunto da classe trabalhadora, héteros ou não, faz com que não tenhamos tempo nem condições de expressar e sentir até o fim a nossa sexualidade e identidade de gênero.

Em Campinas o prefeito Jonas Donizette (PSB), presidente da Frente Nacional de Prefeitos e importante articulador da Reforma da Previdência, depois de reprimir absurdamente a 16ª Parada LGBT sentiu a resposta política do movimento LGBT que tomou novamente, no mesmo mês, as ruas da cidade contra toda e qualquer forma de expressão da repressão policial e da violência sobre nossos corpos. Diante desse histórico e do aprofundamento da crise política de seu governo, Jonas se viu obrigado a apoiar de alguma forma a parada esse ano. Encontrou no Pink Money o aliado perfeito que não criticará seus ataques e sua articulação pró reforma da previdência a nível nacional junto aos municípios.

Não esquecemos da brutal repressão da 16ª parada LGBT de Campinas, uma cidade referência para as LGBT do interior paulista e que atrai mais de 20 mil pessoas por ano para comemorar seu orgulho. Não confiamos em Jonas e na reacionária Câmara Municipal de Campinas (SP) que tem vereadores como Tenente Santini (PSD) e Campos Filho (DEM), entre outros, que querem castrar a expressão da nossa sexualidade e identidade de gênero. Além de colocar uma mordaça na boca de estudantes e professores ao tentarem proibir o debate de gênero e sexualidade nas escolas.

É contra esses setores que nos elegem como inimigos diretamente, ou usam nossa luta de forma demagogica, que queremos resgatar os exemplos de Marsha “a mãe travesti” e de Sylvia Rivera “a primeira estrela travesti”, bem como das Panteras Rosas que organizavam grupos de autodefesa das LGBTs, ou da Frente Homossexual de Ação Revolucionária na França e o grupo Lesbians and Gays Support the Miners, para dizer que é preciso confiar em nossas próprias forças para derrotar Bolsonaro, a reforma da previdência e os ataques aos LGBT’s nesses 50 anos de Stonewall.

É preciso e urgente um plano de luta contra a reforma da previdência e os cortes de Bolsonaro. É tarefa das centrais sindicais, tais como, a CUT e CTB, dirigidas respectivamente pelo PT e PCdoB, que construam a partir dos locais de trabalho e estudos um verdadeiro plano de luta e que rompam imediatamente com qualquer negociação e pacto junto ao centrão, congresso, STF e Bolsonaro. Para os trabalhadores e juventude não há outra resposta senão a derrubata total da reforma da previdência. Acreditamos que o PSOL, principal partido à esquerda do PT, com seu peso parlamentar, deva também exigir um plano de lutas das centrais sindicais rompendo sua coexistência pacífica com as mesmas. Assim como, romper com suas frentes parlamentares que tem partidos que apoiam a reforma da morte, tais como, o PDT de Tábata Amaral e agora o PT, dos governadores do nordeste que assinaram carta favorável a reforma.

Por isso gritamos bem alto!
Separação da Igreja do Estado!
Abaixo a Reforma da Previdência!
Basta de transfeminicidios e violência aos LGBT’s!
Não vamos deixar nos matar. Remédios conforme à necessidade para o tratamento do HIV. Queremos a cura já!
Pela liberdade sexual e livre construção de nossas identidades!
Abaixo ao capitalismo!


Veja o Dossiê – Especial 50 anos de Stonewall do Esquerda Diário: http://www.esquerdadiario.com.br/DOSSIE-ESPECIAL-50-ANOS-DE-STONEWALL e a declaração do Movimento Revolucionário de Trabalhadores no mês do Orgulho LGBT




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