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Para recuperar a luta de classes contra o capitalismo patriarcal

Redação Contrapunto

Tradução de Alexandre Miguez.
Foto-montagem: Contrapunto.

Para recuperar a luta de classes contra o capitalismo patriarcal

Redação Contrapunto

Uma entrevista com Cynthia Burgueño e Josefina Martínez

Publicamos aqui, traduzida, uma entrevista da editora Contrapunto com as autoras do livro Patriarcado y capitalismo. Feminismo, clase y diversidad, publicado pela editora Akal no Estado Espanhol e que em breve será publicado pela Contrapunto, na Argentina.

[Contrapunto] Recentemente, multiplicaram-se as publicações de livros sobre feminismo, mas este possui um ponto de vista não tão frequente, colocando a relação entre gênero e classe, entre patriarcado e capitalismo. A que objetivos vocês se propuseram com esse livro?

Cynthia Burgueño: Nós partimos da ideia de que não há somente um feminismo, mas muitos feminismos. Como coloca Andrea D’Atri no prólogo, no movimento de mulheres, intervêm diversas correntes, com diversas estratégias. É um movimento que tende a ser internacionalista e no qual meninas muito jovens têm um papel importante, como vimos nas greves de mulheres do 8M, nas marchas massivas na Argentina, no Estado Espanhol, Itália, e agora no Chile.

Como parte deste movimento, no qual participamos junto a nossas companheiras do Pão e Rosas em vários países, queremos contribuir com o ponto de vista do feminismo marxista, um feminismo que é necessariamente anticapitalista, antirracista e anti-imperialista.

Josefina Martínez: Para isso, tratamos diversos temas muito atuais, como o feminismo liberal, a feminização da força de trabalho, a cruzada anti gênero da extrema direita, a islamofobia, o racismo e a imigração, o debate sobre a prostituição, a luta pela liberação sexual e contra a violência machista e damos alguns aportes aos novos debates do feminismo anticapitalista. O fio condutor de percorre todo o livro – ou pelo menos foi essa nossa intenção – é o ponto de vista do feminismo revolucionário.

Terminamos o livro – isso é um spoiler – colocando a necessidade de lutar por um novo tipo de sociedade, pois o capitalismo condena grande parte da população a ter que lutar para sobreviver. Nele, se redobram as opressões, a exploração da juventude precarizada e as formas de escravidão moderna, a violência contra as mulheres, o assassinato de imigrantes nas fronteiras e a destruição do próprio planeta. O grande triunfo do capitalismo é que estamos mais habituados a pensar em catástrofes e distopias que em imaginar a possibilidade de reorganizar a sociedade sobre novas bases, para além do capital. Mas deve ser esse o objetivo de um movimento feminista anticapitalista, com uma estratégia de acordo.

[CP] No primeiro capitulo do livro, vocês colocam que o fato de que algumas mulheres poderosas rompam o teto de vidro e ocupem posições de poder não significa uma melhora na vida da maioria das mulheres, e usam como exemplo a atual presidente do banco Santander, Ana Botín, que se declara feminista.

JM: Exatamente. Esta é a premissa do feminismo liberal, que fala de “empoderamento” e “liberdade de escolha”, mas esconde que as mulheres não têm, todas, as mesmas possibilidades de “escolher livremente” nesta sociedade. Para expor somente alguns dados: a fortuna pessoal de Ana Botín era calculada, em 2018, em mais de 300 milhões de euros e ela preside um dos grupos financeiros mais importantes do mundo. O Santander financia mineração e hidrelétricas em vários países da América Latina, que por sua vez provocam a expulsão das populações originárias e a contaminação dos rios. Há muitas mulheres que estão lutando contra isso, e por isso estão sendo perseguidas e assassinadas, como Berta Cárceres. Nosso feminismo é anti-imperialista e anticapitalista.

A Plataforma de Afectados por la Hipoteca (PAH), do Estado Espanhol, calcula que somente nos primeiros quatro anos de crise após 2008 houveram, na Espanha, mais de 400.000 despejos, pelo menos 10% dos quais foram efetuados pelo Santander. Nós estamos ao lado das moradoras que lutam contra os despejos, com as trabalhadoras que fazem piquete no 8M, contra banqueiras como Ana Botín.

[CP] O debate sobre o feminismo liberal se reabre, também, com a chegada de novas ministras socialistas ao governo do PSOE, no Estado Espanhol, definido como um dos “mais feministas do mundo”. Qual a sua opinião?

CB: Em primeiro lugar, algo que deveria ser óbvio a essa altura: a presença de mais mulheres em altos cargos políticos não significa que o governo será mais feminista, se entendemos, por esse termo, que beneficia a maioria das mulheres. Como prova, basta olhar o caso da Alemanha de Ângela Merkel. No caso do PSOE, basta ver a trajetória de uma “super ministra” como Nadia Calviño, que foi citada para dirigir o FMI (um organismo que impõe a austeridade em todo o mundo, como fez na Grécia e na Argentina!), uma ministra que foi saudada, justamente, por Ana Botín, como garantia de que seus negócios seguirão a vento em popa.

Para nós, não se trata de conformar-se com a cota de igualdade para um pequeno grupo de mulheres dentro das estruturas capitalistas patriarcais, o que queremos é destruí-las completamente.

JM: Retomando o que colocam várias autoras, dizemos que o neoliberalismo adotou do feminismo alguns ternos isolados, com uma forma profundamente individualista. Palavras como empoderamento e escolha passaram a ser o centro do discurso de ONGs e universidades. E nas ultimas décadas, se produzir o que uma autora definiu como uma “relação perigosa” entre feminismo e neoliberalismo.

Mas hoje está surgindo algo muito distinto. A possibilidade de romper essa prisão do feminismo liberal já pode ser vista nas poderosas greves de mulheres do Estado Espanhol, Polônia e Argentina, nas lutas das mulheres trabalhadoras, camponesas e indígenas e, sobretudo, no que estamos vendo nas últimas semanas: uma nova onda de luta de classes no Chile, Bolívia e Equador, onde as mulheres estão na linha de frente.

A feminização da força de trabalho

[CP] No livro, vocês fazem um contrasta entre a história de Ana Botín e a de Ana López, uma trabalhadora imigrante que limpa quartos de hotéis e que se organiza como parte de Las Kellys [associação espanhola de camareiras]. Enquanto umas poucas atravessam os tetos de vidro, outras muitas caminham em solos insalubres...

CB: Fizemos entrevistas com trabalhadoras de Las Kellys, de call center, lutadoras da fábrica Panrico, imigrantes e trabalhadoras domésticas. Com todas elas, compartilhamos assembleias, manifestações e greves. Por isso, queríamos que seus testemunhos estivessem neste livro. Las Kellys, como muitas outras, são mulheres que lutam contra a exploração, os despejos e a violência machista, para sair dessas situações precárias, mostrando que seu pertencimento à classe delimita sua opressão. Suas experiências são atravessadas pelo peso da exploração como trabalhadoras e a opressão como mulheres e imigrantes.

Por isso, propomos analisar as duplas inseparáveis de classe e gênero, opressão e exploração, algo fundamental para pensar as estratégias de emancipação contra o capitalismo patriarcal. Nem abstrair a opressão das relações de exploração, nem cair em uma visão mecanicista e reducionista de classe que considera o machismo e o racismo como algo de segunda ordem. Dizemos que a luta contra as múltiplas opressões das mulheres se inscreve na história da luta de classes, e nesta batalha, Ana Botín e Ana López estão em trincheiras opostas.

[CP] Também há uma análise das transformações do mundo do trabalho. Uma classe operária feminizada e radicalizada?

JM: Pela primeira vez na história do capitalismo, aproximadamente 40% do emprego global é composto por mulheres.Esta enorme força de trabalho feminina permite romper com a ideia de uma classe trabalhadora reduzida ao operário masculino de macacão azul, único sustento e chefe de família, nativo e branco. Mas estas transformações estão acompanhadas da piora das condições de trabalho, da fragmentação e divisão interna da classe em múltiplas categorias.

O capitalismo aproveita e promove a divisão sexual do trabalho, não somente a que existe historicamente entre o lar e o emprego, mas mesmo na produção, com trabalhos feminizados mais precários. O sistema mantém, com muitas contradições, a ideia da domesticidade feminina, destinando as trabalhadoras e realizar este trabalho doméstico não remunerado em uma dupla jornada.

A estes debates sobre o trabalho doméstico e sua relação com o capitalismo de conjunto, dedicamos um capítulo inteiro, pontuando as elaborações de diferentes correntes do feminismo desde os anos 70 até a atualidade. Não vamos contar tudo, para fazer vocês lerem...

[CP] Outro tema de muita atualidade é a cruzada anti gênero da extrema direita. O VOX [partido de extrema direita espanhol] acaba da eleger 52 deputados no congresso. Como vocês abordam a questão?

JM: Esta cruzada é um fenômeno internacional. Desde o vaticano até Donald Trump, todos propagam esse discurso contra a “ideologia de gênero”. Esta nova direita conservadora e cristã tem fortes tentáculos globais. Mas lembremos que o conceito de “ideologia” de gênero foi uma invenção do Vaticano para demonizar as teorias feministas e queer. Enquanto muitos falam de Bergoglio como um papa progressista, ele chegou ao Vaticano com um currículo muito conservador. Em 2010 era arcebispo de Buenos Aires, e foi contrário à Lei do Matrimônio Igualitário, dizia ser um atentado do demônio “para destruir a obra de Deus”. As igrejas evangélicas também estão na vanguarda na batalha antifeminista. Seu crescimento é um elemento chave para projetos populistas de direita, nos EUA e no Brasil de Bolsonaro. Não se pode entender este fenômeno por fora de analisar o que chamamos de “crises orgânicas” em vários países, crises de representação e grande polarização política, onde emergem os populismos de direita, com um discurso agressivo para capitalizar de forma reacionária no mal-estar gerado pelas políticas neoliberais.

[CP] E frente a essa ofensiva, o que vocês propõem desde o feminismo anticapitalista?

CB: Pensamos que o feminismo tem que reafirmar-se como um movimento que enfrenta e xenofobia e o racismo, e por isso dedicamos um capítulo às lutas das trabalhadoras imigrantes, que são triplamente oprimidas, mas também triplamente combativas, como sempre dizem as companheiras imigrantes do Pão e Rosas. E a verdade é que este ponto de vista antirracista não está somente em um capítulo, mas atravessa todos os temas, como a questão laboral, a violência machista e as questões mais políticas. Tomamos em particular os casos das trabalhadoras da morango da Andaluzia, trabalhadoras contratadas em casa, trabalhadoras domésticas em vários países ou cuidadoras de idosos e crianças na Itália, empregadas domésticas, etc.

E dizemos que o feminismo antirracista tem que ser, ao mesmo tempo, anticapitalista e anti-imperialista, porque não se trata de uma questão de ações individuais, são de estruturas materiais que permitem uma maior exploração e opressão de milhões de pessoas nos países imperialistas e no resto do mundo.

[CP] O debate do marxismo e do feminismo tem tido encontros e desencontros, polêmicas e debates.

JM: Pensamos que para abordar as complexas relações entre o feminismo e o marxismo, é importante recuperar a tradição do feminismo socialista, e resgatar algumas reflexões sobre a emancipação das mulheres que se colocaram no pensamento marxista desde seu início.

Por exemplo, Flora Tristán, em meados do século XIX, já fazia uma análise da relação entre classe e gênero, afirmando que as trabalhadoras eram “as proletárias entre os proletários”. De sua parte, Marx e Engels falavam da necessidade de lutar pela emancipação feminina desde seus primeiros textos, como A Sagrada Família e A Situação da Classe Operária na Inglaterra, e seguiram tratando o tema no Manifesto Comunista e no trabalho de Engels mais referente à questão: A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado.

Estas primeiras elaborações foram retomadas por feministas socialistas como Eleonor Marx e Clara Zetkin. Esta organizou congressos internacionais de mulheres socialistas e contra a guerra imperialista. E nesta luta, esteve na primeira fileira, junto com sua amiga Rosa Luxemburgo. Aleksandra Kolontái liderou, junto a outras militantes, como Inessa Armand, o debate sobre a questão da emancipação das mulheres no partido bolchevique. Há uma história importante a se recuperar aí.

CB: Também recuperamos a experiência dos primeiros anos da revolução russa, quando a emancipação das mulheres era parte dos temas prioritários. Lênin escreveu que a construção do socialismo somente poderia começar realmente depois da igualdade das mulheres ter sido alcançada, libertando-as da carga de trabalho doméstico, algo que levaria muitos anos de transformações.

Ademais, o grande retrocesso representado pelo estalinismo neste terreno foi combatido por dirigentes como León Trótski, que denunciou que os argumentos usados pela burocracia para voltar a restringir as mulheres à família patriarcal eram “filosofia de padre” com “punho de policial”. Todos estes debates formam parte da tradição do movimento operário e do movimento de mulheres, e conhece-los é chave para não começarmos desde o zero. Outras polêmicas importantes do feminismo socialista se deram nos anos 60, e tratamos de algumas, como os debates com o feminismo radical, o feminismo materialista e as teorias do sistema duplo ou sistema unitário.

[CP] Por fim, vocês propõem no livro que o movimento de mulheres podia estar antecipando um retorno da luta de classes em geral. Parece que a realidade já está confirmando isso, não?

JM: Claro! Já temos que atualizar o livro com as lutas do Chile, Equador, Bolívia e Honduras das últimas semanas. Podemos fazer isso para a segunda edição [risos]. Estas batalhas no terreno da luta de classes mostram o papel central que podem ter as mulheres trabalhadoras e camponesas, junto à juventude rebelde e à classe trabalhadora de conjunto contra o capitalismo patriarcal.

CB: Esta nova força de trabalho feminina está concentrada em posições estratégicas para o funcionamento da economia capitalista, nas grandes metrópoles, longe do papel “secundário” que lhe quiseram impor historicamente. Isto explica também porque as trabalhadoras começam a aparecer na linha de frente nessas greves e lutas. Trabalhadoras e trabalhadores que se encontram nas ruas com novas gerações de jovens e constituem um desafio potencial ao sistema capitalista patriarcal.

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