Política

CONGRESSO DO PT

Para onde vão Lula e o PT?

No último final de semana o PT realizou seu 7º Congresso, com a presença não só de Lula e de dirigentes partidários históricos, como José Dirceu e Genuíno, afastados da vida política nacional desde o escândalo do mensalão.

Thiago Flamé

São Paulo

quarta-feira 27 de novembro| Edição do dia

Mesmo depois de quatro anos sob o ataque cerrado da Lava Jato e da Rede Globo, o PT se manteve como o principal partido político do país, com a maior bancada de deputados, controle da maior central sindical, a CUT, e o político mais popular que é Lula. A força do PT, que Lula tem ressaltado em cada um dos seus discurso desde que saiu da prisão, contrasta que a fragmentação dos seus adversários, da falência tucana ao fraturado PSDB, passando pelo DEM de Rodrigo Maia, o partido que hoje controla a presidência da Câmara e do Senado e se tornou o líder do fisiologismo com a decadência do PMDB. No entanto, o PT está longe de ser um todo harmonioso.

Desde a prisão de Lula, meses antes das eleições, a questão da sucessão esteve no centro das disputas partidárias. Com Lula (e também Dirceu) fora do palco, quem assumiria o comando partidário? Primeira a disputa entre os governadores e o aparato partidário apoiado por Lula, em torno de lançar ou não um nome próprio nas eleições de 2018. Depois, uma segunda versão dessa batalha, manter a até a última hora a candidatura proscrita de Lula, ou construir com o maior tempo possível a figura política de Haddad. Nos dois momentos Lula se impôs, e barrou o surgimento de qualquer força que quisesse acelerar sua aposentadoria. Até sua soltura, estávamos vendo uma agudização dessa disputa interna, que poderia culminar em fortes tensionamentos durante o congresso partidário. Se expressou na diferente postura de deputados e sindicalistas e os governadores do Nordeste em relação a Reforma da Previdência e o governo Bolsonaro – os governadores buscando dialogo e negociação e a outra ala fazendo uma oposição mais estridente (sendo bem generosos), ainda que inócua. E teve seu ponto alto com Rui Costa, governador da Bahia, se lançando precocemente como pré-candidato para 2022, e defendendo que o PT deveria ter apoiado a candidatura de Ciro Gomes em 2018.

Quem assistir atentamente o discurso de Lula da reunião da executiva nacional (a máxima direção do PT) preparatória ao congresso, poderá – se quiser – ver nas entrelinhas essas tensões que cruzam a alta cúpula do partido. Lula tem dito, em tom de ameaça às elites, que pretende viver até os 120 anos – mas isso é também um recado para os seus companheiros de partido. De Haddad, disse que ele representa “tudo que a classe média gosta”, um elogio no mínimo enviesado num partido que se diz dos trabalhadores, e ainda completou “e mesmo assim apanhou igual cachorro pequeno”. Para Gleisi, a presidenta que ele não cansa de elogia, fez uma defesa que ao mesmo tempo a expõe e revela sua fraca autoridade sobre o aparato petista: pediu respeito por que na cadeia pode reparar que enquanto ela fala nas reuniões todos ficam no celular – e detalhe, ele mesmo não poupou as conversas paralelas durante a fala da presidenta na abertura do 7º Congresso. Sobre Rui Costa, concluiu também em tom elogioso, dizendo que o apoiou para o governo da Bahia por que ele era a Dilma do Jacques Wagner. Foi justamente Jacques Wagner o único que se salvou dessa bateria de elogios duvidosos, com Lula reconhecendo nele a força com quem se reconciliar para disciplinar os governadores.

Um PT dos movimentos sociais?

Em artigo publicado nesta terça-feira no Estadão, a articulista Eliane Cantanhêde se escandaliza com uma frase do discurso de Gleisi Hoffmann: “Ao assumir mais um mandato de presidente do PT olha o que ela disse, numa referência aos confrontos sangrentos no Chile, na Bolívia, no Equador e na Colômbia: ‘Quando as grandes manifestações ecoarem no Brasil, porque vão ecoar, nós temos de estar preparados para ajudar a conduzi-las.’ É de uma irresponsabilidade enorme a presidente de um dos maiores partidos do País falar assim, como é igualmente irresponsável Bolsonaro querer o Exército nos conflitos e fazendas pelo interior. Está todo mundo ficando louco?”. No seu pavor reacionário e estúpido a tudo que lembre de longe mobilizações populares, é incapaz para ver o papel que o PT está se preparando para cumprir nessa condução.

A tônica dos discursos de Lula, e mais ainda de Gleisi e de outros dirigentes petistas, aponta para uma retomada do perfil político que o PT teve até a década de noventa e foi perdendo ao longo dos anos de governo. Ao sair da prisão, ao lado de Lula, Dirceu já havia dado a linha: “Agora é para nós voltarmos e retomarmos o governo do Brasil. E para isso nós precisamos deixar claro que nós somos petistas, de esquerda e socialistas. Nós somos tudo o contrário do que esse governo está fazendo”. Até mesmo Lula, que nunca se reivindicou socialista, chegou a falar no seu discurso na executiva petista, que o PT é socialista.

O analista político Breno Altman aborda essa questão e as divisões internas do PT, colocando que existe uma disputa entre duas orientações. Uma, de defesa de alianças com a centro direita – que seria a Frente Ampla - e outra de defesa de alianças com os partidos de esquerda e centro-esquerda, que seria a Frente Popular, ressaltando como os discursos no Congresso foram mais a esquerda que a tese política aprovada pelo congresso. E de fato, os discursos estiveram muito mais a esquerda não só do que a tese aprovada, mas do que a prática concreta aplicada pelo PT nos estados que governa, em que reprime greves como Rui Costa na Bahia, mas não só, também nos sindicatos que dirige.

Num regime político gelatinoso, que vai se construindo sob os impactos do golpe institucional e das ameças da extrema direita que governa, o PT quer ser um fator de poder real na construção de um regime pós golpe. Para isso precisa fortalecer o partido e sua militância e cobrir seu flanco esquerdo, subordinando qualquer alternativa independente que possa surgir (como está fazendo efetivamente com a presença de Boulos e do presidente do PSOL na abertura do seu congresso, ou com os afagos trocados com Freixo). Daí os discursos de Lula reivindicando a Revolta dos Males, a Cabanagem e Canudos, criticando a precarização do trabalho, denunciando a subordinação aos EUA, a Lava Jato, a Globo, a entrega do patrimônio nacional e da Petrobras na bacia das almas.

Mas Cantanhêde pode dormir tranquila. O PT e Lula estão deslocando seu discurso a esquerda, se colocando como o exato oposto de Bolsonaro, querendo fortalecer sua militância e sua capacidade para conduzir as massas, mas não para atacar os interesses empresárias e financistas que ela tanto preza. Ao fim, as duas tendências que Breno Altman aponta não são contraditórias. A linha da Frente Popular vai prevalecer… até as próximas eleições presidenciais, quando o pragmatismo dos governadores vai se impor em nome da governabilidade futura. Quando Lula defende seu legado no governo, é esse modelo que ele tem em mente: governos junto com e dentro dos limites permitidos pelo centrão, pelo STF, pelo Alto Comando e pelas finanças. Dar o máximo que puder para os pobres, garantindo antes que os bancos lucrem como nunca. Só que se alguma lição verdeira o PT tirou das manifestações de junho de 2013 e do golpe institucional, é que se quiser governar com o apoio das elites, a sua única moeda de troca é conseguir conduzir as manifestações populares dentro dos limites aceitos pelos donos do país.




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