Teoria

DEBATE TEÓRICO

Para onde vai o capitalismo? A interpretação burguesa de Lawrence Summers

Buscando debater os rumos do capitalismo e pensar as tarefas da classe trabalhadora, esse é o primeiro artigo de uma série que buscará retomar as principais interpretações do capitalismo. A interpretação do economista Larry Summers tem grande influência nos governos burgueses dos países centrais e as saídas propostas pelo setor Democrata de Hillary Clinton.

terça-feira 2 de agosto| Edição do dia

Compreender e criticar de um ponto de vista classista e revolucionário toda a ideologia difundida pela burguesia através da mídia, das universidades e do senso comum é uma tarefa fundamental para que o movimento de trabalhadores avance em uma posição independente e revolucionária. Essa perspectiva estava expressa no próprio Marx ao expor abertamente sua perspectiva crítica e foi seguida por Lênin e Trotsky em suas elaborações posteriores.

Após a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética a burguesia se sentiu confortável para decretar “o fim da história”, o decreto mais breve já proferido. Foram tempos de prosperidade para a burguesia e dificuldades para os trabalhadores, marcados pela divisão nos postos de trabalho, precarização e terceirização. Para a burguesia dos EUA parecia que ia tudo bem, até o estouro da bolha imobiliária e a quebra do banco Lehman Brothers. É nesse contexto que o ex-secretario do Tesouro americano e Diretor de Política Econômica do governo Obama retoma um conceito criado na grande crise de 1929: estagnação secular.

Os desafios na época de Keynes

O conceito de estagnação secular foi criado pelo economista Alvin Hansen, contemporâneo do economista John Keynes e defensor do New Deal, programa econômico do governo Roosevelt para tirar os EUA da crise. Pela primeira vez a burguesia reconheceu que seu sistema gera desemprego (até então todas as teorias defendiam que o capitalismo tendia ao “pleno emprego”), e a possibilidade que houvesse um “excesso” de trabalhadores foi vista como um problema para a burguesia, de um lado eram as fábricas fechando e de outro as convulsões sociais que alarmavam os teóricos burgueses, como já lembramos aqui.

O economista Alvin Hansen então buscou em Adam Smith, David Ricardo e John Stuart Mill as primeiras impressões sobre dificuldades na economia. Para esses autores a estagnação é somente um período histórico, compreendido pelo equilíbrio e até mesmo redução nas taxas de lucro dos capitalistas. Todos eles defendiam que o capitalismo traria melhoras nas condições de vida. [1]

Mas os economistas que mais profundamente influenciarão Hansen são Marx, Keynes e Schumpeter. Como bom teórico da burguesia, Hansen “acidentalmente esquece” da luta de classe em Karl Marx e busca dois conceitos fundamentais no Capital: O aumento no capital constante, ou o uso de máquinas na produção e, derivado disso, a redução no uso da capacidade de produção, agravado em períodos de crise. De Keynes parte-se principal do equilíbrio da economia capitalista sob o desemprego constante (em oposição ao equilíbrio em pleno emprego) e, por fim, a interpretação de Schumpeter baseada no ciclos de Kondrantieff e Juglar. [2]

Os ciclos longos e de médio prazo (de Schumpeter) são “corrigidos” por Hansen em uma tendência de estabilização em torno de um nível de desemprego (de Keynes), derivado disso o maior aumento do uso de máquinas e a redução no nível delas. A conclusão em 1936 é simples: Os Estados-Unidos não crescerá como antes.

A retomada de Summers

Lawrence Summers é um economista do Partido Democrata, participou da gestão Clinton e Obama. Em suas análises sobre a crise ele aprofunda o conceito de Hansen ao questionar se a estagnação é um período histórico. Nas análises publicadas no site Forreign Affairs, o economista utiliza a estagnação como base do modelo e do entendimento da tendência do capitalismo. Por isso, para a burguesia não basta utilizar de mecanismos como o Quantitative Easing (QE) em certos períodos, não haverá mais crescimento como antes. [3]

Não há saída: o desemprego se manterá, os investimentos estão congelados e a inflação é uma doença constante. A conclusão de Summers aponta para uma saída burguesa para os Estados Unidos em torno do governo garantir investimentos. Para a classe trabalhadora mundial não haverá outro boom no consumo e os salários continuarão caindo. Nesse ponto, a conclusão de Summers herda a mesma cegueira de Alvin Hansen: não existe luta de classes, para os economistas da burguesia o ciclo econômica será ruim e teremos que nos acostumar com isso, numa tendência cada vez maior de achatamento dos salários e perda de direitos enquanto os capitalistas nadam em dinheiro.

Não podemos esperar nada de teorias que tentam domesticar os trabalhadores a viver com menos. Na França os trabalhadores deram um grande exemplo de como lutar, se unindo a juventude e mostrando sua força nas ruas. Nos Estados Unidos os negros, que ocupam os trabalhadores mais precários, se levantam contra a polícia racista. Sob o frio que o capitalismo nos promete, não há qualquer “verão” para as classes oprimidas que não seja construído na luta.




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