Política

ESTADOS UNIDOS

Para espanto de Bernie Sanders, a juventude abriu a fissura no partido Democrata

André Augusto

Natal | @AcierAndy

quarta-feira 27 de julho de 2016| Edição do dia

A severa polarização social e política, deixada como herança pela Grande Recessão de 2008, atravessou toda a corrida eleitoral norteamericana. O bipartidarismo tradicional entre Democratas e Republicanos, que mantinha a política circunscrita entre os clãs políticos das elites financeiras (como os Bush e os Clinton), foi profundamente golpeado pela polarização social, que deu origem a distintos fenômenos à esquerda e à direita.

Ainda que ambos os partidos sigam o mesmo curso do processo da decadência hegemônica norteamericana, isso se fez sentir mais no partido Republicano durante a primeira metade de 2016. O terremoto político causado pelo reacionário e xenófobo bilionário Donald Trump venceu a direita tradicional e inclusive o candidato da direita dura do Tea Party – Ted Cruz – para ser o representante Republicano nas presidenciais.

Bernie Sanders emergia com força com o discurso anti-Wall Street e contra o 1% mais rico, com uma retórica autointitulada “socialista” que, por mais limitada que fosse a propostas de reforma com um viés socialdemocrata, causou grandes problemas para que Hillary Clinton assegurasse a nominação (assegurada de antemão pelo antidemocrático sistema dos “supercandidatos” e as discussões da elite Democrata para que o senador de Vermont abandonasse a disputa, vazados no escândalo dos emails da presidente do Comitê Nacional partidário, Wasserman Schultz, que renunciou ao cargo).

Mesmo assim, a fissura dentro do partido de Obama não aparecia com a mesma contundência. Até agora. Com a confirmação da nominação de Hillary Clinton, a transformação da campanha de Sanders, que foi das denúncias aos desmandos dos poderosos e ao financiamento de Clinton pela Bolsa a um “anti-Trumpismo” geral em base à unidade com Clinton, desatou a ira dos jovens e dos setores sociais que buscava representar, ainda que de maneira distorcida. Trata-se de um novo ingrediente à profunda crise política que golpeia o coração do imperialismo.

Contra Trump... estamos com Hillary?

As tentativas de Sanders de “fechar as feridas” das eleições primárias e estabelecer a transferência de sua influência para a candidata Democrata foram um fracasso estrepitoso. O primeiro dia da Convenção Nacional do partido Democrata deixou claro que a base de apoio que Sanders adquiriu principalmente nos setores de juventude (80% dos menores de 30 anos optaram por apoiá-lo) e da juventude trabalhadora não é expansível a Hillary Clinton.

Sanders é vaiado quando chama a votar na fórmula Clinton-Kaine

Vaias, gritos de desilusão (“Nós confiávamos em você!”) e demonstrações incessantes de repúdio ecoaram no centro de convenções Well Fargo na Filadélfia enquanto Sanders dizia que Hillary devia ser a nova presidente dos Estados Unidos. Sanders citou o nome de Clinton 15 vezes em seu discurso e foi vaiado em todas as tentativas. Seus apoiadores mostravam sinais com o polegar para baixo, e apagavam os cartazes de Clinton que diziam “Mais fortes unidos” (Stronger Together).

Nem mesmo as mensagens de texto que Sanders enviou para disciplinar a fúria de seus apoiadores – ameaçando com a possibilidade do triunfo de Trump e suplicando para que “não se danifique a credibilidade de nosso movimento” – foi capaz de conter a frustração. Por momentos foi impedido de falar durante as vaias, que prosseguiram depois do encerramento do evento nas ruas da Filadélfia.

“Hell no, D.N.C.! We won’t vote for Hillary!” [Nem sonhando, CND! Nós não votaremos em Hillary!], cantavam os presentes dirigindo-se à elite da Convenção democrata. São expressão de amplos setores – do Black Lives Matter, dos trabalhadores e jovens que lutam pelo salário mínimo de US$15 a hora – que apoiavam a candidatura de Sanders durante as primárias não concordam em seguir a perspectiva deste de delegar apoio a Clinton, absolutamente vinculada à politics as usual da casta política corrupta e militarista norteamericana. O voto em Hillary é equiparado, pela ala esquerda dos seguidores de Sanders, a “depor as armas” e abandonar o combate contra Trump.

Nesse impasse, a estratégia socialdemocrata de Sanders, como não poderia deixar de ser, o colocou à direita das bases democratas que foram uma pressão à esquerda em sua candidatura, numa importante fissura que terá conseqüências na política internacional.

Estaria enfraquecida a capacidade de cooptação e desvio do partido Democrata?

Não é hipótese descartável em meio à crise mundial. Em editorial, o The New York Times atesta o novo momento político, enfatizando como a força que Sanders adquiriu – e as mudanças na plataforma eleitoral do partido Democrata, que se distanciam daquelas com que Bill Clinton foi eleito em 1992 – é um sinal de que a parte mais dinâmica do partido é sua ala esquerda. A grande dificuldade para Hillary – como havia apontado Edward Luce do Financial Times – é que ela não tem nada superior a oferecer que não o status quo em meio à maior crise econômica desde a década de 30. Com bases mais politizadas e o descontentamento generalizado na população, não contará com o apoio às políticas que Bill Clinton defendia na década de 90, que são próximas às suas.

De fato, o partido Democrata tem uma longa trajetória em cooptar e desativar movimentos políticos e sociais que surgem à sua esquerda, como aconteceu com o movimento contra a Guerra no Vietnã, ou o movimento pelos direitos civis dos negros, das mulheres e setores LGBT. Assim o evidenciaram os naufrágios como as candidaturas “antiguerra” dos anos 60 (Kennedy e McCarthy) ou do ativista negro Jesse Jackson nos anos 80. Nenhum destes foi nominado, cujas candidaturas “antisistêmicas” foram desativadas mediante manobras partidárias.

Sanders foi funcional, dentro do partido Democrata, à canalização do descontentamento contra a elite política e econômica. Entretanto, Sanders não calculou que esse repúdio anti-sistema já existia e aumentava mesmo antes de sua candidatura, e o fato de tê-la despertado não significa que poderá canalizá-la pacificamente para dentro das instituições imperialistas combinando um neoreformismo que não toca nas bases das mazelas criadas pelo capitalismo com uma “campanha do medo” contra Trump.

Uma fissura que pode trazer novos fenômenos à esquerda?

Uma série de pesquisas de opinião acerca do capitalismo e do socialismo qualifica o sentido da polarização social nos Estados Unidos. Segundo a consultoria YouGov, entre os menores de 30 anos, 43% tem uma visão favorável do socialismo, contra 32% a respeito do capitalismo. Outra agência ligada à direita conservadora observa com preocupação o “extremo grau de radicalismo” na juventude. Não apenas 58% respondeu que o socialismo é o sistema político que leva mais em consideração os problemas das pessoas (9% respondeu o comunismo), mas 66% acredita que as corporações “representam tudo o que há de errado nos Estados Unidos”. 35% dos jovens de 18 a 26 anos se sentem mais cidadãos do mundo que dos EUA, ou seja, negam o nacionalismo pregado por Trump.

Como resumiu bem o jornalista britânico Owen Jones, esta nova geração está “muito mais próxima da queda do Lehman Brothers que da queda do Muro de Berlim”. Há uma espécie de “fim de ciclo ideológico” aberto com a vitória de Ronald Reagan em 1980, já que o empobrecimento, as guerras impopulares e uma crise de magnitude histórica vieram liquidando o discurso triunfalista do capitalismo após a queda da União Soviética. Por outro lado, o efeito devastador que implicou a restauração conservadora e neoliberal no final do século XX, que buscaram apagar a revolução social do horizonte, tem um impacto sobre o que hoje se entende por “socialismo”, e que habilitou Sanders a destituir esta perspectiva de qualquer combate anticapitalista e da hipótese insurrecional, associando-a a um Estado de bem-estar que está em crise no mundo inteiro.

É natural que partidos políticos no mundo inteiro que apoiaram acriticamente a candidatura de Sanders como “um novo fôlego para a esquerda mundial” recolham suas canetas para dentro do tinteiro. Organizações como o MES (corrente de Luciana Genro dentro do PSOL) são especialistas em camuflar seu apoio a formações que rapidamente mostram sua bancarrota. Assim foi com o Syriza de Alexis Tsipras, apoiado fervorosamente pelo MES e cuidadosamente “esquecido” depois de operar uma capitulação express, rechaçando o NÃO recebido da população no referendo grego e pactuando um acordo de submissão neocolonial com a Alemanha. O entusiasmo da “primavera Sanders” corre o mesmo risco na mentalidade oportunista de correntes que fogem dos próprios balanços estratégicos.

Existem ainda ilusões em Sanders. Há aqueles dentre seus apoiadores que votarão por Trump, apesar de que a maioria dos seguidores de Sanders alegadamente se verá pressionada a votar em Hillary como “mal menor”. Entretanto, a continuidade e desenvolvimento dos movimentos e sua entrada no terreno político confirmam que o fenômeno atual supera o candidato. Da mesma forma poderíamos enxergar o processo de militância da juventude britânica para que Jeremy Corbyn conquistasse a direção do Partido Trabalhista como "renovação pela esquerda", e que se encontra em crise depois do Brexit abrindo debates para que a juventude supere um horizonte programático reformista. O caminho é tortuoso, mas trata-se de um dos grandes acontecimentos para a juventude mundial. Assim como o fenômeno Trump pode dar origem a uma ruptura histórica do partido Republicano, os setores mais à esquerda da juventude que se colocam nas ruas contra a violência policial, o Black Lives Matter, os movimentos defensores dos direitos trabalhistas podem dar origem a novas formações políticas independentes dos dois partidos dominantes, ancorados na classe trabalhadora e de combate ao capitalismo.




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