Gênero e sexualidade

HIPOCRISIA

Para a direita, mulher nua e sexualizada nas novelas pode, mas nu artístico é crime

Seria difícil achar um exemplo mais nítido da hipocrisia e atraso da direita, que não o recente escândalo envolvendo obra no MAM (Museu de Arte Moderna). Que ainda nos obriga a ver Alexandre Frota, produtor de filmes pornôs que incentiva todo tido de opressão e violências, falar pela moral. Enquanto reina um silencio amplo sobre a hiper sexualização e objetificação do corpo feminino que vemos todos os dias nus nas revistas, TV e internet. Ou seja, para a direita a mulher pelada e objeto, pode, já o nu artístico não.

sábado 30 de setembro| Edição do dia

Propaganda de cerveja comparando a quantidade da bebida com o seio da mulher, e ao lado o quadro "As ninfas e o Sátiro" de William-Adolphe Bouguereau (1825-1905) cortado, ironizando as pretensões de censura da direita.

O nu artístico vive na arte há milênios, desde de que o homem começa a se reconhecer como sujeito a busca por conhecer o próprio corpo, desenvolver os sentidos e expressar os sentimentos incorpora a nudez como forma normal de expressão. Conhecer o corpo humano e também a sexualidade deveria ser o desenvolvimento saudável e natural de todos os indivíduos, e a arte como expressão dos sentimentos humanos, vai obviamente passar por isso.

São amplamente conhecidas as esculturas Gregas de corpos masculinos completamente pelados, obras como essa contam a história da humanidade. Diversos artistas retratam sua época e seus sentimentos individuais se expandem como expressão coletiva de um momento determinado, recentemente outro museu paulista, o MASP expôs as obras de Toulouse-Lautrec um pintor francês, que retratou a vida das casas de prostituição de Paris do final do século XIX, retratando as mulheres nuas e seus momentos íntimos de carinho e da sexualidade lésbica, sem qualquer sexualização sendo parte de mostrar a vida e a opressão que essas mulheres viviam.


Duas Namoradas - Toulouse-Lautrec

Para o conceito da direita do MBL, Frota e outros, o Estado deveria então queimar ou esconder essas obras? Como inquisidor contra a liberdade de expressão e carregando todos os preconceitos morais racistas e opressores para determinar o que é arte ou não. O que pode ou não ser exposto, enquanto isso toda a população, crianças, jovens e adultos que na maioria das vezes são excluídos do acesso à arte e ao conhecimento, recebem uma descarga via TV, internet e revista com mulheres peladas, sexualizadas e objetificadas seja para vender cerveja ou em revistas pornôs expostas nas bancas de jornal.

Como consta em nota do MAM sobre a peça que gerou o escândalo da direita “O trabalho não tem conteúdo erótico ou erotizante e trata-se de uma leitura interpretativa da obra Bicho, de Lygia Clark, sobre a manipulação de objetos articuláveis. As acusações de inadequação são descabidas e guardam conexão com a cultura de ódio e intimidação à liberdade de expressão que rapidamente se espalha pelo país e nas redes sociais”. Não havia nada de pedofilia ou crime, a menina acompanhada da mãe interagiu com um corpo humano, no caso o homem se apresentava como um objeto articulável e curioso, quem viu crime nisso foi os olhos morais de mentes aí sim depravadas e opressoras de pessoas como Frota.

As mulheres e meninas diariamente expostas a todo tipo de propaganda machista que impõe um padrão estético ou que corroboram para a hiper sexualização da mulher, que criam um caldo social que permitem que as mulheres sejam abusadas sexualmente, que sofram todo tipo de assédio no transporte, rua, trabalho. Os filmes pornôs, que Frota produzia, educam os homens a uma sexualidade deturpada onde o prazer é associado a humilhação da mulher, e o prazer e o abuso se assemelham obrigando a mulher a se sujeitar a todo tipo de atitude violenta.

Esse nu exposto pela mídia, que obviamente não está no museu, mas sim apresentado pela Rede Globo, pelos filmes pornôs e revistas, por apresentadores como Silvio Santos que sexualizou a atriz de em torno de 15 anos, Maísa, não sofrem qualquer comentário da direita. Isso porque esses setores que defendem o capitalismo precisam defender e manter todas as formas de opressão e exploração decorrentes desse sistema. Enquanto a arte por muitas vezes ao sensibilizar e tocar o espectador o choca com as mazelas e as dores que a vida trás nesse sistema, podendo trazer sentimento novos e uma nova ideia de mundo.

A base do capitalismo é a exploração do trabalho, mas para a burguesia conseguir dominar precisa assimilar e perpetuar uma ideologia castradora, que impeça que as pessoas se rebelem contra suas condições de vida precárias. Precisam impor uma ideologia onde a mulher “do bem” seja casta, onde o prazer é pecado e a função social da mulher é da mãe e dos cuidados domésticos, por outro lado faz toda uma propaganda ideológica da mulher "objeto sexual" que violenta as mulheres e divide os trabalhadores entre os sexos.

Instituições como a mídia e as igrejas são pilares dessa dominação ideológica, assim criminalizam também a homossexualidade, buscam reprimir tudo que se afronte com a família heterossexual, e toda a força libertária da juventude com sua sexualidade e vida à flor da pele. Por fim, não é aconselhável para as classes dominantes que seus “dominados” conheçam sua história de luta, ou que se incentivem formas criticas e livres de pensamento, surgindo projetos como Escola sem Partido. Ou a recente aprovação de ensino religioso nas escolas enquanto se retira a matéria de sociologia.

Alexandre Frota, Bolsonaro e MBL são expressões mais atrasadas e caricatas do mais reacionário do capitalismo. Mas vejamos, quem aprovou ensino religioso confessional nas escolas, que vai permitir todo tipo de opressão a religiões africanas, foi justamente o STF brasileiro, o topo do judiciário nacional. Da mesma forma que toda a propaganda machista é propagada pelas principais redes de transmissão do pais, como Globo. Provando que o problema não estão só nos indivíduos de direita.


Hieronymus Bosch’s “The Garden of Earthly Delights”

A liberdade da arte é uma afronta e um combate à direita que quer lançar toda a população à ignorância, e por medo que os jovens, trabalhadores, mulheres, negros LGBTs e todos oprimidos saibam de sua história de luta. Censurar a arte e apagar a história dos livros, museus, teatros é a cara mais reacionária e covarde de uma burguesia em crise. A luta pela liberdade, pela emancipação da mulher e pela vida plena da humanidade é e deve ser um combate cotidiano a toda essa moral e aos ataques do capitalismo.




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