Opinião

COLUNISTA

Pandemia e luta de classes: a necessidade do pensamento estratégico para enfrentar o governo Bolsonaro

Kleiton Nogueira

Doutorando em Ciências Sociais (PPGCS-UFCG)

sexta-feira 10 de julho| Edição do dia

O Sars-Cov-2 que se dissemina pelo globo terrestre, marca o que poderíamos tratar de uma “tragédia anunciada” pelas mentes mais lúcidas que enxergam a realidade do ponto de vista dialético e total. O biólogo Rob WallaceF [1] em seus estudos acerca da relação entre o modo de produção capitalista e o “surgimento” de patógenos que afetam o organismo dos seres humanos reflete que tais micro-organismos estão diretamente vinculados aos centros de produção da cadeia internacional. Para o biólogo, 60% desses Patógenos têm como origem animais selvagens, embora sua vinculação com os seres humanos esteja atrelada ao modo como nos organizamos em sociedade. O avanço humano sobre “fronteiras” e ecossistemas naturais através da sanha capitalista pela recorrente acumulação e valorização do capital implica na desestabilização de ambientes, antes, “livres” da presença humana, ocasionando o que poderíamos denominar com a expressão “nós que procuramos o vírus” com bases nas reflexões do geógrafo escocês Neil Smith.

Nesse sentido, ao surgir, aparentemente no território Chinês, especificamente na cidade de Wuhan, província de Hubei, o Sars-Cov-2 não parte do céu como um agente externo à sociedade, pelo contrário, podemos o considerar como inerente ao modo de produção em que vivemos, e que a partir da China e de suas especificidades econômicas e sociais, implicou na disseminação através de cadeias globais de redes de transporte e comércio. Cabe salientar que a Covid-19 não foi a primeira “bola na rede” que a humanidade emplacou, em anos anteriores tivemos surtos de Ebola, Mers e Sars conforme reflete o escritor estadunidense Mike Davis. Aliás, muitos desses patógenos da família Coronavírus já eram conhecidos por cientistas, contudo, não era do interesse do capital investir em prevenção ou até mesmo em pesquisa científica uma vez que, o objetivo maior seria o lucro e não a prevenção e qualidade de vida humana. Portanto, longe de encararmos a pandemia como algo “externo” ou como demiurgo de uma crise econômica, a entendemos conforme Marx [2] nos lembra, como sendo fruto da relação entre homem e natureza a partir da própria materialidade da vida pelo processo de trabalho e desenvolvimento de técnicas e de um “planejar” sobre o resultado da própria atividade humana.

No cenário nacional a pandemia toma proporções catastróficas e genocidas, de acordo com os dados disponibilizados pelo Ministério da Saúde[3], que apesar de serem subnotificados, é nítido que estamos longe de resolver essa problemática em nosso território, pelo contrário, passamos das 65 mil mortes ocasionadas pelo Sars-Cov-2. Dentro de parâmetros objetivos, os dados implicam que nossa curva ainda irá demorar para alcançar o processo de “descida” mesmo que apresente algum nível de saturação em grandes centros urbanos do país. Tudo isso, é acompanhado pelas políticas de flexibilização de prefeituras e Estados, além do próprio governo federal que desde o início não escondeu essa tendência de agir como se nada estivesse acontecendo, sacrificando a vida da classe trabalhadora.

Diante desse contexto, e mesmo perante todo o negacionismo e exposição sem os cuidados específicos, assistimos no dia 7 de Julho o presidente Jair Bolsonaro testar positivo para Covid-19. Logo em seguida a essa notícia, as redes sociais se encheram de “comemorações” legítimas com os famosos memes em torcida pelo “vírus”. Aqui, cabe uma observação importante, diante do que representa Bolsonaro, a sua política e a forma como vem empreendendo ataques a classe trabalhadora, não estamos criticando em si as manifestações que, ao meu ver são legítimas diante das atrocidades que seu governo vem aplicando sobre as trabalhadoras e trabalhadores, o que pontuo nesse caso específico, está associado a perspectiva tática e estratégica. É preciso que se entenda que as massas estão sendo castigadas por esse governo de uma forma a aprofundar o déficit na qualidade de vida, por isso, é totalmente compreensível manifestações desse tipo. Nesse sentido, para além de uma questão moral, o que abordamos são elementos concretos e objetivos inerentes a uma suposta morte de Bolsonaro pela Covid-19.

Como primeiro ponto, chamamos atenção que essa torcida pelo vírus figura mais como um personalismo. Ao aplicarmos um pouco da “análise concreta da situação concreta”, podemos constatar que uma possível morte de Bolsonaro colocaria em seu lugar, a preço de hoje, o então vice-presidente Mourão. Ademais é preciso que reconheçamos que a luta não é contra uma “figura”, mas sim contra todo um regime de exploração e opressão de classe representado pelo governo e pelas alas golpistas do congresso e do STF. Outro ponto que podemos destacar é: do ângulo tático e estratégico, em si o que implicaria a vitória do “vírus” para a classe trabalhadora? Será que os ataques cessariam? Os parcos direitos seriam reconstituídos? Da mesma forma que pedir um “impeachment” sem ter como horizonte alguma tática, implica apenas em um esquerdismo pueril e infantil, que nos coloca na bancarrota da conjuntura. Ou seja, a classe trabalhadora não pode depender da torcida por um “vírus”, por um patógeno, é preciso ação, organização, tática e estratégia do ponto de vista das relações de poder que existe entre Estado e classe. Sem essa visão, seríamos como dentes de leão pairando sobre o ar, jogando nosso futuro a qualquer vento ou intempérie da natureza e da política.

É bastante sintomático que hoje se discuta no Brasil uma “frente ampla”, que aglutina setores golpistas da política como o próprio Rodrigo Maia e caciques políticos a exemplo de Fernando Henrique Cardoso e até mesmo figuras como Luciano Huck na tentativa de realocar o centro de gravidade da política brasileira para setores fisiológicos. Outro sintoma mórbido seria a própria inércia das Centrais Sindicais, especificamente das burocracias que estão a frente da CUT e CTB que frente ao circo de horrores protagonizados pela base bolsonarista, e na própria mobilização dos entregadores via aplicativo no último 1º de Julho que aliás, demonstra a força da classe trabalhadora em nosso país, ficaram inertes diante da realidade, agindo como verdadeiros coveiros das motivações das massas.

Diante desse quadro, é preciso o reconhecimento de elementos objetivos e concretos, por isso refletimos sobre a necessidade de uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana com a participação da classe trabalhadora colocando suas demandas reais para que possamos de fato, superar os setores golpistas e o próprio governo bolsonaro mediante propostas transicionais que evidenciam a contradição existente no modo de produção capitalista a partir do movimento real e concreto das relações sociais de produção. Mas, tal ação só será possível quando reconhecermos que uma “frente ampla” nos colocará apenas em outra antessala de mais ataques e aprofundamento das condições deletérias da vida da classe trabalhadora. É preciso que setores e partidos como o PSOL reconheçam que essa tática em conjunto com setores golpistas e burocráticos da política brasileira implica em não ter independência de classe, e acima de tudo, conforma interesses que possuem como centralidade a manutenção de um sistema político podre.

Nesse sentido, como antítese a esses elementos, é urgente pensarmos numa Frente Única Operária, formada pela classe trabalhadora brasileira com independência de classe que nos forneça uma posição independente dos setores golpistas e da direita tradicional brasileira. Nesse mesmo panorama, é preciso ir além da tática petista de fazer Bolsonaro “sangrar” para um pleito eleitoral em 2022, porque no fundo, o verdadeiro sangue que estamos vendo correr são das mais de 65 mil vidas, de enterros sem velórios, de famílias desfeitas, da classe trabalhadora levando todo o peso da pandemia nas costas. Como exemplo dessa força, citamos o ato Internacional que iremos realizar no dia 11 de Julho contra o racismo estrutural, racismo policial, em apoio a luta da juventude, classe trabalhadora e dos oprimidos por um sistema que não tem nada a nos oferecer a não ser dor e sofrimento sentidas por aqueles que perdem entes queridos pela pandemia, e estão vivendo em condições precárias e sem perspectiva de futuro. Apenas com independência de classe e reconhecendo que a aliança com setores golpistas não trará nenhum benefício para a classe trabalhadora, conforme a própria história recente nos evidencia, é que poderemos dar um passo qualitativo na emancipação da classe trabalhadora. Antes de tudo, somos maioria, a pandemia mostrou que sem nossa força de trabalho os capitalistas sucumbem, que são eles que dependem do nosso trabalho, sendo o contrário, não verdadeiro.

REFERÊNCIAS

[1] WALLACE, et al. COVID-19 e os circuitos do capital. In: PARIS, Danilo (org.). Coronavírus e marxismo. São Paulo: Edições Iskra, 2020.

[2] MARX, Karl. O processo de produção do capital. Trad. Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, [1867] 2013.

[3] https://covid.saude.gov.br/. Acesso em: 07 Jul. 2020.




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