Cultura

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Palmares e a política da Casa Grande

Nas gigantescas fazendas eletrônicas brasileiras de 2019, os senhores de escravos administram a economia e a cultura do povo. As largas propriedades, cujas extensões fazem perder de vista as plantações, são cercadas com arame calibre 38 e decoradas com bandeirinhas do Brasil e dos EUA.

Afonso Machado

Campinas

quarta-feira 4 de dezembro| Edição do dia

Nas gigantescas fazendas eletrônicas brasileiras de 2019, os senhores de escravos administram a economia e a cultura do povo. As largas propriedades, cujas extensões fazem perder de vista as plantações, são cercadas com arame calibre 38 e decoradas com bandeirinhas do Brasil e dos EUA.

Negócios milionários são fechados nas sombras das árvores, enquanto cães raivosos atacam impiedosamente os famintos que mendigam pelos pastos. As árvores dão celulares, liquidificadores, televisões e até pneus. Os assalariados correm alucinadamente pelas plantações de produtos eletrônicos. Uma criança de colo observa urubus que voam de modo letárgico pelo céu.

Á frente da criança, que tem agora os olhinhos tampados pela protetora mão da mãe, o cadáver de um sindicalista repousa na beira da estrada.
Senhor Tavares, proprietário de terras e bancos, passa as ordens do dia para seu feitor de confiança.
- Magalhães!
- Sim, meu senhô
- Marcou a carne dos escravos com o ferro do CNPJ?
- Ainda farta arguns, tão espaiados pelas terra.
- No começo da noite, eu quero que você verifique se todos estão lendo a Bíblia na senzala. Não permita que tenha dança e debate. Se alguém reclamar ou começar a lenga lenga em torno dos direitos trabalhistas, deixe preparado o “ cepo “ . Ponha o pedaço de madeira na cabeça do escravo e passe a corrente no tornozelo dele. Deixe preparada também a máscara metálica com furinhos, a gargalheira e o Libambo.
- Libambo?
- Eita Magalhães mula véia! Libambo: aquele anel de ferro que rodeia o pescoço. Se você sentir um clima de agitação entre os escravos, deixe no jeito o chicote Bacalhau. Depois de surrar o escravo não se esqueça de atirar sal nas feridas.
- Sim senhô
- Bom, muito bom! É preciso ser patriota Magalhães!

No meio de uma plantação da fazenda do senhor Tavares, Joana encontra-se exausta. A escrava está com o corpo mastigado pela boca quente do sol. Joana olha para um buraco que ela acabou de cavar com uma enxada online, e nota folhas de papeis dentro dele. Na realidade era um rolo em forma de canudo, preso a um elástico. Ela pega o rolo que contem várias páginas e o esconde dentro da roupa.

O relógio da fazenda marca 19 h e todos os escravos estão voltando para a senzala. Joana não se aguenta de curiosidade para ver o que está escrito naqueles papeis que ela arrancou do fundo da terra.

Enquanto os outros escravos ouvem atentamente as leituras bíblicas, Joana vai até o fundo da senzala, senta-se e abre o rolo que apresenta misteriosos escritos. Ela é uma leitora voraz, possui muita curiosidade sobre histórias escondidas. Seus olhos passam ansiosamente pelo texto.

É uma narrativa histórica que discorre sobre o Quilombo de Palmares. O autor que assina a pequena obra publicada em 1956, é o poeta revolucionário francês Benjamin Péret. Joana começa a ler em segredo as palavras do texto iluminadas por uma vela acesa da senzala:

“ De todos os sentimentos que fervilham no coração do homem, o anseio de liberdade é, certamente, um dos mais imperiosos e a sua satisfação é uma das condições essenciais da sua existência. Por isso, quando um homem se vê privado dela, não tem sossego enquanto não a reconquista , de modo que a história poderia limitar-se ao estudo dos atentados contra a liberdade e dos esforços dos oprimidos para sacudir o jugo que lhes foi imposto(...). Os negros do quilombo de Palmares não aspiravam senão a essa liberdade elementar sem a qual a existência humana já não tem sentido. Eles não compreenderam, nem podiam compreender que somente conseguiriam atingi-la ultrapassando-a. Era preciso que eles a exigissem , não só para a sociedade que haviam edificado , mas também para todos os que, no Brasil, sofriam a sorte a que eles haviam querido escapar criando o quilombo. Era impossível a esses negros , havia pouco arrancados á sua floresta natal, elevar-se a essa concepção do sacrifício necessário para o triunfo da causa que defendiam. E, entretanto, o sacrifício se consumou apesar deles e, tal qual, permanece exemplar. Parece aliás que, do esforço de emancipação dos homens, subsistem antes de tudo os holocaustos oferecidos a essa libertação , nos quais estão figuradas as aspirações de uma época inteira. “(...). ( Benjamin Péret)

Joana está completamente arrebatada pelo texto de Péret: a leitora que não aceita a escravidão, passa os olhos por cada linha da obra. Ela já tinha lido sobre Palmares, já tinha ouvido falar na coragem de Zumbi. Diante da sua condição de mulher oprimida do século XXI , aquela rebelião negra do século XVII torna-se para ela, naquelas circunstâncias, uma imagem incandescente. Ela passa a noite inteira acordada no silêncio da senzala, pensando sobre as lutas por liberdade em todas as épocas da história. Uma profunda coragem toma o seu corpo.

Ela pensa que Zumbi ainda caminha pelas matas e torce por aqueles que, como ele, não temem a morte, não temem em ter a cabeça arrancada porque ideias não podem ser degoladas.

Amanhece. Ao sair para o trabalho Joana olha fixamente para a Casa Grande, aonde o senhor Tavares mora com sua família.

A escrava fala para si mesma com um megafone dentro da sua mente:
- Não existe unidade nesta terra. Não existe pátria amada aonde existe a divisão entre opressores e oprimidos. A Casa Grande e a senzala são opostas. Zumbi não poderia pisar na Casa Grande. Zumbi não aceita a senzala. A minha cultura não é a do senhor Tavares. Preciso de palavras de ordem soltas nas matas.

Observação: esta é uma pequena obra de ficção. Apesar do seu pano de fundo ser inevitavelmente histórico, lugares e personagens (com exceção de Zumbi de Palmares e Benjamin Péret) foram inventados.




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