Política

CARNE FRACA, ECONOMIA IDEM

Países suspendem compras de carne. O papelão, os empregos e Temer

Leandro Lanfredi

Rio de Janeiro | @leandrolanfrdi

segunda-feira 20 de março| Edição do dia

O escândalo de adulteração de carne e venda de carne estragada - regada a propinas - que tinham como alvo membros do governo Temer, promete abrir novo flanco de dificuldades para o governo golpista. As exportações de commodities agrícolas e minerais tem sido um dos poucos motores funcionando na economia nacional. Enquanto os aumentos de juros pelo banco central americano, a FED, ainda não redundaram na provável queda do preço das commodities o país tinha uma "janela de oportunidades" para ganhar gordura com suas exportações. Eis que, com uma boa dose de papelão e produtos químicos isso pode estar se estragando.

A China, Córeia do Sul e a União Europeia, três dos maiores mercados compradores de produtos brasileiros já adotaram medidas contra as exportações brasileiras. A União Europeia recomendou a todos países que adotem uma "estrita vigilância" em relação as empresas brasileiras envolvidas (as gigantes BRF Foods e JBS principalmente). A Coreia do Sul suspendeu qualquer importação da BRF Foods e a China suspendeu por uma semana qualquer compra brasileira, de qualquer empresa.

Essas medidas afetarão a economia brasileira por três caminhos: colocando em dificuldades essas "global players" que vinham dominando o mercado mundial, e graças a suas fraudes e uma "mãozinha" do judiciário paranaense podem começar a encontrar concorrência imperialista. As dificuldades nas exportações seguramente serão utilizadas por essas empresas, conhecidas pelas práticas antissindicais e pela exploração dos trabalhadores, a descarregarem a crise de suas fraudes nos trabalhadores, gerando demissões em um país que já vem batendo recordes desemprego. Em terceiro lugar a diminuição das exportações também pode afetar a balança comercial brasileira.

Essas três fontes de impacto tem dimensões distintas, mas todos eles acrescentam sabores podres para Temer.

O risco de empresas falirem e seu impacto (em cadeia) na economia, ainda não pode ser mensurado e nenhum analista tem previsto no curto prazo que as gigantes JBS, BRF Foods, Marfrig, entrariam em dificuldades desta monta, mas essa ideia não deixa de rondar no horizonte com tamanhas fraudes contra os consumidores. Um risco como esse, ainda "fora do radar", estragaria e muito um importante flanco da economia nacional.

O impacto mais imediato na economia está nas exportações, mas ao mesmo tempo é o menor dos impactos. A exportação de carne bovina é uma das principais pautas do país, segue de longe à soja, o ferro e petróleo mas não deixa de ter uma relevância na imagem do país, podendo levar a complicações na exportação de frangos e suínos que são tão ou mais importantes que as exportações bovinas. Segundo dados da Associação Brasileira de Empresas Exportadoras de Carne (ABIEC), o país exportou 1,4milhão de toneladas bovinas, totalizando um valor de US$ 5,5 bilhões. Desse montante 718 milhões de dólares foram pagos por Hong Kong, 706 milhões pela China e outros 641 milhões de dólares da União Europeia. Ou seja, somente as medidas já anunciadas por esses países e blocos econômicos já colocam em risco quase 40% do valor exportado pelo Brasil no último ano.

Os valores em si são baixos comparados a outras pautas de exportações do país não gerando grande impacto no caixa do país e no câmbio mesmo se fossem zeradas as exportações, porém o maior risco para Temer está em outro lugar que não na balança comercial: emprego.

Lidar com os impactos de outros países sustarem a compra brasileira enquanto aqui os trabalhadores tem que comer carne estragada abrindo novo flanco de questionamentos a seu governo, e ao mesmo tempo um possível aumento do desemprego nessa cadeia produtiva que emprega muitos trabalhadores. Segundo estimativas do Ministério Público do Trabalho, passam de 500mil os empregados no setor de frigoríficos no país (abrangendo todas as carnes). Qualquer demissão em massa, de mil, dois trabalhadores, em um escândalo de fraude e corrupção não parece algo muito tragável para um governo sem apoio popular e que deseja que os trabalhadores engulam não somente carne podre, como uma reforma da previdência que nos fará trabalhar até morrer.




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