Internacional

OPINIÃO

Pablo Iglesias, os empresários e os limites da sedução.

Mais um ano em que o Círculo de Economia se reuniu em Sitges. Mas neste ano, sua XXXII edição, a “novidade” foi a participação de Pablo Iglesias, que levou sua mensagem à nata do empresariado espanhol. Esta poderia resumir-se mais ou manos assim: “calma, senhores empresários, há uma nova socialdemocracia”.

sábado 4 de junho de 2016| Edição do dia

“É uma honra ter a palavra nostas jornadas do Cercle d’Economia”. Com estas palavras Pablo Iglesias iniciava seu discurso diante de 400 diretores e empresários.

A imagem poderia confundir a alguns desprevenidos que se recordam do Pablo Iglesias de pouco mais de um ano atrás levantando a voz contra “a casta”. Mas não se deixem enganar, porque o objetivo de sempre do líder do Podemos tem sido deixar nítido quem são os verdadeiros chefes da “casta” – da qual já não fala, por sinal -, com quem se reuniu em Sitges na semana passada.

Se não deixa claro com quem se reuniu o líder do Podemos, chegamos a uma breve revisão. O “Cercle d’Economia” é um lobby empresarial e político criado em Madrid, em 1977, no qual estão representadas as pricipais empresas do Estado espanhol. Seu objetivo não é outro senão exercer pressão sobre os distintos governos para a aplicação de medidas da patronal.

Seu ano de fundação é significativo. Em fins dos anos 70, anos de luta da classe trabalhadora e da juventude contra o regime franquista em retirada e, neste mesmo ano, 1977, contra a traição histórica dos pactos da Moncloa.

O atual presidente é Javier Vega de Seoane Azpilicueta (presidente da DKV Seguros), mas em sua parte maior há personagens como seu presidente de honra, Claudio Boada Pallarés (Senior Advisor da Blackstone e HSBC), Mónica de Oriol e Icaza (presidenta da Seguriber-Umano), Josep Piqué i Camps (vicepresidente da Obrascón Huarte Laín) ou Matías Rodríguez Inciarte (vicepresidente do grupo Santander).

Com o pedigri dos integrantes do Cículo, obviamente a visita de Iglesias foi completamente um ato midiático. Seu discurso na reunião daria para, não um, mas vários artigos de polêmica. Mas aqui abordaremos somente uma questão: qual foi o objetivo política de Iglesias com sua participação nas jornadas?

O discurso de Iglesias foi longo, mas há uma frase que resume sua mensagem aos grandes empresários: “Para que a Espanha funcione todos precisam ir bem, os empresários também”. E resume porque revela seu objetivo político, que não era outro senão “tranquilizar” o mundo empresarial frente a possibilidade de sua chegada à Moncloa.

Diante da crise pela qual atravessa a “velha” socialdemocracia, hoje tornada social liberal, Podemos insiste em apresentar-se como a “nova” socialdemocracia. A ideia não é nova muito menos, Iglesias vem repetindo-a faz tempo. Mas tem uma carga simbólica maior quando dita frente ao Círculo de Economia. Porque para a patronal, ser um bom socialdemocrata significa ter a capacidade de freiar a luta de classes, evitar distúrbios e atuar como um médico de cabeceira do capital. Um posto para o qual Iglesias se oferece com gosto.

E para demonstrar que de sua parte não é puro discurso, Iglesias não vacilou em usar como exemplo suas pequenas provas no poder no último ano: “já governamos nas principais cidades do país”, disse com orgulho, para adicionar que “temos reduzido a dívida e aumentado o gasto público. Onde governamos temos conseguido melhorar o ranking de cidades atrativas para investimentos.

É preciso reconhecer que a capacidade de síntese de Iglesias, algo mais que necessário diante de empresários acostumados a ir ao ponto sem muitas voltas. Em uma frase resumiu sua política econômica: pagar religiosamente a dívida e garantir condições para o investimento capitalista.

Mas os capitalistas, ao menos os exitosos (e a reunião estava cheia deles), parecem ser incrédulos e conservadores ante as novidades. Assim, Iglesias precisou esforçar-se um pouco mais para vender seu discurso.

“É possível desenvolver políticas como as que nós propusemos no marco da Eurozona?”, perguntou-se com uma retórica óbvia, “por suposto sim. Nós somos enormemente pragmáticos e conhecemos os limites e temos plena consciência das pressões a que pode ser submetido um governo, precisamente porque vimos como eram pressionados os governos do nosso país. E apredemos algo: governar é eleger opções diferentes incluindo a hora de cortar.”

Assim, Pablo Iglesias explicou que suas lições da crise grega não diferem muito das de seus interlocutores: nada de enfrentar-se com a Troika e pagar a dívida como disse, embora se tente “renegociar com Bruxelas o ritmo de redução do déficit para mudar ao final da legislação o cumprimento do objetivo de 3%. Algo que qualquer burguês sensato também tentaria negociar.

Exalando uma boa dose de “realpolitik” frente aos donos do país, Iglesias desprendeu toda sua capacidade sedutora. O problema é que pragmatismo, sedução e pouca reverência, não foi suficiente para convercer alguns senhores que exploram milhões de trabalhadores e dirigem o Estado (seu Estado) com punho de ferro por décadas.

Sem dúvidas a ideia de uma socialdemocracia renovada, que possa controlar o chão de fábrica e evitar qualquer desordem, pode ser atrativa se a coisa piorar nos próximos anos.

Mas para isso, falta algo que Iglesias não tem: o enclave social (seu peso orgânico nos sindicatos e na classe trabalhadora) que tinham os bons velhos socialdemocratas (e não nos esqueçamos, também os velhos bons comunistas – ou eurocomunistas no caso), que lhes permitiram mostrar força quando necessário para estabelecer relações de força, e sobretudo, capacidade para controlar o movimento operário para levá-lo atrás da burguesia... quando também foi necessário (e outra vez nos vem à mente o ano de 1977).

Como dizíamos em outro artigo, a cúpula do Podemos sobrestimou ao infinito as capacidades performativas de seu discurso – cada vez mais moderado –, negando o plano de mobilização e a luta de classes como terreno de disputa política. Isto, que pode ser útil para atrair votos do espaço de representação socialista, não o é para exercer o poder (nem muito menos para convencer a alta burguesia de que pode gerenciar seus negócios com eficácia).

Esta “debilidade de origem” do novo reformismo, é o que o torna inofensivo para a classe capitalista, mas enormemente nocivo para a classe trabalhadora e os setores populares, contribuindo para sua “passivização” e alimentando a “ilusão gradualista” de que se pode transformar a sociedade sem atacar os interesses e enfrentar a resistência de quem a dominam: senhores como os do Círculo de Economia.




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