Política

PT reflui diante da “nova direita” empresarial e velhos caciques: qual alternativa à esquerda?

André Augusto

São Paulo| @AcierAndy

terça-feira 4 de outubro| Edição do dia

Os dados preliminares do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que 31 partidos vão comandar ao menos uma cidade a partir do ano que vem. É a maior dispersão partidária no comando dos Executivos municipais da história, ao menos na quantidade de siglas diferentes no controle das prefeituras. Em 2012, eram 26.

Como dizíamos no Esquerda Diário, os 35 partidos com registro no Tribunal Superior Eleitoral concorrem com candidato próprio nas 26 capitais – e 16 diferentes siglas lideravam a corrida até a votação de domingo. Há quatro anos, 29 partidos lançaram candidatos e 11 elegeram prefeitos de capitais.

A série histórica do TSE mostra que houve um crescimento quase constante no número de siglas dividindo a gestão dos municípios brasileiros desde 1996, primeiro ano em que há dados em formato eletrônico. Naquele ano, 22 partidos conseguiram eleger ao menos um candidato a prefeito. O número subiu para 25 nas eleições municipais seguintes e, apesar de ter registrado leve queda em 2004 e 2008, cresceu para 26 em 2012 e, agora, para 31.

Outras medidas de dispersão também apontam para um aumento da fragmentação partidária no controle das administrações municipais. Uma delas é o índice de Gini - medida usada internacionalmente para medir desigualdade de renda, mas que pode ser utilizada para calcular a concentração de qualquer variável.

O jornal O Estado de S. Paulo calculou esse índice para todas as eleições municipais, usando como referência o número de prefeituras que cada partido conquistou em cada pleito. De acordo com esse cálculo, a eleição de 2016 foi a mais dispersa da história, com índice de 0,68 - ele seria zero se cada partido ganhasse um número igual de prefeituras e 1 se apenas um partido ganhasse todas, o que significaria concentração total. Em 1996, esse índice foi de 0,81.

Grande parte dessa variação não se deve aos partidos que estão no topo do ranking dos que elegeram mais candidatos, mas sim aos da parte de baixo. Em outras palavras: o aumento da dispersão partidária se deu especialmente porque mais partidos pequenos venceram as eleições municipais, e não porque houve uma queda na proporção de cidades governadas pelos maiores.

Dança dos partidos mostra crescimento superestrutural da direita...

Nacionalmente, o PMDB continua o partido que mais elegeu prefeitos neste ano, ainda que crescesse minimamente (1,2%). O PSDB e o PSD foram os maiores beneficiados da direita tradicional, e o PT encolheu no primeiro turno das eleições municipais de 2016 - perdeu mais da metade das prefeituras em quatro anos.

Desgastado pela Operação Lava Jato, pela corrupção assimilada dos capitalistas e os duros ataques contra os trabalhadores, o PT elegeu apenas um prefeito em capital: Marcus Alexandre, em Rio Branco. Em 2012, foram quatro. O partido só vai disputar uma prefeitura em capitais no segundo turno.

Com 644 prefeituras conquistadas em 2012, agora apenas 256 petistas foram eleitos, além dos sete que disputarão o segundo turno. Mesmo no melhor cenário, com todos eles vencendo, a queda em relação a 2012 será de 59%, a maior de todas as legendas. Foi derrotado inclusive nas urnas das principais cidades do ABCD paulista, como São Bernardo do Campo, reduto do PT e de Lula, indo débil para o segundo turno de Santo André e Mauá.

O PSDB vem aproveitando a desmoralização nacional causada pelo golpe institucional e a crise do PT: foi o que mais cresceu em prefeituras conquistadas e vereadores na Câmara. Passou de 686 em 2012 para 793 prefeituras este ano (considerando os 19 candidatos disputando segundo turno, o tucanato pode chegar a 812 administrações, o que significaria crescimento de 16%).

A pulverização também beneficiou siglas como PHS (de 16 prefeituras, avançou para 36) e PTN (de 12 prefeituras, avançou para 30), que elegeram mais prefeitos e ganharam mais votos. O PSD também se aproveitou do vácuo gerado pelo declínio petista, passando de 495 prefeituras em 2012 para 539.

Mas não há só flores para a direita: tanto o DEM quanto o PPS - principais aliados do PSDB - perderam prefeituras e postos na Câmara, o que indica certa reorganização da direita (um golpe às pretensões de fortalecimento de Rodrigo Maia, DEM, presidente da Câmara dos Deputados).

No arco dos partidos da ordem oriundos da "centro-esquerda", quem capitalizou com menor expressão que a direita a sangria petista foram o PCdoB (passando de 51 a 80 prefeituras) e o PDT (de 304 a 334 prefeituras).

Se consideradas apenas as maiores cidades com país, com mais de 200 mil habitantes, o PSDB lidera com 14 prefeitos eleitos, contra 7 do PMDB e 3 do DEM. PP, PSD e PPS somaram dois cada. O PT, que elegeu apenas um prefeito em cidades grandes, havia eleito nove em 2012.

...mas com grandes contradições

Nem Gilmar Mendes (o "dono do poder" no TSE) nem os editoriais burgueses conseguiram abafar o estupor: mais de 25 milhões de eleitores (17,58%) não compareceram às urnas para votar no primeiro turno das eleições municipais em todo o país. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o número de faltosos totalizou 25.330.431.

Apesar da tentativa de minimizar os efeitos, o judiciário e a imprensa golpistas não tiveram sucesso: Rio de Janeiro e São Paulo são, respectivamente, os estados que mais apresentaram abstenção (21,54% e 20,73%).

Somando as abstenções com os votos brancos e nulos, conta-se 34,8% em São Paulo e impressionantes 42,5% no Rio de Janeiro. Em cada capital, estas somas foram maiores que os votos conquistados por João Dória em SP e por Marcelo Crivella no RJ.

A maior taxa de votos nulos mostra uma posição de repúdio consciente aos partidos tradicionais e junto com o fortalecimento da direita, determinam o caráter dos resultados eleitorais até agora. Isso fez com que o golpista Michel Temer soasse o alarme da preocupação de que se trata de “voto repúdio” ao sistema político.

Milionários adiante

Outra característica marcante: estas eleições, de forma mais aberta que nunca, favoreceram os políticos milionários. Ao contrário do que afirma o todo-poderoso golpista Gilmar Mendes, houve muito financiamento privado.
Mais da metade das maiores cidades brasileiras que definiram o vencedor no 1º turno serão governadas por prefeitos milionários.

Dos 37 prefeitos já eleitos para cidades com mais de 200 mil eleitores, 23 declararam ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) patrimônio de R$ 1 milhão ou mais — o Brasil tem 92 cidades com população nessa casa.

Se todos os milionários na disputa se elegerem, o Brasil terá 59 - ou seja, mais da metade - de suas grandes cidades governadas por donos de contas bancárias com valores superiores a seis zeros.

Esta será uma grande aposta da direita para “renovar-se”: apresentar candidatos empresariais e “gestores”, levantando a bandeira da antipolítica e arrecadando os votos mais conservadores do amplo espectro de descontentes com o regime político tradicional. Assim fez a “nova direita” argentina, postulando o empresário Mauricio Macri para derrotar o candidato do kirchnerismo, Daniel Scioli, nas eleições presidenciais, e se tornar a ponta de lança da “nova direita” latinoamericana. Nos Estados Unidos, o multimilionário Donald Trump se tornou o novo rosto do racismo e da xenofobia da direita “dura”, vestido com a roupagem do “bom administrador” (Dória, inclusive, já demonstrou sua admiração por Trump).

O regime eleitoral não afeta as campanhas destes candidatos patronais. Os empresários ajustadores estão montando sua própria bancada de ataques, com nomes saídos da proveta dos milionários. Enquanto isso, o TSE e o judiciário golpista aplicam uma dura censura à esquerda, vetando sua participação nos debates televisivos junto ao partido midiático, diminuindo o tempo de campanha para que não seja conhecida.

A expressão de Freixo no Rio

Marcelo Freixo do PSOL conseguiu um dos melhores resultados da esquerda no país, mesmo se alargarmos esta definição “de esquerda” para incluir aqueles partidos da ordem que abriram caminho à direita com seus ajustes como o PT e PCdoB.

Em uma eleição nacional marcada pelo crescente descrédito com aumento do não-voto e do voto nulo, fortalecimento da direita neoliberal e especialmente marcada pela decadência do PT, a ida ao segundo turno no Rio de Janeiro é muito marcante. Terão um impacto e relevância para toda a esquerda do país.

O processo de decadência petista no período do golpe institucional recebeu um contundente veredito com o resultado eleitoral: em número de prefeituras, o PT voltou praticamente 12 anos no tempo. Estamos longe da hegemonia petista através de Lula em 2008 (levando em consideração que o fenômeno do lulismo sempre foi maior que o próprio PT). Tirar todas as lições necessárias do fracasso da estratégia de conciliação de classes do PT, de sua prática de contenção da luta de classes e freio à organização do movimento operário, é condição sem a qual se torna impossível levantar uma verdadeira alternativa política independente dos trabalhadores para enfrentar o avanço da direita golpista.

O anúncio de Freixo de que estaria "aberto a conversar" com Osório do PSDB carioca, ou Índio da Costa (PSB), para conseguir apoio ao segundo turno no Rio, ainda mais do que a ambiguidade no pacto com a Rede e o PCdoB, não abrem caminho a uma política de independência de classe.

A única forma de combater a direita é avançar uma política independente dos trabalhadores e de choque direto contra o capitalismo. As candidaturas do MRT, com a modesta mas importante expressão que teve na vanguarda da esquerda, foram as únicas candidaturas com perfil anticapitalistas dentro da esquerda. Apesar das eleições demonstrarem “desequilíbrio” entre o espaço aberto à direita e à esquerda, o terreno à esquerda existe para quem souber aproveitá-lo. Para nós, isto passa por deixar de lado qualquer utopia de reforma ou “humanização” do sistema capitalista, ou ilusões neoreformistas de “municipalidade cidadã” nos marcos da propriedade privada – como pregam o Syriza na Grécia e o Podemos no Estado espanhol, que mostraram sua bancarrota – e a adoção de uma estratégia de classe de enfrentamento com a burguesia e seu podre regime político, em direção a um verdadeiro governo dos trabalhadores de ruptura com o capitalismo.




Tópicos relacionados

Eleições 2016   /    Governo Temer   /    Política

Comentários

Comentar