Opinião

PT E LULA

PT insinua nova ’Carta ao Povo’ para acalmar os mercados e flertar com a reforma da previdência

Em entrevista ao jornal Bloomberg, a presidenta do PT, Gleisi Hoffmann, fez declarações que reforçam os recentes discursos do PT e do próprio Lula, sinalizando uma política de diálogo amistoso com os empresários, tais como vinha tendo com os golpistas e suas reformas.

Ítalo Gimenes

Campinas

sexta-feira 19 de janeiro| Edição do dia

O emblema dessa política viria possivelmente no aniversário de 37 anos do partido, na forma de uma nova "Carta ao Povo Brasileiro". Acesse a entrevista aqui.

A mesma estratégia usada nas eleições de 2002, com uma Carta em que o presidente tratou de neutralizar a sua imagem de "radical", e de que sua gestão não só não seria ameaça aos empresários, como buscaria atender os interesses do mercado financeiro. Para esse objetivo, "dialogando com todos os segmentos da sociedade", o ex-presidente provou-se capaz de fazer alianças com o mais podre da política brasileira, com Cunhas, Collors, Sarneys e Renans, e não falar de Henrique Meirelles, o mesmo lacaio do mercado financeiro que hoje dirige ao lado de Temer as desprezíveis reformas trabalhista e da previdência.

Chama a atenção pelo cinismo a reciclagem de um mesmo discurso político amigável aos empresários e à direita, que resultou no fortalecimento destes mesmos segmentos e pavimentou o caminho do golpe institucional. A proposta de uma nova "Carta" é a continuidade da política lulista desde o imediato pré-golpe: não opor nenhuma resistência à ofensiva da direita que o próprio PT alimentou; aceitar o golpe e conter todo tipo de mobilização independente, servindo-se da burocracia sindical da CUT e da CTB para frear a construção de uma alternativa política dos trabalhadores à esquerda do PT; exagerar, falsificando, uma espécie de "onda conservadora" para canalizar a raiva da população contra os golpistas na saída eleitoral "Lula 2018", bloqueando a luta de classes, a única que poderia frear as investidas do autoritarismo judiciário e do governo golpista; trair as jornadas de greve geral contra as reformas trabalhista e da previdência, junto às centrais ligadas ao Planalto; perdoar os golpistas e realizar uma caravana pelo Nordeste e Minas Gerais para reensaiar a estratégia de conciliação de classes com "todos os segmentos" de oligarcas e capitalistas.

Nessa entrevista, porém, chamou atenção o fato de Gleisi fazer questão de demarcar qual a opinião de Lula e do PT sobre a Reforma da Previdência. Gleisi diz que "Lula pode ser tudo, menos radical. Se eleito, Lula convocará imediatamente uma assembleia constituinte para, entre outros temas, fazer uma reforma política. A reforma da Previdência seria focada no setor público".

Ou seja, o PT e Lula defendem outra reforma da previdência, focada no setor público, querendo repetir também o que fez em 2005 (ainda que em uma conjuntura econômica muito mais dura). Não se preservou sequer a ambiguidade do próprio Lula, ao dizer que faria um plebiscito para que a população decidisse sobre as reformas. Mesmo as mídias vinculadas à esfera petista não engoliram bem o dardo. Quer se queira, quer não, uma prova de qual papel a conciliação petista quer cumprir, de garantir os interesses dos empresários e a sobrevivência do capitalismo.

Não atoa essa pacificação do país da qual tem falado tanto Lula, que hoje tem servido à Temer aprovar a Reforma Trabalhista e agora a Reforma da Previdência. As centrais sindicais petistas, CUT e CTB, cumprem um papel decisivo nessa traição que desde a greve geral do dia 30 de junho foi rendendo os trabalhadores à Reforma Trabalhista. Enquanto Temer está a todo vapor para organizar a mídia burguesa (até mesmo o Google) para fazer propaganda enganosa da reforma da previdência, e "convencer" os deputados a votarem neste ataque logo após o carnaval com muito dinheiro público para suas campanhas de 2018, essas centrais parecem estar preocupadas apenas com o ato em frente ao julgamento do seu candidato.

Julgamento este que hoje só é possível graças ao próprio PT. Tamanhas as arbitrariedades do Judiciário, que avança num autoritarismo reacionário que tem como principal alvo a classe trabalhadora, só são possíveis hoje porque o PT cumpriu um papel de não organizar a força dos trabalhadores para derrotar o golpe e os ataques. Ou mesmo a emergência de uma figura tão reacionária como Bolsonaro não poderá ser combatida pelo nas urnas, como quer o PT, mas apenas no combate orgânico que os trabalhadores podem passar a organizar a partir de uma força anticapitalista que surja das greves, dos comitês de fábrica, que supere o entrave das burocracias sindicais petistas e patronais para impor uma derrota aos empresários, reacionários e golpistas.

Para enfrentar o judiciário golpista e a direita, a luta de classes precisa estar em primeiro lugar, e ao contrário de prometer novas "Cartas" de favor aos capitalistas, é necessário desde já construir uma grande força política anticapitalista, que entenda os desafios que a história impõe àqueles que querem mudar a sociedade pela raiz, e combata de verdade a direita e os empresários.




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