Política

CONCILIAÇÃO PETISTA

PT e Haddad deixam claro que se eleitos vão governar com golpistas e a direita

Em sabatina no UOL nessa manhã, Haddad reiterou que, se eleito, repetirá toda tragédia de conciliação com a direita que abriu caminho ao golpe institucional e ao crescimento da extrema-direita. Do MDB que já se alia em diversos estados nessas eleições, até o PSDB está disposto a se alinhar, ou mesmo o Centrão.

Ítalo Gimenes

Campinas

segunda-feira 17 de setembro| Edição do dia

Nessas eleições manipuladas pelo judiciário autoritário e tutelado pelas Forças Armadas, que impediram o direito do povo de decidir em quem votar, é preciso organizar nas ruas, em cada local de trabalho e estudo uma força de esquerda anticapitalista para derrotar a extrema-direita que vem se fortalecendo na figura do Bolsonaro.

Parece óbvio concluir que, para isso, a última coisa a se fazer é aliar-se com a direita golpista. Como era de esperar, ao contrário disso, o PT mostra que vai fazer as mesmas velhas alianças que fizeram na década de 2000, e que abriram caminho para o golpe institucional.

Haddad se apoiou na entrevista do presidente do PSDB, Tasso Jereissati, que fazia um balanço da atuação do PSDB enquanto oposição - dizendo que o PSDB não deveria ter entrado no governo Temer, nem questionado a legitimidade do governo Dilma - para justificar que "a porta de diálogo com os tucanos está aberta", ou seja, de aliança com o PSDB para a sustentação de eventual governo petista.

Perguntado se aceitaria apoio do PSDB, Haddad disse "Existem dois tipos de apoio. Um para evitar um mal maior e o apoio mais programático, pensando numa agenda nacional. Não saberia dizer em que condições o PSDB estaria disposto a apoiar uma candidatura do PT contra Bolsonaro. Mas existe espaço para uma agenda de Estado, que tem a ver com o fortalecimento de uma agenda republicano, o que não se confunde com apoio a propostas do governo. ".

"Você está falando com uma pessoa que não tem nada de sectário, está falando com uma pessoa que ajudará a construir um amplo campo de apoio democrático popular". Que tipo de campo "democrático-popular" se pode construir junto a golpistas que atacaram todos os direitos sociais e trabalhistas que puderam em alguns meses? De fato, alguém "nada sectário" quando se trata de fazer acordos com os partidos fisiológicos do regime.

Veja aqui: O PT como “mal menor” ajuda a combater o golpismo e a direita?

Veja também: “Haddad ao governo, Lula ao poder”?

Passando para os acordos políticos mais gerais que estariam dispostos a realizar em eventual governo, Haddad respondeu escolhendo falar sobre suas alianças com PSB, com a “dissidência em outros partidos que querem se aproximar”, tal como tem acontecido dentro do MDB. "eu considero muito difícil o MDB manter a unidade depois do governo Temer”, disse, para justificar-se. Nessas eleições, o PT está aliado nos estados de Alagoas e Ceará, respectivamente, com o filho de Renan Calheiros e com o presidente do Senado, Eunício de Oliveira, ambos MDB.

Quando questionado sobre o Centrão, disse:“olha, o Centrão parece ter abraçado outro projeto, não sei se vão fazer uma reavaliação depois de Outubro". A resposta ficou no ar, o que nos indica possibilidade.

"Então o senhor vai falar com todo mundo?", devolveu o jornalista. Haddad respondeu rindo, "Olha, é da minha natureza isso. Sem perder minha firmeza de propósitos, você precisa abrir espaço para construir consensos.

Apesar das risadas de Haddad, os trabalhadores, os negros, as mulheres, sabemos que enfrentar o golpismo da extrema direita é o exato oposto de coligar-se com el, muito menos sugerir a possibilidade de uma "afinidade programática eventual" com o PSDB. A aliança com a direita, tal como fez na década de 2000: essa é a "firmeza de princípios" a que se referia Haddad na entrevista. Nada esquecido, nada aprendido.

Se o PT está renovando todas as medidas de acordo com a direita e os golpistas, inclusive convidando o PSDB, os tucanos que foram a base do governo Temer, a um diálogo permanente, além do MDB em diversos estados, remontando o esquema que levou ao golpe institucional, porque deveríamos acreditar que o PT é quem pode derrotar Bolsonaro?

Economicamente, quis assegurar os mercados. Quando falava sobre projeto econômico, chegou a dizer que a diferença entre o que o PSDB e Bolsonaro propõem, com o que o PT propõe, é que "o plano deles leva a uma retomada mais lenta do que no nosso entendimento” (sic). Matizes, aparentemente, separam uns e outros na economia. Fez questão de dizer que mantinha "boa relação pessoal" com Ilan Goldfajn, chefe do Banco Central de Temer.

"Nós temos um problema fiscal. Temos que perseguir uma trajetória de sustentabilidade fiscal, mas temos que observar uma dimensão política e social". Em outras palavras, haverá cortes nos gastos sociais e ajustes para pagar a ilegítima dívida pública aos banqueiros internacionais.

Nem mesmo na reforma da Previdência de Temer o candidato do PT deixou de encontrar utilidade: "Essa reforma do Temer, o primeiro relatório que está na Câmara, tem coisas úteis. Os regimes próprios de Previdência deveriam ser o objeto inicial da reforma." Um escândalo.

Apesar de dizer que "não dá pra fazer tudo o que pedem os mercados" disse que está “a favor da sustentabilidade fiscal", usando de exemplo ataques que o governo Lula aplicou ontra os trabalhadores: "aprovamos duas reformas importantes, em 2003 e 2012, em diálogo com a sociedade"; "com parceria, com concessão, sou a favor disso, sou autor da lei da PPPs" (Parcerias Público Privadas), que abriram caminho para a privatização desenfreada do governo Temer.

Ficou evidente nessas declarações a vontade de Haddad buscar repactuar o regime com os golpistas, que não seria sem preço para Haddad conseguir corresponder à promessa de retomar o ciclo reformista dos governo Lula que ficou enterrado pela crise. Se aliar com os golpistas nessa conjuntura de crise necessariamente pressionará Haddad, para além do que ele já está se dispondo, a ter uma política dura de ajustes, até mais das que Dilma teve que encarar.

Apesar das promessas de Haddad e o PT, não existem as mesmas condições econômicas nacionais, tampouco internacionais, para repetir as mesmas concessões limitadas que o lulismo realizou nos anos 2000 (enquanto enchia os bolsos dos banqueiros de dinheiro, diga-se de passagem). Aí está justamente o caráter "senil" da revitalização provisória do reformismo petista: as condições materiais para que opere algumas reformas mínimas já não existem, o que significa que um eventual governo Haddad será uma versão piorada do "Dilma 2".

Na própria entrevista, citou a aproximação com o banqueiro Ilan Goldfajn (presidente do BC de Temer), de modo que Haddad vem propondo um novo pacto nacional com a burguesia financeira, prometendo sustentabilidade no pagamento da dívida pública. Repactuar com os políticos e capitalistas que aprovaram a Reforma Trabalhista, a terceirização irrestrita, e a PEC do teto dos gastos públicos, uma série de privatizações, para pagar a dívida e garantir os lucros dos patrões nesse momento de crise, não só tornará impossível uma reversão desses ataques como pressionará Haddad a ir mais fundo do que Dilma.

Em síntese, o PT repete a receita para o desastre dos trabalhadores e dos setores oprimidos. Promete construir consensos até mesmo com a direita golpista, se propondo ao diálogo franco com os tucanos do PSDB, em detrimento da mobilização independente dos trabalhadores. Foi nesse caminho que assumiram os métodos corruptos de gerir a máquina do Estado para beneficiar um setor da burguesia, ao mesmo tempo que aprovavam a Lei da Ficha Limpa e fortaleciam as possibilidades do judiciário arbitrar sobre essas quem a população tem direito de votar hoje, se voltando contra o próprio Lula.

O voto no PT não é capaz de responder ao fortalecimento da extrema-direita e de suas bases eleitorais. O combate real será fora do processo eleitoral, e o PT cumpre um papel de enfraquecer a força autônoma dos trabalhadores para responder a essa ameaça, utilizando as burocracias sindicais da CUT e da CTB (ligada ao PCdoB), para desmoralizar os sindicatos e tornar passiva a revolta dos trabalhadores, funcional ao ganho eleitoral do PT.

Nós do MRT que impulsionamos o Esquerda Diário, ao mesmo tempo em que denunciamos o veto bonapartista do judiciário que impediu a população de escolher votar em Lula, não apoiamos o voto no PT, nem em qualquer de suas candidaturas, e criticamos duramente sua estratégia de conciliação de classes que abriu o caminho ao golpe institucional.

Veja também: [VÍDEO] Assista aos programas eleitorais do MRT, uma campanha anticapitalista nestas eleições manipuladas

Justamente porque entendemos que, mais do que nunca, é urgente e necessário o fortalecimento de uma esquerda que aposta na luta de classes dos trabalhadores, das mulheres e da juventude, batalhando por um programa de independência de classe dos trabalhadores em cada fábrica, serviço ou local de estudo. É o surgimento dessa força que pode vencer Bolsonaro e não essa renovada conciliação do PT com a direita.




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