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PT: divisão em meio a um debate com muito 2018 e pouca PEC 241

Crescentes mostras de divisão no partido de Lula e Dilma. Uma divisão que é atravessada pelo planos para 2018. E pouco debate (e ação) contra os ataques de Temer agora.

segunda-feira 17 de outubro| Edição do dia

Sem acordo com a ala majoritária sobre a forma de escolha da nova direção e, principalmente, sobre o rumo que o PT deve seguir para tentar uma reconstrução, dirigentes da chamada esquerda petista já admitem um racha no partido.

A crise na legenda ficou exposta na sexta-feira, quando o Muda PT, grupo que reúne as cinco maiores correntes ditas de esquerda do partido, divulgou um documento no qual anuncia a realização de uma série de plenárias em algumas das principais cidades do País.

O objetivo dos encontros é mobilizar militantes descontentes com o rumo do partido para pressionar a corrente majoritária, Construindo um Novo Brasil (CNB), a não adiar para 2017 a renovação da direção petista.

A primeira plenária será nesta segunda-feira, 17, em Brasília, e a segunda no dia 27, em Porto Alegre. Na pauta do Muda PT estão o início, ainda neste ano, dos debates para um congresso nacional que teria plenos poderes para decidir, por meio do voto de delegados, a nova direção, mudanças no programa partidário e a adoção de padrões de conduta ética para todos os filiados.

A CNB tenta protelar a data do congresso para abril do ano que vem e defende a escolha da nova direção por meio de um Processo de Eleições Diretas (PED), conforme determina o estatuto do PT. Em resposta ao Muda PT, a CNB divulgou um texto, no sábado, 15, no qual reitera a defesa da manutenção do PED.

A divergência pode levar a um racha, admitem dirigentes. “É possível que o grupo que quer PED faça um PED e o grupo que quer um congresso faça um congresso? Não sei. Pode ser. Acho que estão se anunciando rumos diferentes. A outra via pode estar pensando ‘vamos nos livrar dessa grande minoria’”, disse o secretário nacional de Formação do PT, Carlos Árabe, integrante da corrente Mensagem ao Partido. Para ele, a crise é diferente de outras disputas internas que marcaram a história do PT. “Os melhores momentos do PT foram quando a luta interna dava alguma síntese. Agora não é isso”, afirmou Árabe.

Integrantes da CNB estão irredutíveis quanto ao calendário e à forma de escolha da nova direção. “Está tendo um açodamento. (As plenárias da esquerda) Têm como objetivo somente ganhar a direção do PT”, disse um dos vice-presidentes do partido, Jorge Coelho. Segundo ele, “uma parte (da esquerda) está se preparando para sair” do PT.

Diante da pior crise da história do partido – que perdeu a Presidência após 13 anos, sofreu uma das mais significativas derrotas nas eleições municipais e tem alguns de seus principais líderes presos ou na mira da Justiça por acusações de corrupção –, dirigentes admitem reservadamente que o PT deve sofrer uma nova debandada, agora de parlamentares que temem não se reeleger por causa do desgaste da imagem do partido. Alguns dirigentes calculam que até a metade da bancada petista na Câmara pode deixar o partido.
Em reunião da Executiva Nacional, neste segundo semestre, um dirigente questionou: “Não seria o caso de mudarmos o nome e o símbolo do PT?”

Uma das poucas esperanças de manutenção da unidade do PT é que o ex-presidente Lula aceite presidir o partido por um ano e comande uma reconstrução. Semana passada, no entanto, Lula iniciou uma rodada de conversas com as principais forças do partido. O primeiro grupo a ser recebido foi a CNB. Na ocasião, Lula rejeitou categoricamente a possibilidade de presidir o PT.

Uma nova frente de conciliação de classes?

Dos discursos e gritos inflamados de “não vai ter golpe” às declarações de que vai fazer uma “oposição responsável” ao governo do golpista Michel Temer, o PT foi ensaiando políticas entre a timidez e a farsa no marco da sempre presente estratégia de conciliação de classes, manobras parlamentares por fora da luta dos trabalhadores (silenciados pelas burocracias sindicais da CUT e CTB) e alianças com a direita. Abandonou a luta contra o golpe institucional, limitando-se a ocasionais showmícios quando tinha que mostrar alguma resistência, e passou a apostar as fichas nas eleições de 2018.

Porém, do afastamento de Dilma até agora, algumas novas variáveis estão pesando para o PT ponderar qual a melhor maneira para se apresentar nas próximas eleições presidenciais. O avanço do judiciário contra Lula e outras figuras do alto escalão petista, aliado ao fracasso do partido nas eleições municipais, estão fazendo a direção repensar se a melhor via é mesmo o retorno do ex-presidente, como alguns atos de rua convocados ao longo do ano pelo PT deram a entender.

Uma forma de tentar esconder a estrela vermelha e o número 13 (desgastados pela mídia golpista e pelos ajustes contra os trabalhadores praticados pelo PT) no próximo pleito eleitoral seria a formação de uma nova frente "ampla", que uniria um largo arco da esquerda aos moldes da Frente Ampla uruguaia. Essa frente, a olhar pelo cenário atual, teria como candidato Ciro Gomes, do PDT.

Ciro, que na melhor das hipóteses poderíamos considerar como um keynesiano burguês, é um representante das oligarquias de seu estado, o Ceará. Tem uma trajetória ligada aos partidos burgueses, foi ministro de Itamar no auge da implantação do neoliberalismo no país, e sua legenda atual, o PDT, conta com deputados que na semana passada votaram a favor da PEC 241. Além de PT e PDT, ainda se desenha a possibilidade de inclusão do PCdoB, REDE e PSOL nessa frente eleitoral para 2018.

Não é possível nesse momento afirmar se golpistas como a REDE, e partidos que tem recebido votos daqueles que buscam uma expressão à esquerda do PT, como o PSOL (especialmente no caso da candidatura de Marcelo Freixo) se uniriam em uma frente eleitoral. Todavia, essa é uma possibilidade que o PT e movimentos sociais próximos ao petismo colocarão em marcha a partir de agora.

Uma frente como essa só teria o propósito de iludir os trabalhadores, que estão sendo duramente atacados pelo governo Temer, a serviço da recomposição eleitoral do petismo. Uma frente que seria basicamente formada ou por partidos que votaram a favor do impeachment, ou partidos que não organizaram nenhuma luta séria contra o golpe, deixando imóveis as suas bases militantes e centrais sindicais que dirigem, como a CUT e a CTB que foram cúmplices do golpe institucional ao dividir as lutas e bloquear qualquer organização dinâmica nas base dos trabalhadores, em fábricas, empresas, escolas ou universidades. Seria uma candidatura com o propósito de colocar no poder aqueles que já nos atacavam anteriormente com cortes na educação e restrição de direitos trabalhistas.

Já conhecemos o “modus operandi” petista, que nas primeiras pressões da direita com a crise econômica, atacou trabalhadores e jovens com as MPs 664 e 665, e com cortes bilionários no MEC. Uma frente encabeçada pelo PT - ou com a presença do PT - nas próximas eleições, a despeito do conhecido discurso petista de avanços graduais a partir de políticas públicas, só poderia estar a serviço, novamente, dos empresários, como os banqueiros e empreiteiros que aumentaram exponencialmente seus lucros nos governos de Lula e Dilma. Esta política não representa nenhuma alternativa de independência de classe contra os capitalistas; e foi com ela que o PT fracassou.

Exigimos que as centrais sindicais ligadas ao PT e ao PCdoB rompam sua passividade criminosa e convoquem as bases nos locais de trabalho (assim como a UNE, nos locais de estudo) para que os trabalhadores e a juventude decidam em assembleias de base como organizar a resistência aos ataques de Temer, a começar pela PEC 241. Não basta medidas burocráticas isoladas, é preciso um plano de luta para barrar os ajustes. A classe trabalhadora brasileira merece uma esquerda revolucionária e anticapitalista. Ela só pode ser construída nos combates que exige a situação nacional e superando a velha conciliação de classes petista.




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