Política

CRISE DO PT

PT deve apoiar Rodrigo Maia na presidência da Câmara: “mal menor” ou fortalecimento da direita?

A decisão do PT autorizando suas bancadas na Câmara e no Senado a votar nos golpistas Rodrigo Maia (DEM) e Eunício (PMDB) abriu, novamente um importante debate na esquerda.

segunda-feira 23 de janeiro de 2017| Edição do dia

O PT não se separa dos golpistas, já não o fez nas eleições municipais. Mas essa conciliação vai muito além, alcança a estratégia, o DNA do PT. Sem tirar lições sobre a conciliação petista não ergueremos uma esquerda à altura dos desafios que vivemos no país.

A justificativa do diretório nacional do PT se deu em base ao bom e velho toma lá dá cá. Como o próprio Rui Falcão, presidente do partido, afirmou, trata-se de uma busca por cargos. Segundo a lógica de Falcão, apoiar Rodrigo Maia ou outros golpistas pode garantir lugares na mesa diretora e, supostamente, participar da decisão das pautas da casa. Ainda que isso fosse verdade (uma vez que quem decide as pautas é o presidente), o problema se manteria.

Emir Sader, reconhecida figura petista, comentou em sua página do facebook “o PT só deveria se aliar aos que votaram contra o golpe. Teria menos de 1/3 dos votos, o governo aprovaria todo seu brutal pacote de maldades contra o país e contra o povo. É essa a lógica que alguns defendem?” A lógica pressuposta no comentário de Emir Sader, que embasa a decisão do diretório nacional, é a contraposição entre a luta contra Temer e o rechaço parlamentar aos golpistas, como se fosse impossível lutar contra Temer sem se aliar a ele e sua base. Para além do oportunismo em busca de cargos a qualquer custo, reside nessa lógica um abismo entre a luta social e a atuação parlamentar. É tipo assim: “nas ruas gritamos fora temer, golpe nunca mais, mas no congresso, onde as coisas são realmente decididas, nos aliamos com o que há de mais degenerado e reacionário para minimizar os ataques. É o que tem pra hoje, é o mal menor!”. De mal menor em mal menor a direita agradece, obrigado.

Decisões como essas, na prática, fortalecem o governo golpista e suas medidas neoliberais. Rodrigo Maia, se eleito para a presidência da Câmara, vai fazer de tudo para aprovar a Reforma da Previdência, a Reforma Trabalhista e outros ataques aos trabalhadores. Apoiar sua candidatura significa apoiar esses projetos, já anunciados pelo golpista do DEM e tão esperados por banqueiros e mega empresários Brasil e mundo afora. Como viemos defendendo no Esquerda Diário com afinco, a única maneira de barrar a série de ataques contra a população é através da ampla mobilização dos trabalhadores, da juventude e demais setores da população. Quantos golpes, PEC’s 55 e reformas do ensino médio o Congresso vai precisar dar para chegarmos à conclusão de que ele não está do nosso lado? Pior, não se trata nem de confiar no Congresso, agora o PT quer apoiar o chefe dos ataques, base do usurpador Michel Temer, candidato da antiga ARENA e estrela da direita mais degenerada existente hoje no país. Para combater esse projeto das elites, de descarregar a crise econômica nas costas dos trabalhadores e da juventude, é necessário rechaçar a direita e combatê-la com luta, paralisações nos locais de trabalho, ocupações de escolas, atos massivos, etc. Seria necessário paralisar o país com os históricos métodos da classe trabalhadora. Mas chegar a essa conclusão também não basta.

Como ouvimos diversas vezes, o próprio PT e seus aliados, como PC do B, Levante Popular e outros, também “chamam” o povo à luta. O próprio Lindbergh Farias, para ser "consequente", chamou a militância petista à lutar contra essa decisão do diretório nacional. A resposta da direção do PT foi adiar o Congresso do partido para junho (anteriormente seria em Abril), de forma a acalmar os ânimos de crise interna e ao mesmo tempo impedir uma debandada parlamentar do partido após as decisões congressuais, uma vez que o período de mudança partidária tem limite em Abril. Quisera a raiva expressa no video do senador carioca se transformasse em transformação radical das práticas oportunistas e conciliatórias… mas a demagogia é regra indissociável da prática petista, não há como mudar pela via do convencimento de suas direções ou qualquer ilusão do tipo.

A verdade é que práticas como essas dizem respeito ao DNA do partido. Ela é calcada na estratégia de conciliação de classes que o PT leva a frente desde o seu nascimento. A célebre frase de Lula na década de 70 sintetiza isso, ao afirmar que “o patrão não é nosso inimigo”. A trajetória do PT caminha nesse sentido desde muito tempo, ganhando expressão cada vez mais desastrosa até chegar na aliança com os golpistas nas últimas eleições municipais (1683 foi o número de municípios em que o PT se aliou com PSDB, PMDB e/ou DEM em 2016).

Ou seja, cada vez fica mais claro que a intenção do PT não é combater a direita e seus ataques, mas sim, e talvez aqui resida o maior problema de todos, impedir com que surja uma alternativa à esquerda. A questão central é como essa lógica do “mal menor” impede o surgimento de uma alternativa de esquerda independente do PT e de seus aliados. Daí a necessidade de se ir na raiz do problema, que é justamente a estratégia de conciliação de classes do PT, também repetida com verniz mais ‘radical’ por outros setores à esquerda do PT.

Precisamos combater os ataques da direita de maneira independente do PT, com bandeiras que consigam dar respostas de fundo aos problemas da crise que enfrentamos. Nesse sentido, por exemplo, as ‘diretas já’ ou ‘eleições gerais’ acabam sendo funcionais, frente à histórica crise do PT, à reorganização dos movimentos sociais e da esquerda em torno do PT ou de projetos semelhantes como o capitaneado por Tarso Genro e que ganha apoio de políticos burgueses como Ciro Gomes, o “Muda PT”. Novas eleições não apenas não transformam as regras do jogo, apenas alternam os jogadores, como acaba não questionando os problemas da sociedade em que vivemos de maneira profunda. Ao mesmo tempo, faz coro com a Folha de S. Paulo, Marina Silva e outros setores burgueses.

Por isso nós do Esquerda Diário levantamos a necessidade de se constituir a partir da mobilização dos trabalhadores e da juventude uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, que combata de maneira independente a corrupção, lute contra a entrega da Petrobrás e de nossas riquezas naturais, não pague a dívida pública que apenas enriquece os bancos e o capital financeiro e outras demandas estruturais tão necessárias à população brasileira. Pensar uma alternativa de esquerda real ao PT neste momento é urgente e colocamos o Esquerda Diário a esse serviço.




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