Política

CONGRESSO DA CSP-CONLUTAS

PSTU na CSP-Conlutas: uma política golpista que faz o jogo de Trump e Bolsonaro na Venezuela

O 4º Congresso da CSP-Conlutas reafirma a política golpista do PSTU, direção majoritária da entidade. Mas, mais do que isso, coloca a central ao lado do imperialismo e da direita continental.

Maíra Machado

Professora da rede estadual em Santo André e militante do MRT

segunda-feira 14 de outubro de 2019| Edição do dia

Nesse momento, o Equador arde com a luta popular contra o presidente Lenín Moreno, que anunciou um plano econômico de ataques duríssimos a mando do FMI e contra o conjunto da população. O plano de ajuste do presidente tem o sentido de descarregar a crise nas costas dos trabalhadores e do povo equatoriano. Para pagar a milionária dívida pública do país, o governo aumentou em 123% o preço da gasolina e do diesel e quer aplicar uma dura reforma trabalhista.

Diante da enorme luta de classes que se desenvolve hoje no Equador, Jair Bolsonaro junto a outros 6 presidentes direitistas da América Latina, declarou apoio ao governo equatoriano, mas o presidente brasileiro foi além e chegou a insinuar que a crise que atravessa o Equador é fruto do governo venezuelano e que a população equatoriana está em luta contra Nicolás Maduro.

Seria cômico se não fosse trágico. Contudo, a maior tragédia não está nas já esperadas declarações absurdas de Bolsonaro, mas em atestarmos que a resolução sobre a Venezuela aprovada no congresso da CSP-Conlutas, impulsionada pela ala majoritária, dirigida pelo PSTU, faz o jogo de Trump e Bolsonaro diante da crise venezuelana. Não apresenta nenhuma alternativa de independência de classe e, sob o pressuposto de combater Maduro, apoia a forma como agem os governos imperialistas, em primeiro lugar o de Trump.

Essa resolução vergonhosa presta um auxílio à demagogia golpista do EUA, que removeriam o governo autoritário do Maduro para colocar no lugar um governo não menos autoritário, mas saído do bolso de Washington, o de Juan Guaidó.

É notório que imperialismo estadunidense está em plena ofensiva sobre a América Latina e conta com Bolsonaro como aliado central para avançar ainda mais sobre as riquezas naturais e a força humana concentrada no pátio traseiro dos EUA. Avançar sobre a Venezuela é estratégico para o imperialismo, que faz isso com uma discussão de que é preciso combater a “ditadura comunista” naquele país. No início do ano, Trump e os governos subservientes de direita no continente (Bolsonaro, Macri, o Grupo de Lima) flertaram com algum tipo de golpe “clássico” para impor um governo fantoche e completamente a serviço da recolonização do país, que detêm uma das maiores e mais importantes reservas de petróleo do mundo.

A “defesa da democracia” do presidente dos EUA e de seus aliados é de um cinismo sem fim. Os Estados Unidos patrocinaram todos os golpes reacionários na América Latina, e Trump apoia ativamente qualquer governo autocrático e repressivo do mundo. Mais hipócrita ainda é a discussão de que o “benevolente” imperialismo estadunidense quer ajudar o povo venezuelano que passa fome, já que os embargos ao país são enormes e jogam a população na mais profunda miséria. A ofensiva imperialista sobre a Venezuela não tem interesse nenhum em acabar com a miséria que sofre o povo venezuelano, enquanto falavam em ajuda humanitária, atacavam a população, impondo uma asfixia econômica ao país, com sanções econômicas e retenção de divisas como da PDVSA. Sem contar que a tal ajuda humanitária era ínfima e menor, inclusive, que os subsídios que oferece o atual governo.

A tentativa de golpe e de uma ocupação militar não se mostrou a opção mais viável ao imperialismo. A Rússia e a China possuem grandes interesses geopolíticos na região, sem contar o apoio militar da Rússia, que torna a Venezuela a principal força militar na região. Descartado esse expediente, Trump e seus súditos apostaram em outro modelo de golpe, fomentando setores da direita venezuelana aglutinados na figura de Juan Guaidó, que em janeiro se declarou presidente interino do país. As forças imperialistas e pró-imperialistas, como o Grupo de Lima, nunca tiveram como objetivo solucionar a miséria em que vive o povo venezuelano; antes, desejam instalar um governo que subordine o país ao FMI, ao capital imperialista, endividando-o ainda mais, entregando seus recursos e privatizando suas empresas.

O repúdio à política da direita pró-imperialista na região, que recebe o apoio da ala majoritária da CSP-Conlutas, implica a defesa de uma política de independência de classe, que nada tem a ver com defender e proteger o governo nacionalista burguês e autoritário de Maduro. O governo Maduro é responsável pela situação de miséria em que vive o povo venezuelano. Antes de Maduro, Chávez nunca rompeu com o imperialismo, por mais que houvessem atritos com os EUA, mantendo o país dependente das receitas do petróleo, nunca deixou de pagar religiosamente a dívida pública, em seus anos de governo, sua política garantiu os lucros dos banqueiros e empresários. As empresas estatizadas eram sempre muito bem indenizadas às expensas do povo venezuelano, que no auge dos preços do petróleo recebiam apenas uma fração das gordas margens que iam para as mãos dos capitalistas. Com a intensificação da crise econômica mundial, a queda dos preços do petróleo, o governo deixou de ter até mesmo as migalhas para oferecer ao povo venezuelano, e Maduro nada mais fez que descarregar a crise sobre as costas da população, que amarga essa terrível crise social.

Maduro seguiu pagando a dívida externa, favorecendo o capital internacional, e atuou para garantir os privilégios da alta burocracia governamental e dos grandes capitalistas do país. Uma outra marca dos governos de Hugo Chávez, intensificada por Maduro é o controle repressivo através das Forças Armadas, particularmente, da repressão ostensiva aos movimentos dos trabalhadores. Uma escalada de repressão, que aumentou no mesmo compasso em que escalava a crise econômica. Aliás, após o avanço imperialista, o governo de Maduro não tomou nenhuma medida anti-imperialista e seguiu se defendendo apoiado-se em medidas burocráticas e no fortalecimento das Forças Armadas, aumentando o grau de sofrimento imposto ao povo venezuelano com mais repressão, inclusive com o incremento do uso de grupos paramilitares.

Quando a CSP-Conlutas ergue como consigna o coro de “Fora Maduro”, não faz mais do que se colocar ao lado dos setores do imperialismo e pró-empresariais, antinacionais e antipopulares. Primeiramente, aqueles que se opõem ao governo Maduro, responsável pela catástrofe vivida pelos trabalhadores e o povo venezuelano, devem se colocar categoricamente contra o avanço recolonizador do imperialismo sobre a Venezuela e sobre todo o continente, sem nenhum apoio político ao regime antioperário de Maduro.

Nós, do Movimento Nossa Classe, que participamos com uma delegação de trabalhadores no último congresso da CSP-Conlutas, defendemos que é preciso se apoiar na força e nos métodos de luta dos trabalhadores, com total independência política do governo, dos partidos patronais, do Estado e, principalmente, do imperialismo, para levantar um programa que se confronte com os interesses do capital imperialista e da burguesia nacional venezuelana (seja ela opositora ou pró-maduro). Como defendemos no Congresso de Trabalhadores da Universidade de São Paulo (USP), reafirmamos que “os trabalhadores são a única força social que pode oferecer uma solução progressista para esta crise monumental.”

O PSTU, que defendeu o “fora todos” no contexto do golpe institucional de 2016 no Brasil, responsável por tirar Dilma Roussef da presidência com a finalidade de aplicar contra os trabalhadores ajustes ainda mais duros do que os que o PT aplicou e do que esse partido poderia impor para atender aos interesses mais profundos da burguesia nacional e imperialista, aprofunda com essa posição seu golpismo e nenhuma política de independência de classe. Hoje amargamos um governo de extrema-direita em nosso país, que é a continuidade do golpe e que atua para massacrar as condições de vida da maioria da população em nome de seguir garantindo os lucros capitalistas. Bolsonaro atua para submeter o Brasil e toda a América Latina aos ditames do imperialismo americano, e qualquer política que atue para derrubar Maduro pelas mãos da burguesia serve à mesma política que precisamos combater em nosso país e em todo o continente.

O golpismo do PSTU, que durante o golpe brasileiro teve seus materiais compartilhados por grupos de direita como o MBL, serve apenas para seguir legitimando a linha equivocada que quando ganha força é utilizada pela burguesia para avançar sobre cada direito da classe trabalhadora. Por isso é preciso denunciar o papel cumprido por esse partido e sua política como direção majoritária da CSP-Conlutas.

Para defender a Venezuela, estamos com os trabalhadores, estudantes e indígenas equatorianos que mostram o caminho para enfrentar o governo e o FMI! Fora FMI, fora Trump, fora todo o imperialismo da América Latina!!!




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