Política

ELEIÇÕES 2018

PM faz campanha eleitoral com vídeo de assassinato, defendendo a brutalidade policial

Marcello Pablito

Trabalhador do bandejão da USP e membro da Secretaria de Negras, Negros e Combate ao Racismo do Sintusp

quarta-feira 5 de setembro| Edição do dia

Com o aparecimento de candidatos da extrema direita que defendem mais repressão e violência policial, como Bolsonaro, também aumentou vertiginosamente o número de candidatos policiais e militares, que colocam a barbárie policial e os milhares de assassinatos praticados pela polícia como centro de sua campanha. Apenas em São Paulo, dobrou o número de candidaturas ligadas ao aparato repressivo, indo de 44 (2% do total) para 88 (4%) nesse ano.

O caso de Katia Sastre é escandaloso. Tendo se tornado famosa por balear um assaltante enquanto estava com sua filha – e sendo inclusive condecorada pelo governador Márcio França por isso – agora a cabo da polícia militar utiliza o vídeo dela matando o homem como vídeo de campanha. Chega ao ridículo inclusive de fazer uma dublagem de falas fictícias dela e do assaltante sobre a filmagem de câmera de segurança utilizada. Admiradora declarada de Bolsonaro, Sastre acabou lançando a candidatura pelo PR, do empresário corrupto Valdemar Costa Neto, preso no escândalo do mensalão. Em junho desse ano, Katia afirmou que sua candidatura seria “em honra de Deus”.

Todos os candidatos policiais utilizam como plataforma de campanha a barbárie dos assassinatos policiais – que em São Paulo batem o recorde da proporção de assassinatos totais, correspondendo a 19,5% do total de assassinatos do estado, totalizando 940 mortes cometidas pelas mãos de policiais em 2017. Nomes já tradicionais em defender essa brutalidade, que vitima sobretudo a juventude negra e pobre das periferias, estão novamente nas eleições, como Coronel Telhada e Major Olímpio, ao lado das dezenas de “iniciantes” como Katia Sastre.

Contudo, a campanha de Sastre tem ainda um elemento a mais de perversidade. Além de defender as mortes cometidas pela polícia, ela utiliza o fato de ser mãe e mulher para capitalizar politicamente. Em seu vídeo eleitoral, após mostrar o assassinato do assaltante, ela diz: “Atirei e atiraria de novo (...) agi como policial e como mãe”. Tenta vender a imagem de uma mulher e uma mãe “empoderada”, e cola-se à ideia propagada por Bolsonaro de que “Pistola na bolsa protege muito mais a mulher do que a Lei do Feminicídio”, e ainda de que a violência brutal da polícia protege as mães e as mulheres.

Contra essa hipocrisia escandalosa, podemos lembrar das Mães de Maio, movimento de luta contra a violência policial e a impunidade do Estado que surgiu após o massacre promovido pela polícia em maio de 2006, que matou 564 pessoas e que segue impune. Como elas, milhares de outras mães, mulheres trabalhadoras, quase todas negras, moradoras das favelas e periferias, têm seus filhos brutalmente assassinados pelas balas da polícia. Outras milhares, como a mãe de Rafael Braga – preso por crime algum desde 2013 – veem seus filhos serem encarcerados em presídios que parecem masmorras, cujos detentos em 40% dos casos sequer têm direito a julgamento. As mães negras e trabalhadoras não têm em Katia uma aliada, mas uma inimiga que ajuda a fortalecer a repressão estatal que mata e encarcera seus filhos.

Bolsonaro e Major Olímpio – candidato ao Senado pelo PSL – são aglutinadores desses policiais que querem entrar na política para fortalecer a polícia, seus crimes e sua impunidade: 32 candidaturas de representantes das forças armadas são do partido, sendo 22 de policiais militares. Olímpio se orgulha do feito, dizendo: “Com o descrédito na política, há uma mobilização nacional pela participação mais efetiva das forças de segurança no processo eleitoral”. São candidaturas que, como a de Bolsonaro, buscam responder pela direita, com repressão, violência e racismo, a crise política no país.

As candidaturas do Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT), das quais faço parte, se colocam em combate contra essa perspectiva. Defendemos o julgamento de todos os casos de assassinatos cometidos por policiais por júri popular, o fim dos tribunais militares, o fim da “licença para matar” e do encarceramento em massa. Legalização das drogas para acabar com a política repressiva que serve como pretexto para essas mortes. Fim do pagamento da dívida pública para ter mais dinheiro para investir em saúde, educação, moradia, transporte, lazer e cultura. Fim da polícia assassina. Lutamos pela organização e mobilização dos trabalhadores para impor uma Assembleia Constituinte que derrube esse regime a cada dia mais autoritário, para que possamos impor essas demandas.




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