Mundo Operário

ENTREVISTA COM RUY BRAGA

PL 4330 representa risco de precarização: "Parecido com o que tem na China"

quarta-feira 29 de abril de 2015| Edição do dia

O Brasil pode se tornar uma nova China. Mas pelo motivo errado: esse foi o alerta dado pelo sociólogo Ruy Braga durante o debate sobre o Projeto de Lei 4330 nesta terça-feira, em evento promovido pelo Sindicato dos Metroviários - que contou com a presença também do juiz Jorge Luiz Souto Maior. Segundo o professor da Universidade de São Paulo, o PL, conhecido como "Lei da Terceirização", nos colocará em condições semelhantes às dos asiáticos, mas não nos índices econômicos - que apontam que, em breve, será o país mais rico do mundo - e sim justamente no que há de pior na terra de Mao Tsé-Tung: as péssimas condições de trabalho."

Mesmo declarando-se comunista, o país é reconhecido pela péssima condição de seus trabalhadores, responsáveis por boa parte dos produtos que circulam no mundo. São frequentes relatos de suicídios por conta disso. A Foxconn, empresa que produz, entre outros coisas, o iPhone, tem lidado com a morte de diversos trabalhadores. Assédio, salários baixos e um governo intolerante com qualquer tipo de ação política de seus cidadãos são algumas das denúncias mais frequentes no país.

E é esse o cenário que podemos ver repetido no Brasil, que já reproduz várias características daquele país - o assédio e os baixos salários, por exemplo, não deixam os brasileiros tão a frente assim dos chineses. Para Ruy Braga, é desse "iceberg" que o Projeto de Lei 4330 (que aprovado na semana passada na Câmara e será enviado para o Senado em breve) é apenas a ponta.

"O modelo de desenvolvimento esgota sua capacidade de acumular capital nesse último período e é necessário uma espécie de plano B. E o plano B deixa de ser a ampliação da base da exploração do trabalhador mais barato e passa a ser, além disso, essa ofensiva sobre os direitos dos trabalhadores. Nós estamos na possibilidade de fazer com que o mercado brasileiro se torne mais ou menos parecido com que tem na China e outras regiões de exploração sanguinária dos trabalhadores", alertou.

"Sem dúvida nenhuma, o PL é um ataque devastador sobre a classe trabalhadora brasileira, inédito pelo menos desde 1964", declarou o sociólogo, lembrando do golpe que instaurou a ditadura militar no país. "No entanto, o problema é que o PL é apenas um momento de uma ofensiva patronal muito mais ampla que envolve o ataque sistemático e brutal sobre o direito dos trabalhadores."

Por fim, Braga coloca o PL como marco do fim da "paz social" que havia no Governo Lula - o desmonte dos direitos significa a passagem de bastão de Dilma. "Já havia dito antes que o Governo Dilma, com o PL, tinha terceirizado o governo e que que havia acabado o governo do PT e começado o governo do PMDB. Ainda penso isso. O PL marca a rendição final do Governo Dilma ao rentismo e a esses tipos de estratégias de acumulação, espoliação e desapossamento dos direitos sociais."

Entrevista realizada por Marcio Hasegava para o Esquerda Diário.




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