Sociedade

CARNAVAL METROVIÁRIOS

PCdoB e PT defendem concurso de "rainha" do Carnaval no Sindicato dos Metroviários

Carla Carvalho

Metroviária e diretora de base do Sindicato dos Metroviários de SP da Linha 2 Verde

quarta-feira 8 de fevereiro| Edição do dia

Foto: Concurso de "Rainha do Carnaval" feito no Sindicato dos Metroviários em 2016. Fonte: Site da CTB

O debate sobre o uso do corpo das mulheres no carnaval, principalmente sobre o uso do corpo da mulher negra, vem crescendo ano a ano, não à toa este ano a Rede Globo trouxe em sua propaganda de carnaval não mais a Globeleza habitual, mas sim uma amostra das tradições carnavalescas regionais, como o frevo, maracatu e o axé. O corpo da mulher não foi utilizado de maneira hipersexualizada, como um produto de exportação, como tem sido feito pela emissora há anos, dessa vez a Globeleza estava vestida!

Esse debate também se deu no Sindicado dos Metroviários de São Paulo, porém, infelizmente, o saldo não foi o mesmo.

Existe na categoria metroviária um bloco de carnaval construído por trabalhadores, a Banda do Trem Elétrico. Este bloco de carnaval possui uma direção composta por vários dirigentes do Sindicato dos Metroviários, inclusive o presidente do bloco é militante histórico da categoria e membro do PC do B. A banda tem tido por prática uma eleição de rainha e princesa de carnaval e os critérios para a escolha das vencedoras são: beleza e simpatia. Há um homem que agencia as meninas e a vencedora recebe uma premiação em dinheiro.

Há anos as mulheres da categoria vêm discutindo sobre quão problemático é esse tipo de competição ainda mais dentro de um dos maiores sindicatos do Brasil, um sindicato de esquerda, com uma diretoria na qual a maioria dos diretores se organiza em partidos em que há movimentos de mulheres, ou seja, essa não é uma discussão nova nem dentro do sindicato e muito menos nas organizações de esquerda.

Na última reunião da diretoria do sindicato, eu, da Chapa 5 Nossa Classe pela Base, junto com outras diretoras (Pstu e MES) propusemos uma discussão sobre a questão para buscar algum avanço, porém, infelizmente, o que aconteceu a partir daí foram argumentos de tom liberal que mascaravam a falta de conhecimento sobre o debate e machismos arraigados, foi a desqualificação da opinião das diretoras que pautaram o debate e subjugação. Diretores da chapa 2, composta por militantes históricos do PC do B e PT, defenderam irrestritamente a manutenção do concurso já que segundo eles não havia machismo nenhum nessa prática e ela é parte da tradição do carnaval.

A maioria das intervenções em defesa do concurso de beleza iam no sentido de que questionar a prática é conservadorismo e as mulheres estão lá porque querem, discurso raso que desconsidera todo o contexto histórico, toda a objetificação da mulher, todo o racismo que está por trás da construção da imagem da “mulata”, toda a construção da imagem da mulher brasileira enquanto mercadoria de exportação para o deleite dos estrangeiros. A cultura popular, infelizmente, não está imune às influências burguesas, porém, é nosso papel lutar contra essa apropriação que reforça as opressões e divide ainda mais a classe trabalhadora.

O PC do B e PT estão se reunindo com agrupações de mulheres de esquerda a fim de construir um dia 8 de março de luta das mulheres trabalhadoras, contra o machismo e contra a violência de gênero, enquanto isso no sindicato dos metroviários defendem a manutenção de uma prática rechaçada em todas as discussões políticas de mulheres. A unidade se constrói na luta e na prática, quem rompe com a unidade é quem defende uma prática machista que divide a classe trabalhadora!

Por fim, em uma votação depois de todo o desgaste da discussão, a manutenção do concurso foi aprovada e não apenas pela Chapa 2 mas também por setores da esquerda. Dirigentes da LS, corrente interna do PSOL, pontuaram que a prática é sim machista, mas, ainda assim , votaram a favor da manutenção dela para não se indispor com setores que defendiam a manutenção do concurso como o Chega de Sufoco, o que mostra o quanto a questão da opressão pode ser negociável por dentro da burocracia até mesmo para setores da esquerda. Dessa forma, com 15 votos a 11, ficou definido que o concurso se realizará no próximo dia 17/02 no sindicato dos metroviários.

Todas as correntes possuem um discurso de defesa das cotas para mulheres dentro do sindicato, da necessidade de dar espaço e voz às mulheres, porém, o que se mostrou é que quando mulheres propõem uma discussão política e se colocam enquanto protagonistas da discussão a partir de todo acúmulo e sensibilidade que possuem, elas são facilmente subjugadas e têm a sua discussão diminuída, inclusive pelos setores de esquerda como a LS.

Adoro carnaval e sou uma defensora das atividades culturais, principalmente aquelas impulsionadas por trabalhadores, acho a proposta da banda muito interessante e defendo que ela esteja realmente ao lado dos trabalhadores, lutando contra todas as formas de exploração e opressão e não reproduzindo-as!


Ilú Obá de Min, bloco de carnaval em SP que traz as mulheres às ruas se enfrentando contra o machismo e o racismo




Tópicos relacionados

Carnaval 2017   /    Sociedade   /    Metrô   /    Gênero e sexualidade   /    Mundo Operário

Comentários

Comentar