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OSCAR 2016

Oscar so White: Porque os negros não estavam lá?

segunda-feira 29 de fevereiro de 2016| Edição do dia

Oscar so White: Porque os negros não estavam lá?

A apresentação do Oscar este ano deixou um recado: nada mais será o mesmo depois que os negros ganharam as ruas.

Nos surpreendemos que dos 3 entrevistadores presentes no “ Red Carpet” pela TNT, dois eram apresentadores negros, sendo estes os responsáveis pelas principais entrevistas, e não podia faltar a questão da ausência de negros entre os indicados. Questionado sobre o porquê de ter comparecido a premiação, mesmo em meio a toda esta discussão sobre a ausência de negros indicados em qualquer uma das categorias da premiação, a atriz Kerry Washington, que irá apresentar o prêmio de melhor filme, disse que “existem várias formas de militância e estar lá era dar voz e coração aos negros, sendo que este problema não era apenas racial, mas de idade, gênero, etc”. Outro apresentador negro entrevistado foi o ator Louis Gosset jr, disse que “Os americanos deveriam ter a mentalidade de nos vermos como um só. Negros, latinos e imigrantes brancos construíram a América, então devemos nos ver como um único povo: o povo americano”, infelizmente, tanto Kerry quanto Louis esqueceram que foram americanos que perseguiram Martin Luther King e Malcolm X, destruíram os Panteras Negras e que estes mesmos “americanos”, no conceito mais geral que pode haver, são os que mantêm a opressão policial em Ferguson e Baltimore, e que seguem oprimindo os negros, árabes e os latinos não apenas nos Estados Unidos, mas em outras várias partes do mundo, como no Haiti e no Oriente Médio, em um país liderado pelo presidente negro Barack Obama.
Alguns artistas negros compareceram ao Oscar, como o último premiado com melhor música John Legend, Ernie Hudson, Pharrel Williams, Chadwick Boseman, além da atriz indiana Prianka Choppa, uma etnia também sub-representada na premiação. Segundo Marcelo Hessel, do site Omelete, que acompanhava ao vivo a premiação, “parece que o Oscar buscou todos os negros disponíveis para apresentar a premiação”, que mostra mais uma vez como os negros seguem sendo os serviçais dos brancos, ao apenas servirem para prover e nunca para serem reconhecidos pelo seu trabalho.

Mas o discurso mais aguardado da noite foi o discurso de abertura de Chris Rock, famoso comediante negro, e que estava responsável pela condução como anfitrião da premiação, que entrou embalado por um rap e vestindo um impecável terno branco e que costumado a fazer comentários ácidos, deixou em casa a maioria das suas críticas e apenas apontou a mais óbvia conclusão: o Oscar É RACISTA. Chris Rock iniciou com um discurso que deslegitimando o #oscarssowhite com um discurso que coloca que nunca houve diversidade na premiação, falando que o prêmio deveria se chamar: "White Peoples Choice Awards” (prêmio de escolha das pessoas brancas) e quando disse que “a culpa era dos votantes”, acabou “passando um pano” para a academia, que nomeou esses votantes, ao dar prioridade para homens, brancos e heterossexuais, o que mostra aonde se inicia a ausência de diversidade, dando assim uma oportunidade da academia “se reciclar”, ignorando que ela cumpre um papel na cadeia racista do sistema. Outra coisa colocada por Cris em seu discurso foi “porque os negros estão apenas protestando agora? ”. Antes não se reclamava porque havia coisas mais importantes para protestar " quando sua avó, era estuprada, chicoteada e morria pendurada na árvore é difícil protestar conta o Oscar". Chris colocou que muitos disseram que ele deveria desistir, mas que seria simples substituir ele por outro negro (inclusive já estava contratado, que era o Kevin Hart, outro comediante negro, que estava presente e introduziu a segunda atração da premiação), o que nos coloca essa dúvida: por que o centro das atenções ficou para Chris Rock? Das 87 premiações, apenas 15 atores negros receberam o Oscar, tendo chegado a passarem mais de 30 anos sem um negro ser indicado a qualquer prêmio e a primeira vez que um negro ganhou foi com o papel de melhor atriz coadjuvante para Hattie McDaniel, que interpretava UMA DOMÉSTICA em “E o vento levou…” Em um dos melhores momentos da apresentação foi durante um esquete, que parodiava o filme “Joy”, que retrava a vida da mulher que inventou o esfregão (!!!) e a Whoopi Goldberg entra em cena para falar "Uma mulher magra e branca inventa um pano de chão e ganha um filme. Claro. Uma mulher negra teria que inventar a cura do câncer para ganhar um filme assim".

A cada comentário que era feito sobre a ausência de negros no Oscar, os aplausos foram diminuindo de intensidade, mostrando o incômodo que gerava na plateia, expressão máxima do resultado da ausência de negros, o questionamento do local por eles ocupado naquela noite, tanto que o apresentador chegou a falar que os papéis dados a Leonardo DiCaprio poderiam ter sido de Jamie Foxx, tranquilamente. E realmente poderiam. Uma das grandes questões que deviríamos pensar é: quais são os papéis atribuídos aos negros? Quando se fala de oportunidades dadas aos negros, a academia e o mercado cinematográfico se protege falando que os roteiristas deveriam escrever mais papéis para eles. Mas quais são os papéis que os negros devem realizar? Segundo a historiadora, Aline Messias, que participou da cobertura online do Oscar pelo Esquerda Diário, “Os negros têm constantemente desempenhado papéis que são destinados a eles por uma visão racista do mercado cinematográfico, que deveria entender que não deveriam existir ‘papéis para negros’, mas sim papéis que pudessem ser interpretados por qualquer ator” e esses papéis existem. O James Bond, eternizado por Sean Connery e hoje vivido por Daniel Craig, não poderia ser um ator negro? O papel de Perdido em Marte, que rendeu uma indicação a Matt Damon, ou o vencedor de melhor ator coadjuvante em “Whishplash”, J. K. Simon, ou até mesmo Jennifer Lawrence que consolidou o papel das mulheres no cinema com seu papel em Jogos Vorazes e ganhou o Oscar de melhor atriz por “O lado bom da vida” não poderiam ter sido interpretados por um ator negro?

O fato de o Oscar estar girando em torno da polêmica sobre a ausência de negros não apareceu simplesmente da indignação das atrizes e atores, diretoras e diretores, como Jada Pinklett-Smith e Spike Lee, mas nasceu em outro lugar: isso é resultado das mobilizações que tomaram as ruas dos Estados Unidos desde 2013 com as mortes de Mike Brown e Freddie Gray, em Ferguson e Baltimore, respectivamente. Esse caminho tem sido trilhado desde que os negros nos EUA decidiram não mais se calar frente a repressão policial e a morte dos negros norte-americanos. Milhares tomaram as ruas e imprimiram sua marca dizendo que “A vida dos negros importa”!!! Foi deste lugar que veio a força de impor que, pela primeira vez, um apresentador do Oscar assumir ao vivo durante a apresentação, que Hollywood, o Oscar, a industrial do entretenimento é racista. É isso que faz com que negros não tenham as mesmas oportunidades. E isso não tem a ver com o Chris Rock, que não levou até o final sua crítica a esta industrial, servindo na verdade como um desvio a essa indignação, mas com o peso das ações dos negros nos Estados Unidos e também no mundo. A capacidade da academia de se reinventar, que é o objetivo deles, passa necessariamente por reconhecer que é racista, que há desigualdade de oportunidades, mas que faz isso para seguir vendendo filmes para estas mesmas mulheres, negros e demais excluídos, colocando que eles jamais devem ocupar um lugar diferente do pré-estabelecido para eles. A academia, ao tentar colocar o peso das atenções em torno do Chris Rock, descola a questão central do centro do debate e assim controla a mensagem que será passada, “saindo assim melhor de que entrou”, comentou Daniel Alfonso, editor do livro “A Revolução e o Negro”, lançado no final do ano passado. Para Daniel, o foco do debate deveria “colocar que a academia serve para legitimar um discurso, que é sim racista e também sexista, e que a academia está tentando “correr atrás’. Se eles estão tendo que assumir dentro do auditório que a indústria é racista, quer dizer que na rua a coisa deve estar tensa”.

O Oscar 2016 se encerra nos deixam a seguinte mensagem: as mudanças não irão vir dessas estruturas falidas e podres, mas sim da resposta que as mobilizações têm conseguido dar nas ruas e na luta, seja em torno da questão racial ou da questão do trabalho, que tem balançado os Estados Unidos nos últimos anos. Ligar as duas coisas é o segredo para podermos mudar nossa sociedade.




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