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OSCAR 2016

Oscar 2016: um novo ator toma a cena

A novidade é que neste ano se os negros não estavam atravessando o tapete vermelho, tampouco o script do espetáculo da “Academia” pôde seguir imune, o filme na sala escura começa a ter outra trilha sonora pois não podem mais esconder um novo ator que vem das ruas e toma a cena politica aos gritos retumbantes de: “Black Lives Matter” (Vidas Negras Importam).

Pablito Santos

Executiva Estadual da CSP-Conlutas

quarta-feira 27 de janeiro de 2016| Edição do dia

O anuncio do diretor de cinema negro Spike Lee de que ele e sua esposa não iriam comparecer ao Oscar de 2016 em protesto contra o segundo ano consecutivo em que, apesar da grande lista de excelentes atores negros, nenhum foi indicado a nenhum tipo de premiação do evento de Hollywood, vem gerando grande repercussão na imprensa e nas redes sociais e intensificando o debate sobre o racismo nos Estados Unidos. O anuncio de Spike Lee, feito na segunda feira do feriado em que se lembra o assassinato do líder negro Martin Luther King, foi precedido em 2015 pela campanha #oscarsowhite (em protesto à ausência de qualquer artista negro ou latino indicado a premiação. Esta campanha reviveu em 2016 logo das indicações e ganhou força nas redes sociais através do vídeo de Jaded Pinked Smith, esposa do ator Will Smith, ator que tem recebido fortes elogios pela sua atuação em “Um Homem entre gigantes”, que recentemente também afirmou que não irá à cerimônia.

Não passou muito tempo das declarações de Spike Lee, Jaded P. Smith e outros para que se acendesse o debate sobre o racismo, como se observou nas declarações da atriz britânica Charlotte Ramplinrig, para quem o protesto de Spike Lee seria uma forma de “racismo contra os brancos” uma vez que, segundo a atriz a ausência de negros a qualquer das indicações do Oscar se deveria a que "talvez os atores negros não merecessem estar na lista final". As declarações de Charlotte Ramplinrig fazem coro com uma determinada “ visão de mundo” que julga que a produção de artistas negros é vista como algo que não é digno de reconhecimento. Frente a estas declarações valeria a pena nos perguntar porque a elogiada atuação de atores Will Smith, Idris Elba e Samuel L. Jackson se encontram absolutamente fora das indicações?

Se os atores e diretores não irão comparecer a ironia não faltou ao salão da 88ª seção do Oscar que será comandada pelo humorista negro Chris Rock. Seria exagero lembrar do filme A Hora do Show (Showtime, 2001) dirigido pelo próprio Spike Lee em que o diretor faz uma critica irônica e mordaz ao estereótipo e o preconceito sofrido pelos negros na televisão ao ocuparem apenas papeis de comediantes ou papeis secundários? Chris Rock, um crítico ácido das relações raciais nos EUA, terá a oportunidade de sair do script e pagar caro, ou se contentar em fazer comédia criticando a própria Academia, mas dentro dos limites.

A novidade é que neste ano se os negros não estavam atravessando o tapete vermelho, tampouco o script do espetáculo da “Academia” pôde seguir imune, o filme na sala escura começa a ter outra trilha sonora pois não podem mais esconder um novo ator que vem das ruas e toma a cena politica aos gritos retumbantes de: “Black Lives Matter” (Vidas Negras Importam). Um grito profundo que vem ganhando cada vez mais força com manifestações que expressam a profunda revolta que milhares de negras e negros fazem ecoar sobre o tapete de asfalto das ruas de Ferguson, Baltimore em cenas de ação e enfrentamento com a policia em repudio ao odioso assassinato dos jovens negros de Mike Brown, Eric Garner e tantos negros assassinados pelas balas da policia.

As alvas telas de cinema de Hollywood não conseguem esconder as manchas de sangue embotadas por anos de sofrimento dos negros que amargaram algumas das maiores atrocidades criadas pelo homem com o trabalho escravo, as mutilações, os açoites, torturas, estupros intercalados com os enforcamentos, incêndios de igrejas e chacinas policiais que as mais diversas teorias racistas justificaram e escolheram como alvo os negros.

Quando se fala em “racismo contra os brancos” seria útil lembrar que no palco do Oscar (os Estados Unidos),em pleno século XX sobreviveram as leis de segregação racial instituídas e reconhecidas pelo Estado e que são os negros norte-americanos que levam as cicatrizes no corpo e na alma as lembranças de uma das mais repugnantes e escabrosas formas de opressão criadas pelo capitalismo. Naquele país, os “esquecidos” do Oscar sempre foram lembrados pelo governo quando precisavam compor as tropas que morreriam nas trincheiras de carnificina da Primeira e Segunda Guerra Mundial e na guerra do Vietnã.

Talvez para atriz britânica não seja relevante recuperar a história da indústria cinematográfica norte-americana, que muito longe de ser feita apenas de estrelas gravadas na calçada da fama, ficou conhecida internacionalmente por filmes como “O Cantor de Jazz” (The Jazz Singer, 1927), este sim premiado pelo Oscar na época, e que passaram para a história do cinema como um marco do racismo, em que os diretores preferiram optar pelas “black faces” (onde atores brancos pintavam seus rostos de negro), pois não se poderia sequer admitir atores e atrizes negras nas filmagens desta “seleta” indústria milionária.

Os debates em torno do Oscar de 2016 são a expressão no campo cultural dos choques que estão ocorrendo entre a resistência negra nas ruas e a ideologia dominante e racista que sobrevive no coração do capitalismo mundial. As declarações de Spike Lee, Will Smith e outras celebridades ganham tamanha repercussão pois são a reverberação de algo muito mais profundo pois se assenta na ação de resistência negra que protagoniza as manifestações que trazem a tona a permanente tensão existente em um país presidido por um negro, mas onde para a esmagadora maioria dos negros, latinos e imigrantes o “país da liberdade” nunca existiu.

Para estes o capitalismo só pode proporcionar o enorme peso dos grilhões da opressão e super-exploração que no passado amontoavam corpos negros nos porões dos navios tumbeiros e hoje os segrega nos guetos, nas prisões e no trabalho precário.


A partir do alto e da esquerda: Bryan Cranston, Matt Damon, Michael Fassbender, Eddie Redmayne, Leonardo DiCaprio, Brie Larson, Saoirse Ronan, Charlotte Rampling, Jennifer Lawrence, Cate Blanchett, Mark Rylance, Christian Bale, Tom Hardy e Stallone (Foto: Reuters)

Se a conhecida frase de Malcom X “Não há capitalismo sem racismo” é verdadeira é chegada a hora de que as vozes negras assumam para si a heroica tarefa de por abaixo este sistema de exploração, e que o ódio ao racismo pulse nas veias de todos aqueles que lutam pelo fim da exploração e opressão do homem pelo homem.




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