Cultura

CULTURA

Os trabalhadores são os herdeiros da cultura

Afonso Machado

Campinas

sábado 28 de outubro| Edição do dia

Para começo de conversa, algumas constatações básicas. Arte é prazer. Mas se a plenitude humana buscada na criação artística é negada pela divisão social do trabalho, a arte é afetada diretamente ou indiretamente pelas lutas sociais, pelo antagonismo de classe. Quem fala em estética desconsiderando a economia e os conflitos políticos, vive geralmente em 2 planetas: na galáxia da ideologia dominante existe o planeta dos ingênuos e o planeta daqueles que trabalham conscientemente pela ordem capitalista. Nenhum espanto, já que sensações fragmentadas na cultura digital temperam mundos paralelos, nos quais o espaço público é vivido como espaço privado, agravando por entre fones de ouvido e pequenas telas, o quadro social da alienação. Claro, a oposição de caráter anticapitalista existe (e é pulsante); aliás a grande sacada materialista está em entender que arte é prazer, mas trata-se de um prazer que contesta.

O marxismo concebe o ser humano por inteiro, exigindo que o homem recobre a posse das suas faculdades criativas. Está implícito que o trabalho artístico representa para os trabalhadores o contraponto frente ao trabalho alienado. Contudo, muitos trabalhadores não se sentem à vontade com questões artísticas: um operário se depara com uma obra de arte e logo em seguida pensa que não está habilitado para realizar um comentário sobre; o que dirá ter a ousadia de produzir arte! Ele pensa que é melhor deixar as questões artísticas para as pessoas sabidas, sendo mais adequado contentar-se com sua condição de mero espectador. Enquanto trabalhador, já basta, já estaria de bom tamanho, entregar-se acriticamente ao culto religioso, ao futebol e ao conjunto da estética de micro ondas da indústria cultural. O trágico nesta atitude está exatamente no fato do proletariado, ou seja a força motora da sociedade, não reconhecer-se como criador, como autor e herdeiro da história da cultura.

A construção de um contexto cultural anticapitalista, exige a difusão de obras e ideias que formam intelectualmente os quadros mais avançados da luta pelo socialismo. E ninguém aqui está inventando a roda: no círculo de trabalhadores alemães que Marx fundou em Bruxelas, havia semanalmente discussões sobre arte e literatura. Pois é, gente que era moída no trabalho descolava um tempo para pensar a arte. O fato de Marx e Engels serem vidrados em poesia e teatro, além de leitores inveterados de romances, não estava separado das suas atividades políticas. Marx deu mais de um murro na mesa para afirmar que a ignorância nunca fez bem para a humanidade. Portanto, a arte( assim como a filosofia e a ciência) deve fazer parte da realidade do trabalhador. Se o sistema capitalista nega na sua prática exploradora o contato aprofundado da classe trabalhadora com a arte e a literatura, é papel da esquerda encarregar-se de mudar este cenário. Felizmente existe um expressivo número de artistas trabalhadores: estes não pedem licença para doutores e especialistas para se expressarem artisticamente e manifestarem suas opiniões sobre questões culturais. No entanto, não se pode negar, ainda temos muito trabalho pela frente.

Uma das grandes questões políticas colocadas para a esquerda envolve detectar os momentos históricos em que se operam profundas transformações na consciência das massas. Esta questão, que está longe de ser uma equação matemática, depende de um conjunto de fatores, de uma série acontecimentos: através da própria experiência real das lutas dos trabalhadores, vislumbra-se um processo de educação política. Neste processo de construção da consciência de classe, deve-se levar em conta o modo de cognição dos trabalhadores. Ou seja, o combate à alienação depende necessariamente de uma nova percepção estética: eis que as atividades artísticas realizadas em torno do proletariado assumem um grande papel. Cabe salientar(mais uma vez) que a defesa de uma arte militante não envolve normatização estética ou mero apelo ideologizante.

O alto grau de autonomia da arte, entendida enquanto fruto de uma necessidade interior, faz com que as ideologias de uma sociedade se integrem na obra de arte a partir da sua estrutura, da sua totalidade estética(pintura, romance, filme, escultura, peça de teatro etc). Que toda obra de arte revele um conteúdo ideológico não representa nenhuma novidade. Sem deixar de valorizar a maneira como a ideologia revolucionária se faz na lógica específica da arte, devemos também observar que quando o trabalhador cria, está realizando em si um notável gesto subversivo: como artista ele deixa de ser um instrumento controlado pela maquinaria que o explora, para tornar-se sujeito que transforma a realidade através da criação. O trabalhador faz política porque dentre outras coisas cria obras de arte.




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