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Os trabalhadores da USP precisam de uma assembleia virtual para organizar a luta contra os ataques

segunda-feira 20 de julho| Edição do dia

Estamos a 4 meses do início da pandemia no Brasil, contabilizando quase 80 mil mortes e nenhum sinal de redução, ao contrário, a contaminação cresce nas cidades do interior do país e a abertura da economia é ampliada. Desde o dia 23 de março a maior parte das atividades de trabalho presencial na USP foram suspensas e nós, trabalhadores da USP, estamos cada um tentando lidar com a ansiedade do isolamento social, com a angústia de perder pessoas queridas para esta e outras doenças e tentando tratar das consequências nas nossas famílias do desemprego, de um auxílio emergencial humilhante e vendo os direitos dos trabalhadores serem um a um arrancados.

Patricia Galvão ressalta que:

“Ninguém esperava que a pandemia durasse tanto tempo, nem que as aulas presenciais seriam canceladas durante todo este ano. Tentam estabelecer um novo normal com o trabalho remoto, mas a vida não está normal. O USP mulheres da reitoria mandou um cartaz por e-mail falando hipocritamente que os homens tem que dividir as tarefas domésticas na pandemia, mas as mulheres estão sobrecarregadas porque o trabalho da USP se soma, no tempo e no espaço, com as tarefas domésticas, com o cuidado e a educação das crianças, já que as escolas estão fechadas e precisam estar.” Patricia Galvão, da Secretaria de Mulheres do Sintusp

Claudionor Brandão também alerta que:

“O trabalho remoto desorganiza a categoria, desregula a jornada e aumenta os gastos do funcionário com energia, internet e estrutura pra trabalhar de casa. Não há mais separação nem limites de horários. São vários casos em que os trabalhadores são cobrados a qualquer hora do dia. São os princípios da reforma trabalhista se instalando na USP à sua maneira. Se aprofunda a desigualdade entre técnicos e básicos que com salários diferentes são obrigados a arcar da mesma forma com essa estrutura e em grande parte realizam as mesmas funções.” Claudionor Brandão, demitido político

Numa situação tão adversa, nossa categoria precisa estar unida, precisamos de espaços para ouvir as dificuldades que cada um está passando, porque na USP o trabalho é muito diversificado, e assim saber que não estamos sozinhos. É preciso manter nossa organização. Por isso, nós do Movimento Nossa Classe propusemos na reunião do Conselho Diretor de Base (CDB) de 13/07 chamar uma assembleia para ouvir e organizar a categoria, fortalecendo nosso sindicato em defesa dos nossos direitos.

É impressionante a crueldade que governos e grandes empresários demonstram em plena pandemia ao reduzir o sustento das famílias, jogar milhares no desemprego empurrando outros milhares à trabalhos sem nenhum direito, com jornadas extremamente longas e uma remuneração baixíssima, como são as condições dos entregadores por aplicativo. É um abuso contra os trabalhadores muito maior que já faziam antes quando comparávamos os efetivos com os terceirizados. E são nossos parentes e amigos que estão nessas condições. Estão humilhando nossa classe, estão nos humilhando.

E o objetivo de atacar um setor mais vulnerável é impor condições mais rebaixadas para todos os trabalhadores. Por isso é um ataque também a nossa categoria, ainda que hoje a maior parte de nós esteja em quarentena com os salários em dia. Mas até quando?

Não é de hoje a intenção de reduzir os direitos do funcionalismo público, nivelando por baixo as condições de vida. Nós, ao contrário, lutamos para que nossos direitos sejam estendidos à toda classe trabalhadora. O Reitor Vahan já esclareceu que pretende adotar na USP as medidas do governo Bolsonaro que atacam os direitos do funcionalismo “sem questionar”, como é o caso da Lei Complementar 173 que congela os salários, os benefícios e adicionais por tempo de serviço (como quinquênios e sexta parte) e proíbe novas contratações e progressões de carreira até dezembro de 2021, o que significa reduzir os serviços públicos prestado à população.

Marcello Pablito denuncia que:

“A reitoria se aproveita dessa tragédia humanitária para aprofundar seu projeto de universidade elitista e racista. Não podemos esquecer que a reitoria defendeu aprovação do Marco Legal da Ciência, dos Fundos Patrimoniais e aprovou os parâmetros de sustentabilidade que permitem avançar na terceirização e na privatização da educação pública por meio do financiamento privado. Alinhando a Universidade aos interesses dos grandes empresários e não da população, que nesse momento passa por dar respostas à crise sanitária, econômica e política que o país vive. E mesmo quando busca responder à pandemia, faz isso aprofundando o financiamento privado de pesquisas. Enquanto a gente teme pela vida e futuro de nossos filhos, a USP se vangloria de ter desenvolvidos cérebros que são parte do DNA de empresas como Ifood e 99, que organizam uma verdadeira escravidão moderna da juventude. Essa juventude negra que se ergueu no dia 01/07 contra a precarização é a mesma impedida de entrar na universidade pública pelo filtro do vestibular.” Marcello Pablito, da Secretaria de Negros e Negras e de Combate ao Racismo do Sintusp

E seguindo o mantra de que “a USP não pode parar”, o Reitor formou um grupo de trabalho para definir protocolos para implementar na USP a orientação do governo do Estado, João Dória (PSDB), de reabertura de tudo, sem nenhuma garantia de testes massivos ou medidas de proteção.

Babi Della Torre, trabalhadora do HU, relembra que:

“Durante a pandemia tivemos que nos organizar para defender as mínimas condições de trabalho no Hospital Universitário, porque faltava Equipamentos de Proteção (EPI’s) adequados para prevenção, não liberaram o grupo de risco e não tiveram testes para evitar contágio interno.Só agora resolveram testar os funcionários, mas apenas para saber quem já teve contato com vírus, não para saber os que estão doente e afastar. E ainda deixam de fora os residentes e terceirizados da limpeza e segurança que estão em todos os setores, inclusive os de maior risco. Isso frente a uma situação que dentre todos os que se contaminaram, foi justamente uma trabalhadora da limpeza que faleceu.” Babi Della Torre, representante dos funcionários no Conselho Universitário

Entre os terceirizados da USP, faleceram quatro trabalhadores da segurança, que eram do grupo de risco e foram obrigados pela Reitoria e pela empresa Albatroz a trabalhar durante a pandemia. A Reitoria permitiu a aplicação na USP de todos os ataques do governo Bolsonaro aos trabalhadores terceirizados e assim as empresas ficaram livres para transferir funcionários, suspender contratos de trabalho e demitir. Pior, há pouco mais de um mês soltou uma portaria reduzindo o repasse de verba para as empresas terceirizadas sem nenhuma garantia de segurança no emprego das trabalhadoras, impondo, na prática, uma demissão em massa de até 25% dos trabalhadores terceirizados da Universidade. A maior parte dos negros estão na USP como trabalhadores terceirizados e, ao mesmo tempo que o Conselho Universitário vota apoio ao movimento Vidas Negras Importam, a reitoria descarta seus serviços jogando centenas no desemprego.

Por tudo isso, é necessário convocar uma Assembleia Virtual para ouvir a categoria, debater propostas e organizar os trabalhadores da USP para enfrentar estes ataques. Nós do Movimento Nossa Classe defendemos isso no último CDB. A diretoria, composta pelo Coletivo Piqueteiros e Lutadores do Magno, pelo o PSTU e o Coletivo Enfrentamento, se posicionaram contra a realização de uma assembleia virtual e, com o apoio do MES/PSOL vetaram a realização de uma assembleia. A data de encerramento do Acordo Coletivo também já está próxima e a direção do sindicato precisa antecipar os possíveis ataques. No metrô de SP, a empresa não renovou o acordo coletivo e impôs ataques que significaram perdas salariais de mil reais. Também seguem as demissões dos trabalhadores terceirizados.Não podemos passar mais um mês sem uma assembleia da categoria.

A pandemia não pode ser usada para distanciar o sindicato de seus sócios e da categoria. Na última reunião do Conselho Diretor de Base (CDB) foram aprovadas novas regras pro Departamento Jurídico do Sindicato, que afetam o conjunto dos sócios, como a porcentagem do valor que o Sindicato receberia de processos ganhos, o repasse para o sócio do pagamento pelas custas processuais em casos de perda e gastos com advogados de outras divisões. Medidas tomadas para a recuperação financeira do sindicato, mas que para fortalecer o sindicato precisam ser tomadas pelos sócios, em acordo com eles e ouvindo suas opiniões. Nesse caso também a Diretoria do Sindicato se negou a chamar uma assembleia de sócios pra tomar essas decisão, assim como se nega a organizar uma assembleia da categoria para debater as medidas que os trabalhadores da USP podem tomar para enfrentar a atual situação.

Adriano Favarin lembra que:

“Várias categorias tem organizado espaços virtuais de debate com os trabalhadores para organizar a luta e a resistência aos ataques. No metrô de São Paulo, não apenas foi organizada assembleia como também votações em relação a possibilidade de greve. Assim como aqui na USP tiveram várias reuniões de unidade. Podemos debater em comum as formas de garantir todo o planejamento técnico e organizativo da assembleia, que sabemos, deverá ser diferente de um espaço presencial. Mas achamos que diante da necessidade de organização da categoria seria fundamental que a Diretoria do Sintusp rever sua posição política, que até agora tem sido contrária a garantir um espaço que amplie o debate com a categoria, e convocasse uma Assembleia.” Adriano Favarin, representante dos funcionários no Conselho Deliberativo do HU e no Conselho Universitário

Nesta terça-feira, dia 21/07, às 14h, vai ocorrer uma reunião do Conselho Diretor de Base (CDB) do Sindicato, para discutir o Acordo Coletivo e as perspectivas de retorno ao trabalho na USP. Chamamos todos os CDBistas, que tiveram seu mandato estendido, a se somarem na defesa de que a diretoria convoque uma assembleia na semana que vem, para ampliar o debate na categoria e organizar diante destes ataques. Permitindo que os trabalhadores da USP se liguem aos fenômenos mais avançados dos trabalhadores nacional e internacionalmente, como tem sido o levante dos negros contra a violência policial e as mobilizações dos trabalhadores entregadores de aplicativos por condições de trabalho.




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