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SEMANÁRIO

Os movimentos contra o racismo e a polícia na crise pandêmica

Fredy Lizarrague

Os movimentos contra o racismo e a polícia na crise pandêmica

Fredy Lizarrague

A “rebelião no coração do império”, movimento impulsionado pelo assassinato de George Floyd e analisada por Claudia Cinatti na última edição do Ideais de Esquerda, teve desenvolvimentos posteriores

1. Efeitos profundos de uma rebelião contida nos EUA

Nos Estados Unidos, continuou o movimento massivo que vinha se estendendo a centenas de povoados e cidades. Chegaram notícias de que pequenos povoados viviam a primeira manifestação antirracista da sua história. Todos os estados tiveram manifestações com os gritos de “Vidas Negras Importam” e “Sem justiça, sem paz”, após 200 cidades declararem toque de recolher e 27 estados, junto a Washington DC, demandarem a presença da Guarda Nacional. As pesquisas demonstraram um apoio majoritário às mobilizações antirracistas e anti-policiais, um enorme crescimento no prestígio do movimento Black Lives Matter, anteriormente minoritário, e uma grande proporção de jovens brancos entre os manifestantes (seguramente incluindo as e os decepcionados pelo abandono de Bernie Sanders nas primárias democratas).

A repressão buscou conter os ataques às sedes policiais e outros símbolos odiados (como a CNN em Atlanta ou a sede da burocracia sindical da AFL-CIO a poucas quadras da Casa Branca), enquanto a partir do regime, desde a carta de Barack Obama apoiando as manifestações, mas condenando a violência, atuaram o Partido Democrata, sindicatos, igrejas e ONGs, para “pacificar” o país e conduzir a uma mudança pela via das eleições de novembro, no qual se votará do presidente até legisladores e autoridades locais, passando por senadores e representantes (deputados) nacionais. Obama se responsabilizou por ressaltar a importância das votações locais porque lá se define quem conduz a polícia e muitos programas de assistência social.

No entanto, a enorme corrente da rebelião que busca ser canalizada nesta operação de desvio, continuou com as mobilizações a partir da juventude e um amplo debate nacional de questionamento da polícia e do racismo. Inclusive em Seattle (Estado de Washington), a cidade que viu nascer o movimento “no global” em novembro de 1999 com a enorme batalha de 3 dias que fez fracassar a cúpula da OMC, esta que acontecia nessa cidade, agora nasceu a “Zona Autônoma de Capitol Hill” (nome do bairro no qual se encontra) motorizada pela juventude e demais setores mobilizados que resistiram a uma feroz repressão e cercaram um edifício do Departamento da Polícia e os quarteirões em volta. Nesta zona não permitem a entrada da polícia, distribuem comida gratuitamente e levantam uma série de reivindicações que vão desde a dissolução da polícia até aumento dos orçamentos da saúde e educação, entre outras. Trump os chama de “terroristas” e clama que sejam despejados. Na Filadélfia, famílias “sem teto” junto a outras organizações instalaram um acampamento de protesto para exigir moradias populares e contra a repressão policial que sofrem. Seguem, além disso, manifestações em diferentes cidades e não pode se descartar que se multipliquem ou que renasçam manifestações mais duras frente a novas provocações da direita, já que há repressões policiais e a atuação de bandos ou indivíduos de extrema-direita armados que atacam as manifestações (ocorreram vários incidentes, por ora nada escalado). O assassinato nas mãos da polícia de um jovem de 27 anos, em Atlanta, na noite de 13/06, pode ser um destes fatos.

O predominante, a nível nacional, é um enorme debate sobre o que fazer com a polícia. Em Minneapolis, cidade onde assassinaram Floyd, o conselho municipal declarou que se propõe a “dissolver” a polícia para reorganizá-la “do zero” (como não é claro o que significa isso, dizem que o processo demorará um ano ou mais). Propostas e discussões de reforma se multiplicam, que vão desde tentar repetir o projeto democrata já fracassado das polícias “comunitárias” até os que defendem “desfinanciar a polícia” e até “dissolvê-la”. A juventude mobilizada canta no Brooklin: “desfinanciar, desarmar, abolir a polícia”. No movimento operário, enquanto vemos exemplos muito auspiciosos de paralisações parciais em repúdio ao assassinato de George Floyd, cresce o movimento para expulsar os (mal designados) “sindicatos” de policiais das centrais sindicais.

Ainda que as mobilizações não se radicalizem nas suas ações, vemos os inícios da profundidade do movimento que corre o país. Os enormes orçamentos consumidos pela polícia nos diferentes estados (115 bilhões de dólares no total) correspondem ao desenvolvimento de uma política de criminalização da pobreza e dos setores oprimidos, endurecimento de penas e repressão policial, em particular contra afrodescendentes e hispânicos. Este é um processo histórico, fortalecido há menos de 40 anos. Redobrou-se esse processo como parte da ofensiva neoliberal com a qual o grande capital e todo o regime político norte americano, tanto republicanos quanto democratas, responderam à humilhação que significou a derrota na Guerra do Vietnã e a lenta decadência da hegemonia norte-americana, ao esgotamento do “boom” econômico do pós-guerra com seus posteriores ciclos de recuperação/crise, e as concessões que tiveram de fazer ao movimento pelos direitos civis (que acabou legalmente com a segregação racial). Houve um enorme desenvolvimento da população carcerária, chegando aos 2,3 milhões de presos atualmente (33% de negros, enquanto são 13,4% da população), o país com mais presos por habitante do mundo (655 a cada 100 mil habitantes). Colocar em questionamento a polícia e seus orçamentos nunca é pouca coisa, e menos ainda mais nestas circunstâncias.

Isso obrigou uma relocalização da campanha eleitoral presidencial: enquanto a pandemia mostra sinais de retomada em alguns estados, aterrorizando a Bolsa, os republicanos festejam uma leve baixa do altíssimo desemprego, a discussão sobre a polícia polariza o país. Trump e a cadeia Fox agitam o caos que significaria um país sem policiais, ainda que seu discurso seja cada vez menos convincente, e Biden se separa inclusive das propostas mais moderadas de redução do orçamento policial. Na juventude mobilizada e em setores do movimento operário amadurecem as condições para que emerja uma força que se proponha romper com o regime bipartidário racista e imperialista do capitalismo norte-americano e aprofunde o seu questionamento ao capitalismo.

2. O ódio ao racismo e à polícia percorrem o mundo

Se nos Estados Unidos o movimento é claramente massivo, em vários países europeus, africanos e na Austrália, existiram mobilizações em homenagem a George Floyd, contra a discriminação racial e a violência policial de grande importância, ainda que com impacto mais limitado. No Brasil, se combinaram mobilizações “antifascistas” contra o governo Bolsonaro e os militares.

Na França, uma grande mobilizações no dia 2 de junho, com epicentro em Paris e logo depois reproduzida em várias cidades, unificou o #VidasNegrasImportam em repúdio à decisão judicial que inocentou os policiais que assassinaram, com o mesmo método de asfixia, Adama Traoré em 2016, um jovem negro de 24 anos que vivia nas periferias (banlieue) parisienses. O ódio à polícia pela repressão nestes bairros “racializados” onde vivem os filhos de imigrantes vinha se expressando em revoltas isoladas durante a pandemia. Ali vivem também muitos trabalhadores da “primeira linha” da saúde, do comércio e dos transportes. Estes últimos haviam sido a vanguarda da enorme luta contra o ataque às aposentadorias que sacudiu a França com uma greve histórica que paralisou a região parisiense no fim do ano passado. O repúdio ao racismo tem importantes consequências em um país com uma longuíssima tradição colonialista e imperialista, com numerosas intervenções na África subsaariana, onde a Anistia Internacional acabou de denunciar a responsabilidade das tropas francesas em 200 execuções extra-judiciais. No sábado, 13 de junho, dezenas de milhares voltaram a marchar contra o racismo de Estado e a violência policial, encabeçados pelos familiares das vítimas.
Na Grã Bretanha, um foco de atenção foram as inumeráveis estátuas que homenageiam os escravistas e colonialistas da longa tradição imperial inglesa. O mundo todo viu a estátua do traficante de escravos Edward Colston cair em Bristol.

Agora os britânicos aprenderam que este levou 84.000 escravos para a América, dos quais 19.000 morreram nos seus barcos. A estátua de Cecil Rhodes foi “escrachada” em Oxford, o colonizador e “dono” de um país que levava seu nome (Rodésia, hoje Zâmbia e Zimbabue), responsável pela escravização e o assassinato de milhares de nativos e fundador de um grande monopólio de diamantes que até hoje domina o mercado mundial. As autoridades decidiram levá-la a um museu, antes que seguisse o mesmo destino de Colston. O prefeito de Londres mandou registrar todas as estátuas, para ver quais remover, o que gerou um grande debate sobre o que fazer com Winston Churchill, “herói nacional” que foi inquestionavelmente racista, colonialista e imperialista. Existe um mapa interativo na internet onde o público “propõe” estátuas de racistas para serem removidas, que já soma 100 candidatos (todos homens). A direita, por sua vez, se organiza para defender suas figuras, rodeando a estátua de Churchill e inclusive resgatando Colston do fundo do rio Avon para levá-lo prudentemente para um museu.

Em várias cidades dos Estados Unidos, foram atacadas (e inclusive decapitadas) as estátuas do nosso conhecidíssimo Cristóvão Colombo, que terminou suas “gestões” no nosso continente com uma feroz tirania em Santo Domingo (hoje República Dominicana), a tal ponto que teve que ser sancionado pelos próprios reis da Espanha pelos seus excessos.

Em Bruxelas, capital da Bélgica, a justiça histórica levou a um merecido “escracho” à estátua de Leopoldo II, o rei que conquistou a sangue e fogo a região do Congo, em meados do século XIX e no começo do século XX, usando a escravidão para a exploração da borracha e do marfim, roubando crianças e massacrando. Calcula-se que assassinaram metade da população dessa região, 10 milhões (sim, 10 milhões!) de pessoas para alimentar o imperialismo belga. A estátua foi escondida em um museu. Merece destino melhor.

Nestes países europeus as sociedades são muito mais multiétnicas e multirraciais, e é uma característica comum que entre as e os trabalhadores da “primeira linha” de luta contra a pandemia (em hospitais, geriátricos, transportes, comércio) exista maioria de “não brancos”. Esta é a base social do ódio ao racismo e repressão policial que catalisou a onda expansiva do Vidas Negras Importam.

O Brasil, país com maior população negra fora da África, foi outro país de alto impacto da onda antirracista, com massivas mobilizações “antifascistas” que ocorreram em várias cidades no domingo (7), repudiando o governo Bolsonaro e os militares, com peso nas crescentes mortes pelo COVID19. Bolsonaro tem o antecedente de ter tido sua campanha eleitoral para presidente marcada com o sangue de Mestre Moa, mestre de capoeira, negro, assassinado por um bolsonarista logo após o primeiro turno das eleições de 2018. Já na presidência, suas expressões machistas, anti-operárias, racistas e macartistas, se combinaram com a sua desastrosa gestão da pandemia, que já soma quase 42.000 mortes e localiza o Brasil como o segundo país com mais vítimas no mundo. Como em outros países, as e os negros no Brasil têm o dobro da possibilidade de morrer pelo COVID19 que os brancos. Como consequência, o repúdio a Bolsonaro é mais elevado entre negros e mulheres do que na população em geral.

Mas a “oposição” dentro da própria direita golpista não tem comportamento melhor. João Pedro foi o menino negro assassinado pela polícia do Rio de Janeiro, onde governa Wilson Witzel, um dos pilares do “bonapartismo institucional”, opositor a Bolsonaro. E na “esquerda”, o PT contribuiu a partir dos seus governos, com algumas medidas para as negras e negros, para manter a estrutura de opressão. Se existe algo no qual sofrem especialmente as e os trabalhadores negros, é a terceirização, que triplicou sob os governos petistas.

3. Emerge uma contratendência à xenofobia nacionalista reacionária da extrema direita

As estátuas não são só símbolos. O interessante é que essas mobilizações que questionaram os valores políticos, culturais e ideológicos constitutivos das potências imperialistas “democráticas” (a história da Alemanha e o fascismo são outra coisa), são uma contratendência às correntes xenófobas de extrema direita que vinham alimentando o ódio aos imigrantes, como parte da construção de um nacionalismo reacionário. Setores arruinados da pequena burguesia e da classe operária se viram seduzidos por esses discursos e correntes políticas que se apresentam como alternativas aos regimes políticos “globalistas”, supostamente “democráticos”, administradores dos planos de ajuste e flexibilização do trabalho das últimas décadas, pela direita tradicional e a centro esquerda social-democrata. Estes movimentos foram alentados por setores da grande burguesia, meios de comunicação e alas das burocracias sindicais. Os partidos que encabeçaram o Brexit na Grã Bretanha, o próprio Trump nos Estados Unidos (que emergiu como um “outsider” no Partido Republicano), a Frente Nacional na França, Alternativa pela Alemanha, entre outros, com expressões muito fortes em países do leste europeu, expressam esse fenômeno. Frente a eles é muito valioso que setores da juventude e dos trabalhadores repudiem o racismo e a tradição imperialista, colonialista, escravista da grande burguesia defendida não apenas pela extrema-direita, mas também pelas forças políticas “democráticas” e “globalistas”. Até o novo líder do Partido Trabalhista inglês, Keir Starmer, declarou que derrubar a estátua de Colston foi algo “completamente errado”.

Como escreveu Owen Jones no The Guardian: “Na medida que caem mais estátuas, é lembrada uma nova história: cada uma joga uma nova luz inquietante no presente. Entender isso ameaça nosso status quo injusto; é isso que os detratores realmente temem, não a derrubada dos tiranos racistas passados.”

4. Os resgates e mecanismos de contenção social atuando no limite

Joseph Stiglitz e Hamid Rashid assinalaram, em um artigo recente, que as respostas fiscais e monetárias representam mundialmente 10% do PIB global, um valor estratosférico. Porém, essa massa de dinheiro não se dirige ao consumo e ao investimento, mas está indo engrossar o capital líquido acumulado nos bancos (“armadilha de liquidez”), que por sua vez alimenta a bolha financeira. Assim, desde o buraco em que caíram as bolsas no início da pandemia, nos primeiros dias de março, o índice S&P 500 cresceu assombrosos 45%, recuperando grande parte da perda, enquanto o desemprego crescia e as previsões econômicas eram cada vez mais sombrias.

Assim, não surpreendeu ninguém a queda de sexta-feira 12, a maior desde março: -6% no índice Dow Jones. No entanto, essa “correção” é uma pequena desinflada da enorme bolha de capital fictício (que corresponde a títulos, como bônus e ações, que geram juros sem relação com qualquer produção real).

O economista marxista britânico Michael Roberts escreve: “Entre 1992 e 2007, as injeções monetárias do banco central (“power money”) dobraram como parcela do PIB global de 3,7% da ’liquidez’ total (dinheiro e crédito) para 7,2% em 2007. Ao mesmo tempo, empréstimos e dívidas bancárias quase triplicaram como parcela do PIB. De 2007 a 2019, o power money dobrou novamente sua parte da ’pirâmide de liquidez’. Os bancos centrais têm impulsionado o boom do mercado de títulos e ações. Então veio a Covid-19 e o fechamento global que levou as economias a um profundo congelamento. Em resposta, as planilhas de balanço dos bancos centrais do G4 voltaram a crescer, em torno de US$ 3 tri (3,5% do PIB mundial), e essa taxa de crescimento provavelmente persistirá até o final do ano, à medida que os vários pacotes de liquidez e empréstimos continuam sendo ampliados e aplicados. Portanto, o power money dobrará novamente até o final deste ano. Isso levaria o power money global a US$ 19,7 trilhões, quase um quarto do PIB nominal mundial, e três vezes maior enquanto parcela da massa monetária de liquidez, em comparação com 2007”.

A OCDE prevê uma queda de -6% na economia mundial de -7,2% se houver um segundo surto pandêmico. Lembremos que o FMI havia previsto há umas semanas uma queda de -3% no PIB mundial, que já naquele momento apresentou um duro contraste com a queda de -0,1% da economia mundial em 2009, o pior ano da última “grande recessão”. Ninguém sabe exatamente como pode se produzir uma recuperação com a força para reverter uma queda assim, ainda mais quando não existe certeza de quais setores poderão voltar a produzir plenamente, como se comportará o consumo, o investimento ou o comércio internacional. Apenas um demagogo como Trump pode pensar que uma leve baixa no índice de desemprego indica que tudo está voltando “à normalidade”.

A fantasiosa montanha de resgates, dirigidos centralmente às empresas, bancos e financeiras, destinou uma parte à contenção social, que consideram essencial para evitar revoltas e revoluções.

Com muitas desigualdades, na maioria dos países estão operando fortes mecanismos de assistência às e aos trabalhadores e os mais pobres, impulsionados pelos governos que buscam amortecer a brutal queda econômica que está se produzindo e dilatar ou frear o salto no desemprego e na pobreza. Esses mecanismos estão projetados para acabar, a maioria, em julho ou agosto. Vejamos:

Nos EUA, 70 milhões de pessoas (que ganhavam menos de 75.000 dólares ao ano) receberam cheques de 1200 dólares e, segundo o Departamento do Trabalho, cerca de 21 milhões receberam o seguro desemprego de 600 dólares por semana desde que começou a pandemia (ultrapassando 44 milhões de registrados). Muitos atribuem a queda na taxa de desemprego entre abril e maio, em parte, à reabertura, mas também ao fato de os efeitos dos planos de assistência mostrarem seus efeitos só em maio. Um programa para pequenas e médias empresas (PPP, programa de participação de cheques de pagamento) estabelece por exemplo que, se os patrões mantiverem a folha de pagamento, os empréstimos podem se transformar em subsídios (sem devolução). De qualquer forma, os números (13,3 ou 16 segundo a correção de possíveis “erros de registro”) são claramente superiores aos 10% de desemprego que foi o pico após a última crise de 2008, e a crise ainda parece longe de seu ápice. Todos se perguntam o que acontecerá quando se encerrarem os planos de ajuda. Os republicanos agora não querem votar uma nova rodada de assistência, porque sustentam que a economia está se “reativando”. Por isso, Paul Krugman se pergunta se a boa notícia (a baixa do desemprego) acabará destruindo empregos caso o Congresso resolva não renovar os subsídios.

Em muitos países, estão em operação planos que, por um lado, estabelecem aportes mínimos para os que não tem nada (chamam de “renda universal” no Brasil, IFE na Argentina, ambos por volta de 100 dólares) e, por outro lado, subsídios para os que estão suspensos em suas tarefas. Na França, além dos 840.000 desempregados já reconhecidos (o que significou um aumento de 22% no desemprego, cuja taxa chegaria a 11,5% no fim do ano), há 8,6 milhões de trabalhadores (10 vezes mais que os desempregados) em “paralisação parcial”, trabalhando menos horas, com menor salário, mas recebendo um subsídio do estado que cobre a diferença (similar ao Kurzarbeit implementado na Alemanha), que agora foi reduzido a 85% do salário.

Isso fez com que o salto em novos desempregados durante a pandemia tenha sido forte, porém menor que nos Estados Unidos, onde os regimes de trabalho são mais flexíveis (por exemplo, não existe indenização legal por demissão). No Estado Espanhol, um mecanismo similar ao francês são os ERTEs (Expediente de Regulamento do Emprego Temporário) que chegam a 3,5 milhões de trabalhadores, que se somam aos 3,85 milhões de desempregados (14,4%). Junto com a Grécia, são os países da UE com maior taxa de desemprego. Além disso, existem mais de 2 milhões de pessoas que recebem a “renda mínima” que varia de 500 a 1200 euros (uma família típica precisa de aproximadamente 3 mil euros). Também existem ajudas a pequenos comércios, suspensão de desalojamentos por falta de pagamento de aluguéis, crédito para pagar os aluguéis e é claro, as ajudas para distintos setores da economia (começando pelo setor do turismo).

Dessa maneira, em cada país, os governos vêm implementando enormes planos de resgate que fazem com que a dívida dos estados e os déficits orçamentários cresçam a números recordes. Com previsões de quedas muito fortes no PIB, se abre um grande debate nesses países a respeito de como sustentar os planos de assistência que seguram as empresas, bancos, o desemprego e a pobreza. Inclusive nas previsões “otimistas” de recuperação da economia em 2021 e 2022 (que igualmente são todas relativamente ruins, porque levariam anos para retornar à tendência anterior), não existem previsões de recuperação rápida do emprego, dada a enorme incerteza que pesa sobre o comportamento que podem vir a ter os ramos mais afetados (turismo, gastronomia, transportes) e mais em geral o consumo, o investimento e o comércio. Inclusive a própria pandemia deixa colocada a necessidade de maior investimento estatal em saúde pública e adequação dos distintos setores para uma reabertura (como na infraestrutura das instituições de ensino) que não seja criminosa.

Por tudo isso, os múltiplos processos de greves parciais que vimos durante a pandemia (tanto dos setores de “linha de frente” como contra fechamentos e demissões) e fenômenos como as manifestações contra o racismo e a repressão policial que temos destacado, antecipam fortes processos da luta de classes à medida que a burguesia pretenda “voltar à normalidade” e voltar a ajustar seus orçamentos estatais.

5. Unir a juventude à classe trabalhadora, única perspectiva para vencer

O movimento que vem se desenvolvendo nos Estados Unidos pela expulsão das associações de policiais (disfarçadas como “sindicatos”) das federações sindicais, não somente é uma demanda mínima contra instituições que defendem os “direitos” de seus “associados” racistas e repressores, como aponta para a necessidade de uma aliança estratégica. Lamentavelmente, as correntes “socialistas” norte-americanas, como o DSA ou o Socialist Alternative (de que pertence a prestigiosa conselheira de Seattle, Kshama Sawant), dizem que essa luta “não é importante” e que o central é “desfinanciar” a polícia. As burocracias sindicais também se opõem, porque não querem perder filiados que pagam suas cotas e porque não consideram a polícia tão “inimiga”.

A juventude que se mobiliza não terá perspectiva de triunfar sem conquistar uma aliança com a classe trabalhadora. A classe trabalhadora norte-americana seguirá presa de suas ilusões em manter suas conquistas, que já têm levado a um retrocesso enorme de suas condições de trabalho, se não buscar se renovar com o espírito de rebeldia que atravessa a juventude. Para isso, o desafio é transformar os sindicatos em forças de luta que se proponham levantar um programa hegemônico na luta contra o racismo, a repressão policial e toda política imperialista. É por isso que deve lutar a esquerda verdadeiramente socialista, nos EUA e nos demais países, como parte da luta por uma organização política da classe trabalhadora independente de todos os partidos do regime.

Por sua vez, promover a auto-organização da juventude e dos setores combativos da classe trabalhadora, com exigências aos sindicatos e entidades estudantis para que deem passos reais de luta, é fundamental para evitar que os dirigente tradicionais desviem o descontentamento para reformas mínimas que depois terminarão permitindo que tudo siga igual.

A realidade política, social e sanitária permite demonstrar a necessidade de um programa que ataque os interesses capitalistas, principalmente para que a crise não seja paga pelos trabalhadores e setores populares. Com a mesma lógica que Leon Trotsky levantava no Programa de Transição a respeito da necessidade de lutar pela expropriação concreta de “certos ramos da indústria” que conduza ao “programa socialista (...) da derrubada política da burguesia e da liquidação de seu domínio econômico “, em momentos assim existe um setor central e muito exposto que está chamado a atacar os bancos e todo o sistema financeiro.

O mesmo Trotsky assinalava, há mais de 70 anos, algo que não fez mais do que se acentuar: “O imperialismo significa a dominação do capital financeiro. Ao lado dos consórcios e dos trustes, e frequentemente acima deles, os bancos concentram em suas mãos a direção da economia. (...) Organizam milagres da técnica, empresas gigantescas, trustes potentes e organizam também a vida cara, as crises e o desemprego. Impossível dar qualquer passo sério a frente na luta contra a arbitrariedade monopolista e a anarquia capitalista se deixa-se as alavancas de comando dos bancos nas mãos dos bandidos capitalistas. Para criar um sistema único de investimento e de crédito, segundo um plano racional que corresponda aos interesses de toda a nação, é necessário unificar todos os bancos em uma instituição nacional única. Só a expropriação dos bancos privados e a concentração de todo o sistema de crédito nas mãos do Estado colocará nas mãos deste os meios necessários, reais, isto é, materiais, e não somente fictícios e burocráticos, para a planificação econômica”.

Dita planificação econômica deve envolver respostas concretas para o desemprego e a maior precarização do trabalho que os capitalistas pretendem impor. Junto à expropriação e colocação em funcionamento sob controle dos trabalhadores das empresas que fechem ou demitam, se coloca uma luta comum de empregados e desempregados pela redução da jornada de trabalho sem redução salarial e em defesa de planos de obras públicas sob gestão dos trabalhadores, como formas de acabar com o desemprego.

Preparar, com esse programa e essa estratégia, os setores mais conscientes e combativos da juventude e da classe trabalhadora que hoje se mobilizam é a tarefa do presente para gerar as engrenagens que conectem com os milhões que sentirão a necessidade de lutar quando entrarem em crise os mecanismos de contenção social. Esse processo nos permitirá confluir com grupos, correntes e ativistas para forjar juntos partidos revolucionários a nível nacional e um partido mundial da revolução socialista a Quarta Internacional.

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Fredy Lizarrague

Dirigente Nacional do PTS da Argentina
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