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Os jovens mineiros que mudaram a MPB: 50 anos do álbum Clube da Esquina

Pedro Gronga

Os jovens mineiros que mudaram a MPB: 50 anos do álbum Clube da Esquina

Pedro Gronga

Estamos próximos aos 50 anos do lançamento do disco que mudou a história da música brasileira. Clube da Esquina foi um álbum lançado em março de 1972, formado por um grupo de músicos mineiros mostrando a capacidade da subversidade e inovação da música brasileira.

O nome Clube da Esquina surgiu em homenagem ao ponto de encontro, uma esquina em Belo Horizonte no Bairro Santa Tereza, onde os jovens se encontravam no final da década de 60. Se reuniam ali com violão, pra tocar, jogar futebol, paquerar e viver a juventude belorizontina. Quando Milton Nascimento volta de viagem para Belo Horizonte, vendo aqueles jovens, começa a parceria que criou as composições que hoje fazem parte de uma das maiores obras artísticas da MPB. Tendo entre seus principais autores Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Márcio Borges, Toninho Horta e Flávio Venturini.

Milton Nascimento vinha de Três Pontas, cidade no interior de Minas Gerais, onde morava com sua família e passou sua infância com grande influência musical, principalmente por parte de sua mãe, que era professora de música. Na capital mineira, conheceu os irmãos Borges com os quais compôs grande parte das músicas que compõem o álbum e criou-se uma das parcerias mais lembradas da nossa música. Lô Borges, que até então tinha seus 20 anos e tocava em uma banda cover de Beatles, compôs grandes músicas do álbum como “Trem Azul”, “Paisagem da janela” e “Um girassol da cor de seus cabelos” a qual compôs com seu irmão Márcio. Então os jovens, a convite de Milton, foram para o Rio de Janeiro compor o time que montaria o álbum que colocaria a música mineira no cenário cultural brasileiro.

Foto: Divulgação

Era o ápice da repressão no regime da Ditadura Militar, as composições daqueles jovens não representavam apenas a voz do interior mineiro mas a voz da juventude do Brasil que ansiava pela mudança, pela liberdade artística e de expressão. O final dos anos 60 foi explosivo em todo o mundo, marcado por passeatas por direitos nos EUA, protestos contra a guerra do Vietnã e barricadas em Paris, o “maio de 68”, como reflexo de uma onda de reação da classe trabalhadora e da juventude questionando as instituições sociais e o sistema. O grupo de artistas mineiros não era diferente, se puseram explicitamente contra o regime por meio de suas composições subversivas para época, criticavam o cenário mórbido da ditadura, a censura, a supressão da arte e a repressão.

“Não vi acontecer depois algo que chegasse aos pés do que acontecia naquela época. Era um tempo em que não se dizia ‘mídia’, um tempo de censura e ditadura. Nós éramos jovens e só nos interessava a Revolução. Abominávamos a ignorância da direita e a burrice de certos setores da esquerda. Queríamos mudar o mundo e estivemos perto de mudá-lo em 1968. Ou, pelo menos, acredito que nunca o mundo mudou tanto em tão pouco tempo. E a música brasileira mudou para sempre. O Clube da Esquina nunca foi perdoado por não ter feito média com a ‘mídia”. - Ronaldo Bastos (co-produtor do álbum).

Músicas como “Nada será como antes” (Milton/Ronaldo Bastos) foi considerada “um autêntico libelo de oposição ao regime vigente”, que denunciava o drama sentido pelos exílios da época. “San Vicente” refere-se a um sentimento aflito em uma cidade latina, F. Brant afirmou ainda que a letra dela “fala da América Latina e de tudo que acontecia por lá, mas eu consegui colocar de uma maneira mais amena.” “Tudo o que você podia ser” (Lô/Márcio Borges) fala do desejo por mudanças pelo retorno da luta dos movimentos sociais e estudantis e faz referência à Zapata, líder revolucionário mexicano e ao medo causado pelo AI-5. E várias outras que representam esse caráter contracultural, de luta e de denúncia, algumas mais explícitas outras menos.

O álbum junta gêneros como Samba, Rock Psicodélico, Jazz, Bossa Nova, Folk, com grande influência dos Beatles e da MPB da época, esta última que até aquele momento era muito focada em São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. Com música em espanhol e elementos percussivos africanos, o álbum mostra uma perspectiva de retomada da nossa história e em diálogo com os irmãos latinos que também vivam sobre regimes ditatoriais na época. A história do Clube da Esquina é a história de um das maiores transformações artísticas da história da música brasileira, assim como também foi a Tropicália. É a história de jovens vindos do interior de Minas Gerais que falavam por toda uma geração em suas músicas, falavam de amor mas também de medo, de luta e de mudança.

O legado ficou até hoje influenciando artistas internacionalmente, com suas harmonias diferentes, melodias comoventes e letras disruptivas. No Brasil, existe a história da música antes e depois do Clube da Esquina. Por mais que não seja exposto, falar de Clube da Esquina é falar sobre resistência da arte e seu papel de denúncia. Que essa história possa ser levada e ainda transformada por vários outros artistas deste país, por meio da arte, da organização e do combate. Por uma arte livre, disruptiva e revolucionária!

“Mensageiro natural de coisas naturais,

Quando eu falava dessas cores mórbidas,

Quando eu falava desses homens sórdidos,

Quando eu falava desse temporal,

Você não escutou”. (Paisagem na Janela - Milton Nascimento, Lô Borges)


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Pedro Gronga

Estudante de Ciências Contábeis da UFMG
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