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Os humanos: maus por natureza?

Será que o homem sempre é mau por natureza? Lobo do próprio homem, como queria Hobbes? O que é que há de ideologia nessa ideia tão funcional para os poderosos?

Gilson Dantas

Brasília

quarta-feira 10 de agosto| Edição do dia

Muita gente ainda hoje acha que a violência gratuita e a guerra de uns contra os outros é da natureza do ser humano, que sempre foi assim desde que a humanidade é humanidade, e que Hobbes - o estudioso inglês do século XVII - tinha razão quando dizia que o “o homem é lobo do próprio homem”, e ponto [no caso especial deste intelectual, ninguém vai estranhar que ele fosse o grande defensor do Estado ditatorial do seu tempo: para pacificar os lobos de fora do círculo do poder, os fracos, tenhamos um Estado forte ... nosso].

Naquilo que aqui nos interessa, em linguagem simples, a filosofia que está sendo mencionada aqui é aquela, clássica e surrada de que uma vez lobo, sempre lobo e, portanto, será sempre assim: estamos condenados a viver da violência e pela violência.

Não é preciso ser muito criativo para imaginar que uma ideia dessas é do maior agrado dos ricos e poderosos. E tem enorme serventia política.

É extremamente funcional para eles: contam com a polícia, o exército, portanto o monopólio da violência, da mídia e das universidades para ludibriar, coagir e, no limite, vencer os pobres que resolverem “se tornar” violentos.

Mas e se for verdade, se for real que no fundo o que existe é uma luta de interesses e tudo não passa de uma “luta pela sobrevivência” onde os mais fortes vencem sempre os mais fracos?

O problema é que não é verdade.

É uma ideologia funcional para quem está por cima, para as tiranias dos tempos de Hobbes, para a atual patronal, como foi dito, mas não passa disso: da mais pura ideologia.

Marx e Engels explicaram isso repetidas vezes.

Em uma das cartas de Engels a um intelectual que era simpático à causa dos explorados, Engels argumenta que, mesmo na natureza, nem sempre essa “lei” vigora. Mas que ainda que prevalecesse, ainda que na natureza não existisse também cooperação, parceria e comunidade entre animais, seria errado transpor tal “lei” para a sociedade humana.

E isso ao menos por duas razões. Em primeiro lugar porque enquanto é da natureza dos animais serem coletores, ou seja, eles apenas recolhem o que acham na natureza, uma semente, uma fruta ou até mesmo outro animal, os humanos vão além e produzem, fabricam aquilo de que necessitam através do trabalho, tanto na agropecuária quanto na indústria.

Só por isso, por conta dessa diferença qualitativa já não é razoável transpor leis da natureza para a sociedade.

Mas existe uma segunda razão: a sociedade humana, desde que se desprendeu da natureza através do trabalho e passou a produzir seus meios de sobrevivência, rapidamente passou a ser capaz – ao desenvolver os meios de produção – de produzir muito mais do que o indispensável. Produzia o que comer, mas também produtos para seu prazer, por exemplo. Se alguém quiser falar em “luta pela sobrevivência”, vai ter que falar, para ser correto, também, em “luta pelo prazer”.

Portanto, temos uma complicação para o pensamento dos Malthus, dos Hobbes, de qualquer neoliberal e também para qualquer vigarista moderno que gosta de falar que pobre nasceu pobre e tem que morrer pobre já que ele é um perdedor na “luta pela sobrevivência”.

E mais: somente os humanos – dentre os animais – chegam a produzir mas também a desperdiçar o que produzem. Somente os humanos produzem uma maciça quantidade de riqueza e meios de desenvolvimento que e em seguida queima, por exemplo, na guerra. Tudo que foi destruído na II Guerra, em recursos humanos e materiais, daria para alimentar vários planetas-Terra por várias gerações, com conforto e qualidade.

Então como ficam esses ideólogos de que o homem é um animal como qualquer outro? Que animal faz aquelas coisas? Que animal produz muitíssimo mais do que o indispensável? Que animal – sejamos sérios – sequer chega a produzir um novo mundo de tecnologia a cada geração? Ah, dirão alguns antropólogos mal formados, tudo bem, mas no início dos tempos éramos uns selvagens brutos, lutando entre si.

Engels discorda: “Não estou de acordo de que ´a luta de todos contra todos´ tenha sido a primeira fase da evolução humana. Em minha opinião, o instinto social foi um dos principais motivos da evolução do homem a partir do macaco. Os primeiros homens – até onde alcança nossa visão do passado - terão vivido em bandos”.

Sim, em coletividades, cooperando, isso já foi demonstrado em inúmeras pesquisas antropológicas.

Agora podemos então tirar o véu principal da ideologia que está por trás desse discurso tão repisado e secular: se os humanos são capazes – com a indústria e a agropecuária – de produzir mais do que o que necessitamos, se podemos produzir, com o poder da tecnologia, o prazer para todos, por assim dizer, onde fica essa história de “luta pela existência”? O que impede a classe trabalhadora de produzir abundância e prazer para todos? Nada mais nada menos que os donos do poder, aquela pequena minoria que se diz dona das fábricas, das fazendas, da riqueza e exclui a ampla massa que trabalha.

Portanto, estamos diante de um problema não de luta pela sobrevivência e sim de luta de classes. De pura e simples luta dos ricos contra os pobres que obviamente produzem toda a riqueza realmente existente.

Como argumentou Engels: “Que sentido tem esse charlatanismo da tal ´luta pela sobrevivência´? Como luta pela existência só podemos entender aquela em que a classe produtora arrebate a direção da produção e da distribuição da classe em cujas mãos ela se encontra até agora, classe que, aliás, já se mostrou incapaz de exercê-la e isso vem a ser precisamente a revolução socialista. E basta que se dê uma olhada sobre a marcha anterior da história como uma série contínua de batalhas de classe para que se veja claramente até que ponto é superficial a concepção que quer fazer dessa história uma variante ligeiramente modificada da ´luta pela existência”.

E a pergunta que se segue é inevitável: o que pode impedir que aqueles que produzem dirijam a produção a seu favor, em prol da comunidade humana, daqueles que vivem do trabalho? E de criar uma proteção social ampla e universal para todos os idosos, crianças e trabalhadores [incluindo aqueles que venham a ser vítimas de alguma fraqueza temporária ou definitiva]?

Portanto estamos diante de um problema apenas político e que os ideólogos do sistema querem por tudo transformar em problema filosófico [o egoísmo é eterno] ou até biológico [os homens, como animais que são, se movem por instintos biológicos e ponto] ou teológico [soframos aqui que no céu seremos recompensados].

Portanto “lutemos pelos prazeres”, para todos, como diz Engels, colocando a produção, a cultura, a mídia e o aparelho escolar na perspectiva da revolução dos trabalhadores.

E ponhamos abaixo essa ideologia capitalista de que “pobre nasceu para ser escravo” e eles, os burgueses, para os prazeres e o luxo e nos locupletemos todos [eles, na verdade] já que o homem é sempre mau.

Na verdade, nem pobres, nem ricos, lutemos por uma sociedade comunista, de fato.

Referência: Carta a P Lavrov, de 12/11/1875 [a ser brevemente publicada em Cartas filosóficas (Antologia) de Marx e Engels, pela Iskra/Centelha]. O papel da violência na história, Engels, Edições Iskra/Centelha.




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