Gênero e sexualidade

ESPECIAL 8 DE MARÇO

Os grandes desafios além da ciência - os trabalhos desconhecidos de mulheres que mudaram o mundo

Aproveitando a compilação de textos para a contagem regressiva de 08 de março, iniciaremos um uma série de matérias, que serão publicadas no Esquerda Diário, sobre o trabalho e a vida de mulheres que impulsionaram o desenvolvimento científico em diversas áreas do conhecimento, mas que lutaram contra obstáculos incontáveis. Destacaremos não só as dificuldades que enfrentaram, mas também a importância de seus trabalhos para as mudanças da ciência e, consequentemente, para a sociedade. E para o início desta série será abordado de forma geral a formação das mulheres e o machismo nas áreas do conhecimento.

Rafaella Lafraia

São Paulo

sexta-feira 3 de março| Edição do dia

Durante muitos séculos a educação formal era algo exclusivamente para o homem, enquanto as mulheres eram colocadas em papel de submissão e de propriedade dele. Apesar dos avanços, dentre eles a participação das mulheres na elaboração e produção do conhecimento científico, a mulher continua enfrentando obstáculos como a desigualdade de oportunidades e o preconceito dentro desta área intelectual e de tantas outras.

A criação, a educação escolar – na qual há diferenciações de funções e estímulos nas áreas do conhecimento de acordo com o sexo da criança – a baixa representação de mulheres em algumas profissões e a imposição da obrigatoriedade exclusiva das tarefas domésticas desde a infância, são algumas das questões que servem de base para determinação do estereótipo masculino como detentor do conhecimento para as áreas do conhecimento.

Tal questão, abordada em “A força dos estereótipos”, de Bruno de Pierro, que trata sobre o estudo elaborado pela filósofa Sarah-Jane Leslie, professora do Departamento de Filosofia da Universidade de Princeton, explora a relação entre a baixa participação da mulher em certas áreas da ciência e a ideia do estereótipo de que somente talentos inatos determinam as carreiras científicas. De acordo com os autores, as mulheres sofrem uma pressão social e cultural que lhes passam a ideia de que não possuem uma aptidão natural para a ciência, fazendo com que as mesmas evitem carreiras científicas, principalmente as mais matemáticas, como áreas de engenharia e física. Como Sarah-Jane Leslie aponta, “essa mensagem é combinada com estereótipos arraigados em nossa cultura que diminuem a diversidade de gênero na ciência”.

De acordo com Fabrício Marques, em “O Poder Feminino”, estudos apontam evidências de origens sociais e culturais para que ocorra uma diferenciação no desempenho e interesses distintos entre homens e mulheres. Assim, o estereótipo da aptidão masculina para ciência provoca um afastamento da mulher das áreas científicas no momento de sua escolha profissional. Ainda neste artigo, destaca-se o estudo elaborado por Brian Nosek, professor de psicologia da Universidade de Virginia dos Estados Unidos, realizado em mais de 34 países no ano de 2009, no qual evidenciou que em países com a formação mais enraizada nos estereótipos, os meninos possuem melhores notas dos que as meninas nas matérias de ciência e matemática. Para o professor, “os estereó­tipos e o abismo entre os sexos em sua capacidade de êxito na ciência se reforçam mutuamente” e que “quando as pessoas veem que os homens trabalham mais nos campos científicos, se desenvolve um preconceito segundo o qual os homens são mais aptos para as ciências”.

Um exemplo bastante representativo desses estereótipos machistas estarem enraizados desde as altas esferas acadêmicas, foi a polêmica declaração, em janeiro de 2005, do reitor da Universidade de Harvard, Lawrence Summer (também ex-secretário do Tesouro Americano no governo de Bill Clinton), que afirmou durante uma conferência sobre “As mulheres e a ciência”, organizada por um centro de pesquisa em Cambridge, que a baixa participação de mulheres na ciência e em áreas matemáticas era devido a inaptidão natural que as mulheres possuem para tais áreas. Segundo o jornal Boston Herald, Summers teria afirmado em seu discurso que o homem supera a mulher devido a características genéticas e não somente por experiência.

Depois do ocorrido, para se retratar pela sua fala machista, Summers ainda afirmou que a falta de mulheres nas áreas acadêmicas acontece devido ao fato das mulheres não poderem conciliar a maternidade com as 80 horas de trabalho semanal necessária. Afirmação essa que não deixa de ser verdadeira, entretanto essa realidade acaba sendo tratada como uma explicação para o fato do afastamento das mulheres do mercado, e não como um problema, já que a sociedade machista incube a responsabilidade sobre os filhos e as tarefas domésticas somente às mulheres.

Desde as primeiras mulheres que lutaram para estudar e praticar ciência, a mulher ainda segue enfrentando os obstáculos dados pela cultura machista e pelo controle que o capitalismo exerce sobre a ciência e as relações sociais. Os estereótipos dados pelo machismo, que destroem a autoestima das mulheres e dificultam sua formação acadêmica e suas condições de trabalho, assim como abordado em “Refletir as mulheres na ciência: quantas, quais e em que condições”, as coloca em uma posição muito abaixo do que realmente são capazes de construir, afetando desta maneira diretamente o desenvolvimento científico.

A ciência é o meio produzido pelo ser humano para questionar e investigar tudo que o cerca, ou seja, ela deve ser livre como ferramenta para a sua evolução. Livre para evoluir, defendendo, explorando e conhecendo as relações naturais que cerceiam a vida. Assim, a luta pela posição da mulher para exercer a sua paixão pelo questionamento científico, também esta de braços dados com a luta pela libertação da ciência do controle capitalista.




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