Mundo Operário

ENTREGADORES

Os entregadores podem decidir os rumos da sua luta com uma assembleia nacional auto-organizada

Neste novo dia de paralisação nacional dos entregadores, é fundamental que esta ação permita ampliar a organização destes trabalhadores, para que eles próprios possam decidir e coordenar cada uma das ações para vencer em suas reivindicações.

sábado 25 de julho| Edição do dia

Neste 25 de Julho, os entregadores de aplicativo paralisaram novamente suas atividades e em vários Estados do país se preparam para novas mobilizações. Nas redes sociais se expressa novamente um enorme apoio da população à luta dos entregadores e um expressivo boicote aos pedidos por estas empresas. Esta nova ação dos entregadores precisa ser um ponto de apoio para ampliar nacionalmente a organização destes trabalhadores, através de uma assembleia nacional onde os próprios entregadores possam decidir cada passo da luta, evitar que setores oportunista se apropriem deste movimento, e golpear com um só punho a precarização do trabalho imposta por Bolsonaro, Guedes e os empresários capitalistas.

Como viemos explicando no Esquerda Diário, a onda “antifascista” e “antiracista” que tomou nosso país semanas atrás tem ligação direta com os movimentos internacionais, a partir da revolta negra nos EUA, e isso teve sua expressão entre os entregadores também (que são maioria negros), com o aparecimento dos “entregadores antifascistas”. A repercussão, inclusive midiática, que o grupo ganhou é parte dessa onda "vidas negras importam!" e ajudou a fazer o movimento ganhar mais força, tendo amplo apoio da população, que não fez pedidos no dia, fez avaliações negativas nos apps e ainda colocou o #BrequeDosApps nos assuntos mais comentados do Twitter.

A partir da paralisação internacional do dia 1º de Julho, com enorme repercussão em todo o país, novos atores políticos começaram a atuar junto aos entregadores, há uma série de associações de autônomos em todo o Brasil, com diferentes posicionamentos e visões políticas. E há ainda sindicatos, como o Sindimoto de São Paulo, dirigido pela UGT, articulado com uma série de vereadores. Vários parlamentares, com diversos projetos de lei, buscando responder à enorme força que milhares de entregadores de aplicativo mostraram nas ruas.

Entre estes projetos, há alguns apoiados pelo PSOL, que inclusive foi parte de organizar uma reunião com Rodrigo Maia (presidente da câmara dos deputados) e algumas figuras regionais de entregadores, na qual foram apresentadas as pautas do movimento. Por um lado, a reunião ocorrida dias atrás é expressão de que a força do movimento dos entregadores já está fazendo tremer agentes do regime político como Maia, que estão sendo obrigados a se debruçar sobre esse tema. Por outro lado, deve nos acender um importante alerta, uma vez que Maia foi exatamente o articulador dos últimos principais ataques aos trabalhadores, como a reforma trabalhista (que aumentou enormemente o número de subempregados no Brasil) e a reforma da previdência e não pode responder a fundo as demandas da classe trabalhadora.

É preciso que os próprios entregadores possam debater um plano de luta para vencer, através de uma assembleia nacional com representantes eleitos de todo o país

Neste importante momento onde os trabalhadores de entrega estão na linha de frente da luta contra a precarização do trabalho, com reivindicações justas e legítimas que visam garantir condições de trabalho e de vida para sustentarem suas famílias em meio a pandemia, é fundamental refletir quais são os caminhos para que o movimento alcance suas reivindicações e os obstáculos que há pela frente.

Se por um lado como colocamos acima, cada dia que passa, mais setores buscam se ligar aos entregadores com diferentes tipos de iniciativa, é não apenas natural, mas bastante correto que um setor dos trabalhadores de entrega olhem com desconfiança do por que tanto interesse em apoiar estes trabalhadores, ainda mais quando se trata de pessoas como Rodrigo Maia, que nunca tomou nenhuma medida de apoio, mas sim de ataques à nossa classe.

Certamente um dos maiores problemas do conjunto da classe trabalhadora neste momento é o freio que as centrais sindicais, e milhares de sindicatos pelo país, vem desenvolvendo impedindo com que toda a indignação com os custos da pandemia fruto da catastrófica condução da crise sanitária, em primeiro lugar por Bolsonaro, Mourão e os militares, mas também acompanhada pelos prefeitos e governadores que até agora não garantiram sequer testes massivos e EPIs, possa se transformar em uma ação independente da classe trabalhadora para que não sejamos nós a pagar pela crise seja com nossas próprias vidas pela Covid-19, ou com a precarização dos nossos trabalhos ou mesmo as balas da polícia que continuando matando jovens negros todos os dias em nosso país.

Se coloca então aos entregadores um enorme desafio de transformar cada uma das suas mobilizações, o enorme apoio da população, e a sua enorme disposição de luta em uma organização cada vez superior, capaz de articular e coordenar nacionalmente a luta, podendo decidir eles próprios cada uma das ações e os próximos passos, podendo servir de exemplo para tantas outras categorias de como se auto-organizar para enfrentar a precarização do trabalho, que os governos e capitalistas querem generalizar para o conjunto dos trabalhadores.

Quem tem medo das assembleias e da auto-organização dos trabalhadores?

Certamente pelo caráter amplo e heterogêneo da categoria erguer uma assembleia nacional não é uma tarefa simples. Além dessas próprias particularidades, há ainda muitos setores que buscam desviar a heróica luta dos entregadores para saídas institucionais, projetos de lei como o da Tábata Amaral que depois de protocolado quis saber a opiniões dos entregadores. Pelo que temos visto, o Sindimoto de SP também tem, e muito, medo de que os entregadores se organizem e percebam que a direção desta entidade não está nem aí para suas demandas. Esse sindicato tem se colocado contra esse tipo de articulação nacional e buscado a justiça do trabalho, no TRT de São Paulo, para que seja reconhecido como verdadeiro representante dos entregadores de app, e inclusive a reunião marcada no último dia 14 (que não ocorreu por problemas de internet) com as empresas de aplicativos contava com esta entidade enquanto representativa do movimento. Apesar de ter sido colocado no TRT como representante dos entregadores, a atuação deste sindicato tem sido absolutamente contrária ao movimento.

Há outros setores no movimento, dentre aquelas lideranças regionais citadas ao início (alguns destes apoiados por páginas como Treta no Trampo), se colocando contrários ao sindicato. Entretanto igualmente não criam nenhuma alternativa contra essa burocracia, como por exemplo seriam estes espaços de discussão e autoorganização das assembleias. Por essa via acabam também corroborando com o impasse organizativo em que se encontra o movimento.

Por isso, a questão de erguer um organismo nacional dos próprios entregadores, onde as diferentes formas de pensar, posições políticas e toda a pluralidade do movimento possa debater e decidir democraticamente os rumos da mobilização é uma tarefa vital para que a luta dos entregadores possa se desenvolver e que os próprios entregadores falem em seu nome, rejeitando todas as tentativas de setores oportunistas de desviar a luta para seus próprios projetos.

Neste sentido, há uma importante parcela dos entregadores que já se declaram contra o governo Bolsonaro, que veio com muita demagogia dizendo ser a favor dos trabalhadores, inclusive os mais precários, mas que na prática ataca todas as condições de vida dos trabalhadores ao atacar os sistemas públicas de saúde, educação, transporte, sem falar das suas MPs que precarização ainda mais o trabalho e da Previdência retira direito de outros milhões. A estes trabalhadores também uma Assembleia Nacional poderia ser um espaço fundamental para poder influenciar o conjunto da categoria para que as mobilizações dos entregadores possa se ligar ainda mais profundamente pela luta contra Bolsonaro, Mourão e todas estas instituições capitalistas que são verdadeiros balcões de negócios dos nossos inimigos de classe.

Nós do Esquerda Diário que viemos colocando todas as nossas energias e forças para poder divulgar e contribuir para a luta dos entregadores, queremos com este texto poder ajudar a fortalecer a organização independente dos trabalhadores para que através da própria experiência dos trabalhadores, possamos debater em comum ações que ajude outras categorias de trabalhadores a se organizarem e podermos enfrentar todo este regime apodrecido desde o golpe institucional, o que para nós do MRT significa os trabalhadores tomarem para a si a luta por uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana para que possamos não só decidir os jogadores, mas todas as regras do jogo. E assim abrir espaço para que os trabalhadores façam experiência com a democracia mais generosa possível, abrindo espaço para a defesa de uma sociedade em ruptura com o sistema capitalista.




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