Teoria

Os comentários de Lenin sobre arte e literatura:

Afonso Machado

Campinas

segunda-feira 22 de agosto| Edição do dia

Inquestionavelmente Lenin é o principal herdeiro das ideias de Marx e Engels. Sua lucidez teórica e sua visão política foram fatores indispensáveis na organização do trabalho dos comunistas: superando em leitura e eficácia os métodos de muitas correntes socialistas, o bolchevismo revela-se como uma importante escola política. Lenin não foi apenas uma das maiores cabeças do século XX, mas um autor e líder político cujas lições práticas ainda fazem a burguesia tremer na base. Entretanto, quando nos inclinamos a falar de cultura e em especial sobre arte e literatura, existe uma lamentável tendência entre alguns militantes de esquerda: estes procuram tomar comentários esparsos e opiniões pessoais de Lenin como uma espécie de manual. Esta conduta que beira o misticismo político, gera um reducionismo estético e um entendimento tacanho das relações entre arte e política. Verdadeiras bobagens tornam-se regras de um fanatismo que distorce inclusive o próprio pensamento de Lenin.

Lenin não tratou com profundidade de questões artísticas. Diante de mil e uma tarefas políticas programáticas, o revolucionário russo emitia comentários, opiniões e apresentava resoluções governamentais sobre algumas das questões culturais resultantes do big bang político proporcionado pela Revolução russa. O autor sabia que os problemas culturais ocupavam um espaço decisivo na construção do socialismo: durante os primeiros anos do governo soviético, Lenin afirmou que após a vitória política do proletariado na revolução, o centro de gravidade da luta deslocava-se em parte para a militância cultural. Sem deixar de atentar-se sobre os fatores econômicos e militares, Lenin expõe a importância do debate cultural para consolidar o poder operário.

A exemplo de Trotski, Lenin via na educação uma chave para a formação cultural do proletariado e consequentemente para o desenvolvimento histórico da literatura, da arte, da filosofia e da ciência. É neste sentido que ele aponta para os equívocos teóricos em torno do movimento de cultura proletária(cabe lembrar que o Proletkult chegou a rivalizar com o partido) e defende que o marxismo assimila e reelabora as heranças culturais do passado; tais heranças devem ser apropriadas pelo proletariado. Esta posição zela pelo fortalecimento das futuras formas artísticas, inclusive no âmbito literário: afinal, seria forçar a barra proclamar o sucesso da literatura revolucionária sem erradicar o analfabetismo, sem a possibilidade concreta dos trabalhadores assimilarem as heranças estéticas das escolas literárias do passado. Porém, enquanto os poetas e os romancistas do futuro estão indo para a escola aprender o ABC, como fica a cultura do presente? Será que as tarefas históricas do artista e do escritor se resumem a ensinar a cultura do passado, a instruir o proletariado utilizando apenas as formas artísticas do passado? Como Lenin encarava o furacão das vanguardas que colocava de ponta cabeça a arte e a literatura?

Diferentemente de Trotski, Lenin não tinha lá muita intimidade com a arte moderna. Ficava impaciente diante das novas experiências estéticas. Lenin se amarrava mesmo era apenas nas formas artísticas convencionais: ele afirmou que gostava de autores como Shakespeare e Byron, enquanto que Maiakóvski lhe dava sono. Numa homenagem que vanguardistas renderam a Lenin, um número musical realizado a partir dos apitos dos navios da frota do mar Negro, o revolucionário russo teria ficado irritado e saiu cuspindo marimbondo. O cabeça dos bolcheviques teria chegado a dizer em outra ocasião que não compreendia e não sentia o menor prazer diante de obras expressionistas, futuristas e cubistas. Estas atitudes podem levar um artista de esquerda, enraizado na ousadia estética, a se perguntar por que Lenin era tão careta em matéria de arte. Entretanto, não se pode diminuir a tremenda contribuição que Lenin apresenta para o debate cultural marxista tendo unicamente em vista o seu gosto artístico pessoal.

Erudito, Lenin sabia tanto comunicar seus gostos pessoais sobre arte quanto identificar componentes ideológicos que poderiam desestabilizar a luta revolucionária e o governo soviético. Portanto entre a opinião particular e a preocupação em saber quando a obra de arte oculta um ponto de vista reacionário(evidentemente uma questão complexa, que pressupõe debate e não censores), encontramos um líder que embora não reconhecesse as necessidades expressivas decorrentes das novas realidades técnicas e culturais do mundo moderno, sabia da importância da arte para a classe trabalhadora. Tanto isto é verdade que ele se preocupava com a realização de manifestações artísticas que não ficassem restritas a um grupinho de iniciados, mas que se comunicassem com os trabalhadores. Esta preocupação explica porque Lenin afirmou que o cinema seria a mais importante de todas as artes: diante de uma Rússia marcada pelo analfabetismo, a linguagem cinematográfica consistia num instrumento moderno de instrução e debate. É o filme pensado enquanto estratégia pedagógica. O cinema informa: desde questões e problemas cotidianos até os momentos marcantes da história do movimento operário russo.

Um ponto problemático das declarações de Lenin sobre arte e literatura refere-se às relações entre os artistas e o partido. No conjunto das suas declarações, que estão longe de compor uma teoria estética e devem ser contextualizadas à luz das circunstâncias políticas específicas, o autor fala tanto da importância da liberdade do escritor quanto da sua subordinação ao partido . Em 1905, por exemplo, quando a largada revolucionária foi dada na Rússia, Lenin afirmou que a literatura deve tornar-se a literatura do partido. Naquele momento, a observação de Lenin foi importante por combater literatos, escritores diletantes que colocam sua obra como algo acima da luta de classes. Se por um lado a declaração de Lenin pode num primeiro olhar valorizar a politização da atividade intelectual, por outro já anuncia um malogro cultural: ao defender que a literatura deve ser uma pequena roda e um pequeno parafuso no mecanismo social democrático, Lenin acaba dando gás para a intervenção burocrática sobre o trabalho dos artistas e dos intelectuais. A participação da obra literária na construção da consciência revolucionária, não pode se dar com o peso da respiração do partido na nuca do escritor. Mais cedo ou mais tarde as tesouras aparecem junto ao muro aonde são fuziladas obras e ideias artísticas que desagradam burocratas. Um artista revolucionário não pode aceitar o cabresto de quem quer que seja.

Uma coisa é inegável: Lenin não fazia a menor ideia do que a contra revolução stalinista iria fazer com a vida cultural e política da URSS. Lenin não teve culpa se a pequena roda e o pequeno parafuso da literatura seriam utilizados de má fé pelo engenheiro de almas promovido por Stalin. Após a sua morte, Lenin foi alvo de uma procissão religiosa que o colocava como chefe dos santos revolucionários. Uma melação insuportável em forma de filmes, cartazes e poemas era cozida pela estética do Realismo Socialista para fazer de Lenin um messias e colocar os stalinistas como seus apóstolos legítimos. Em meio a este culto que não faz jus ao legado teórico de Lenin, uma declaração sua sobre literatura, retirada do contexto original, torna-se um mandamento. Por incrível que pareça, este culto ainda não desapareceu totalmente: na ânsia de apresentarem-se como revolucionários, existem alguns poucos que citam Lenin como uma prova de fé. Não é assim que se compreende o pensamento de Lenin: é preciso contextualizar os seus textos, dialogar com eles, aproveita-los e discordar se necessário. Isto inclui suas reflexões sobre arte e literatura.




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