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Os "coletes amarelos" fazem Macron recuar: façamos como os franceses na luta contra Bolsonaro

A explosiva mobilização dos "coletes amarelos" impuseram uma derrota a Macron, e indicam um caminho para os trabalhadores brasileiros contra os ajustes de Bolsonaro.

terça-feira 4 de dezembro| Edição do dia

A explosiva e incansável mobilização da população pobre e dos trabalhadores na França, que desde o dia 17 de novembro tomaram as ruas da França organizando ações radicalizadas, se enfrentando com a polícia e retomando a tradição das barricadas francesas, obrigou Macron a retroceder, forçando o governo francês a cancelar o aumento no preço dos combustíveis e da eletricidade.

Macron foi o candidato escolhido pela burguesia francesa para terminar e elevar os ataques à classe trabalhadora, que seu antecessor, o socialista François Hollande, fracassou em implementar, mesmo tendo aprovado uma nefasta reforma trabalhista.

Oriundo do mundo das finanças, Macron foi a escolha neoliberal "pró-Euro" do regime francês contra a extrema direita representada por Marine Le Pen. Uma vez no poder, entretanto, a velocidade com que o presidente francês lançou-se na implementação dos ataques foi derrubando a imagem de "invencibilidade" do Júpiter macroniano.

Com a promessa de privatizar a companhia estatal ferroviária e implementar a reforma trabalhista, ficavam expostos tanto os elementos de debilidade do presidente, como a falta de firmeza da sua base de sustentação – como analisamos aqui (França: Coletes Amarelos e os elementos pré-revolucionários da situação).

Como vemos, Macron bateu de frente com a resistência de distintos setores da população trabalhadora da cidade e do campo, que se transformou numa irrupção explosiva do movimento de massas. A entrada em cena destes setores, os chamados "coletes amarelos", foi capaz de alterar a relação de forças com que o presidente vinha se deparando, e obrigou um governo confuso e debilitado a recuar parcialmente em seu plano de ajustes para "recalcular" os próximos passos. Macron, antes retratado como "rolo compressor", foi obrigado a engolir a seco suas palavras de que não revogaria o aumento.

Isso não significa que "o jogo está ganho" na arena francesa. O governo recuou parcialmente, prorrogou a aplicação dos ajustes para ganhar tempo e tratar de manobrar as massas para fora das ruas, retomando assim a iniciativa para voltar a atacar.

É preciso aprofundar a organização e coordenação do movimento, superando a trava das burocracias sindicais e unificando verdadeiramente a poderosa classe trabalhadora francesa com a população pobre rumo a uma greve geral que paralise definitivamente o governo, e obrigue os capitalistas a pagarem pela crise. É possível questionar todo o regime político da V República francesa, e abrir caminho a uma democracia dos trabalhadores, de ruptura com o capitalismo, no coração do imperialismo europeu.

Salvas as distâncias e diferenças de cada situação, podemos aprender muito com a França. Bolsonaro saiu vencedor nas urnas, mas com importantes contradições que dificultarão a aplicação de sua agenda escravista neoliberal contra os trabalhadores.

Basta ver que sua própria base eleitoral é contrária à reforma da previdência, assim como substancialmente avessa à privatização da Petrobras e à entrega dos poços do Pré-Sal. Além do mais, as relações do novo Executivo com os "fatores reais de poder" brilham pela desconfiança, tendo Eduardo Bolsonaro de reconhecer, diante de empresários norte-americanos, que talvez "não sejam capazes de aprovar a reforma da previdência". O governo será duro na política de descarregar sobre os trabalhadores os custos da crise capitalista. Mas não terá terreno livre.

Mas mais importante que isso é entender que a luta decidida, em ações comuns e coordenadas, da classe trabalhadora aliada à juventude, às mulheres, aos negros e LGBTs, pode torcer o braço de Paulo Guedes e Bolsonaro, se seriamente tiver como objetivo enfrentar os ajustes econômicos da extrema direita, os capitalistas e o autoritarismo judiciário.

Os franceses mostram que, se lutarmos decididamente em ações comuns e coordenadas, podemos enfrentar o plano de Paulo Guedes de entregar os poços do pré-Sal às petroleiras estrangeiras, e podemos defender a Petrobras da privatização.

Mais que isso: a potência da luta que mostram os franceses, junto à classe trabalhadora aliada com a juventude, pode ser a alavanca para um programa que responda o problema de milhões de pessoas quanto à alta do preço dos combustíveis (como do gás de cozinha): uma Petrobras 100% estatal, administrada pelos petroleiros e controlada pela população, poderia impedir aumento nos preços dos combustíveis. Os franceses lutaram e impuseram um recuo a Macron. Por que não poderíamos conseguir o mesmo aqui?

Da mesma forma, podemos enfrentar seriamente a implementação da reforma da previdência. Se os professores de todo o país, que agora se enfrentam com o reacionário projeto do Escola sem Partido, se unificam e coordenam suas ações – passando por cima das burocracias sindicais traidoras e recuperando seus sindicatos como instrumento de luta – podem derrotar este projeto e compor uma enorme força junto ao conjunto dos trabalhadores para barrar a reforma da previdência.

A radicalização dos métodos precisa estar ligada a um programa que responda à altura os ataques que vem do novo governo, única maneira de não sermos pegos de surpresa pelas manobras do bolsonarismo e impormos que os capitalistas paguem pela crise.

Os franceses mostram o caminho. Façamos como os franceses, contra os ajustes de Bolsonaro, os golpistas e o autoritarismo judiciário.




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