Política

GOVERNO GOLPISTA

Os ataques que nos esperam com o fim da interinidade de Temer

quarta-feira 24 de agosto| Edição do dia

Os grandes ataques anunciados por Temer e por toda a mídia, esperados com ansiedade pelo patronato, e pelos quais a arriscada manobra reacionária do impeachment foi feita ainda não se realizaram. Evidente, no entanto, que não ocorreram ainda não por um refluxo das intenções de Temer e dos setores reacionários que o apoiaram. A grande instabilidade política que se seguiu ao impeachment é a explicação; os escândalos de corrupção e as manobras escusas para realizar o impeachment que vazaram logo depois do ocorrido, a consequente queda de ministros, os primeiros ensaios de um movimento ‘Fora Temer’, as crises entre os setores dominantes para reconfigurar sua hegemonia após 13 anos de petismo, a incapacidade de Temer de controlar e enquadrar o “centrão”, os vai-e-vens da operação lava-jato, a continuidade da crise econômica, todos esses fatores combinados a fragilidade de um governo ainda interino, num processo de impeachment que ainda podia ser revogado, impediram que Temer desse passos mais audazes rumo a destruição dos direitos trabalhistas e sociais, tarefa pela qual lhe foi cedido o poder pelos setores e partidos patronais.

Nós trabalhadores, contudo, não devemos nos enganar, os ataques foram adiados, mas certamente não suprimidos. Os patrões, através de seu novo governo, aguardam apenas uma situação mais propícia para desferi-los com toda a contundência e força que necessitam para superar a crise dentro de seu ponto de vista. É essencial aos capitalistas nacionais um ataque feroz a nossos direitos como forma de recompor sua taxa de lucro e assim poderem se inserir de forma mais competitiva na cadeia produtiva global, forma de atrair o capital financeiro imperialista para cá. Mostram assim que os ganhos dos patrões estão em contraposição a nossos direitos, que para superarem a crise que eles criaram, do ponto de vista deles é necessário que sejamos mão de obra ainda mais barata a ser explorada para seus ganhos.

Essa situação mais propícia se realizará em breve. A confirmação do impeachment de Dilma Rousseff e o consequente fim da interinidade de Temer, deve ocorrer até o final desse mês, desde que nenhuma grande (e praticamente impossível) surpresa aconteça. Fortalecido Temer certamente buscará realizar o programa para o qual a manobra arriscada e reacionária do impeachment se consumou, atacar profundamente os direitos dos trabalhadores e oprimidos. Certamente enfrentará forte resistência de nossa classe, aliada com os demais setores atacados. Para tornar essa resistência o mais efetiva possível, contudo, devemos ter claro quais as tendências políticas, econômicas e da luta de classes que tendem a se desenvolver.

Os sinais contraditórios da economia

Desde que Temer conseguiu estabelecer uma relativa, apesar de frágil, estabilidade para seu governo, após um primeiro mês convulsivo, os jornais e articulistas econômicos da burguesia vem tentando dar sinais de otimismo e recuperação na economia. Esses sinais, contudo, são frágeis, contraditórios, a maioria das vezes mais baseados nos desejos dos patrões do que em efetivos sinais de recuperação.

Partindo duma apreensão subjetivista da economia os analistas burgueses buscam construir esse cenário de que o pior da crise já teria passado baseados principalmente no índice de confiança para investimento dos empresários, que se recuperou após o impeachment, nas novas projeções do FMI, que diminuiu em alguns décimos o índice de queda da economia brasileira esse ano e afirma que ele crescerá por volta de 1,6% por cento ano que vem (baseados em que fazem essa previsão os místicos analistas burgueses? Segredo guardado a sete chaves) e em alguns poucos dados objetivos, como uma relativa melhora da balança comercial e uma pequena desaceleração na queda do ritmo industrial. Esses dados objetivos em que tentam se basear os analistas burgueses, como forma de sair de um puro subjetivismo, contudo, são muito frágeis e contestados por outros dados objetivos que os contradizem. O número de pedidos de falências em julho continuou a aumentar, as demissões continuam, o endividamento das famílias e aumento da inadimplência também; mesmo a melhora na balança comercial nos meses precedentes é um dado ainda bastante contraditório, pois pressiona uma revalorização do real e uma consequente piora na mesma balança comercial.

Isso se soma a necessidade de medidas de austeridade que o governo Temer terá que aplicar, através de seu ministro da fazenda Henrique Meirelles, que tendem a ser fatores para frear ainda mais a economia, reduzindo os gastos estatais, aumentando desemprego e diminuindo o crédito (tanto pelo aumento dos juros quanto pela limitação do crédito estatal) diminuindo a capacidade de demanda efetiva, o que possivelmente será um fator propulsionador da crise.

Esses dados contraditórios se colocam ainda no pano de fundo da continuidade da crise capitalista global. A China continua com sinais de desaquecimento da economia, com os jornais econômicos noticiando uma inicial crise nas empresas estatais de base (metalúrgicas, siderúrgicas, etc) e consequente aumento das lutas operárias contra o desemprego; a crise continua na Europa, onde as com as consequências do Brexit não se fizeram ainda totalmente presentes; a possibilidade do amento da taxa de juros no EUA ainda é um fantasma para a economia global, que passaria a sofrer com uma escassez de liquidez, que muito possivelmente se voltaria para a economia yanke; isso sem falar nas tensões geopolíticas que só tem aumentado nos últimos tempos e que são elementos perturbadores para os circuitos comerciais globais.

Assim, longe de podermos estabelecer um cenário de recuperação para a economia brasileira o que vemos é um cenário altamente contraditório, dentro de uma crise estrutural que só pode ser superada com a reconfiguração das formas de acumulação do capital no país. A tendência, sem que esses ataques passem de forma estrutural e sem uma recuperação mais decidida da economia global e dos principais parceiros comerciais brasileiros, é que a crise continue por aqui, com fluxo e refluxos.

E a partir disso temos que entender que a não linearidade no desenvolvimento da crise se reflete também de forma desigual na política e na superestrutura; as mudanças conjunturais no cenário econômico não se refletem de forma mecânica na conjuntura política. A influência da economia na política e na superestrutura em geral se dá de forma mais profunda, como tendência que se desenvolve por um período estendido. Uma melhora relativa dos sinais econômicos, por exemplo, não tende de forma mecânica a arrefecer uma crise política aberta, se o elemento estrutural é uma crise capitalista geral, como a que vivemos.

Assim, o elemento mais geral, de continuidade da crise no Brasil, tende ainda a ser elemento propulsor da luta de classes, posto que exige ataques mais contundentes da patronal, ainda não desferidos com a força necessária para superar a crise estrutural, e deve gerar resistências da classe operária.

A patronal exige os ataques

Para analisarmos o cenário do próximo período nós trabalhadores temos que ver com clareza tanto os elementos de coesão, menores, quanto os elementos de fissura, maiores, que existem no campo de nossos inimigos de classe.

Isso porque quanto maior a fissura existente nos setores dirigentes do campo inimigo, quanto maiores suas divisões, menor sua força para desferir o ataque que precisam levar a frente sobre nossa classe. Temos que ter claro para entender essas possíveis divisões que todos representam os interesses dos patrões, mas que esse representar é distorcido por seus próprios interesses como organizações políticas e que parte dessas crises entre os partidos patronais pode vir de suas disputas para se instalar na máquina estatal a partir das próximas eleições em 2018.

Frente a lentidão dos ataques prometidos mas ainda não realizados os setores concentrados da burguesia, por meio das confederações patronais (CNI, FIESP, etc) ou por meio do partido que é o mais diretamente representante de seus interesses, o PSDB, tem pressionado o governo a tomar a ofensiva.

Com as declarações do novo presidente da câmara Rodrigo Maia de que Temer seria o candidato natural do “nosso campo” caso seu governo desse certo os tucanos ameaçaram Temer, mostrando que seu papel era não buscar uma possível reeleição, mas tomar todas as medidas impopulares, atacar de forma o mais contundente todos os direitos da população, que era por esse motivo e nada mais do porque ocupava hoje o papel de presidente.

As rusgas entre tucanos, pressionando por ataques mais profundos e velozes, buscando se tornar beneficiários de uma possível retomada econômica na próxima eleição em 2018, e peemidebistas, que em seu fisiologismo e carreirismo podem tentar ser mais lentos em medidas muito impopulares, para tentar emplacar um candidato viável em 2018, podem ser um fator importante de instabilidade entre os principais partidos patronais.

“Centrão” e irracionalidade da política

A grande incógnita para a patronal para que possa desferir seus ataques por meio de seus representantes políticos é o chamado “centrão”. Formado pelos pequenos partidos reacionários de direita (PP, PSC, etc) e sendo um setor importante da câmara dos deputados, com por volta de 220 representantes, esse grupo não se une por nenhum projeto de país particular que não seja o profundo reacionarismo moral e o fisiologismo extremo, levado a graus de irracionalidade.

Sendo base de sustentação essencial do governo Temer e parte de qualquer acordo para passar os ataques mais impopulares o “centrão” fará de tudo para aproveitar cada oportunidade para chantagear o governo em troca das maiores vantagens possíveis. Fisiológico como é pode se colocar contra algumas medidas de austeridade, evidentemente não nos interesses dos trabalhadores e dos oprimidos, mas para continuar garantindo recursos para suas negociatas.

Pode também se colocar contra medidas muito impopulares de forma demagógica, tencionando crises políticas como forma de aumentar o preço de seus votos. Como franco-atiradores da política, portanto, pessoas de calibre tão curto e estofo tão roto, podem também ser parte do aumento das tensões entre os representantes da patronal.

O judiciário como ator político

Desde o final de 2015 pelo menos um novo ator veio à cena com força na política brasileira e através de sua operação lava jato tem sido peça chave no desenrolar da trama política nacional.

O judiciário, por meio de seus diferentes ‘’paladinos”, como Sergio Moro, Rodrigo Janot, Gilmar Mendes, e outros, tem cumprido papel iminente, se sucedendo seus atores no centro do palco. Buscando ser parte de uma nova configuração da hegemonia patronal no pós-petismo o judiciário pode ser um elemento catalisador de uma ainda maior crise política.

Isso porque o seu instrumento chave para buscar jogar um papel eminente é o discurso do combate à corrupção e a instrumentalização da operação lava jato e outras análogas. Contudo, esse discurso gera uma pressão social que pode ser incontrolável em certos momentos e ir para além das intenções que seus propulsores. A crise das mediações políticas através das quais a burguesia constrói sua hegemonia que já causou a operação e que pode se aprofundar pode levar a uma crise orgânica aberta, onde os dominantes não possam mais assegurar o consenso das classes subalternas a sua dominação levando a convulsões sociais profundas.

O PT, bastião da ordem

Em toda trama do reacionário impeachment o PT mostrou mais uma vez, e dessa vez de forma mais cabal do que nunca, o papel que tem no regime “democrático” burguês brasileiro. Se negando a travar qualquer luta real antes da votação do impeachment na câmara, se colocando como freio do inicial movimento Fora Temer depois do impeachment aprovado, seja diretamente, seja por meio de seus satélites no movimento social, o PT mostrou, mais uma vez, que é pilar importante do regime.

A estratégia petista depois de consumado o afastamento de Dilma tende a ser de levar uma oposição “responsável”, talvez até impulsionar um controlado e limitado movimento pelo “Fora Temer”, esperando que os ataques desferidos contra a população, mais seu discurso vitimista, o cacife para disputar as eleições em 2018, se mostrando novamente funcional para patronal como forma de controle ao movimento de massas depois que o “serviço sujo” já tiver sido realizado pelo governo Temer.

Para realizar tal estratégia contam os petistas com uma importante peça; Lula ainda é o político mais popular e carismático no país e com um discurso de que foi perseguido para que suas conquistas sociais fossem retiradas pode se cacifar como “salvador da pátria” nas próximas eleições presidenciais. Mesmo preso, hipótese improvável, Lula poderia usar o discurso de perseguido político, talvez aumentando ainda mais sua “aura”.

Assim, longe de ser carta fora do baralho o PT ainda tende a cumprir seu papel de contenção e traição em relação aos movimentos de nossa classe.

Organizar uma frente única de defesa ativa contra os ataques para retomarmos a contra-ofensiva

Entender as possibilidades de movimento das peças da patronal no tabuleiro político no momento em que eles preparam uma grande ofensiva é essencial para que possamos organizar nossa defesa numa correlação de forças relativamente desfavorável.

Nós trabalhadores devemos reivindicar e exigir de todos os partidos, movimentos, sindicatos, que dizem nos representar que organizem uma frente-única de defesa ativa contra cada ataque a nossos direitos, salários, empregos. É nessa frente defensiva que iremos testar quem são amigos e inimigos, quem se coloca realmente em luta e quem é apenas uma trava e um freio para nossos movimentos. Cada ataque, cada retirada de direito, cada demissão, deve ser barrada por nossa classe organizada e em luta. Não devemos deixar passar nem um único movimento de nosso inimigo de classe sem resposta.

Essa frente única defensiva deve, no entanto, imediatamente organizar também nosso contra-ataque, para, aproveitando a força moral da luta defensiva, permitir que respondamos a altura e com um programa nosso a crise criada pelos patrões. Essa resposta, que deve ser global e buscando hegemonizar todos os setores oprimidos, dando uma resposta de fundo também a suas reivindicações, passa hoje por levantar a bandeira de uma Assembleia Constituinte Livre e Sobrerana sobre as ruínas desse regime carcomido que levante um programa operário para que a crise seja superada a partir de nossos interesses, dos trabalhadores e oprimidos associados




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