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ARGÉLIA

Os argelinos se mobilizaram contra uma nova candidatura de Bouteflika

Desde 22 de fevereiro, milhares de manifestantes em todo o país estão se mobilizando na Argélia contra a candidatura anunciada por Bouteflika para um quinto mandato presidencial. Com questionamentos principalmente democráticos contra a "monarquia" de Bouteflika, presidente desde 1999, vários problemas sociais invadem o cenário político nacional.

sábado 2 de março| Edição do dia

Sob a consigna "uma república e não uma monarquia", milhares de manifestantes na Argélia quebraram o clima de censura constante no país para rechaçar a candidatura a um quinto mandato do presidente Bouteflika, no poder desde 1999. Visto como a melhor opção para o imperialismo e a burguesia nacional para virar a página da guerra civil em 1991 e a "década negra" [1], Abdelaziz Bouteflika concentrou um enorme poder com o apoio da Frente de Libertação nacional (FLN). Apesar de ter sofrido um derrame em 2013 que tornou impossível aparecer publicamente, em seus 81 anos, e de estar muito questionado, foi apresentado em 2014 para um quarto mandato, apoiado pela França e as forças imperialistas europeias que o viram como o principal freio possível para a Primavera Árabe no Maghrebe.

A maioria das consignas no momento questiona o fato de que o presidente não pode aparecer publicamente por quase 7 anos e que em sua última eleição a abstenção subiu para 50%. O movimento estudantil desempenha um papel importante, com milhares de estudantes que responderam à convocatória pelas redes sociais nas cidades de Argel, Oran, Tizi Ouzou, Bouira e Setif, contra a política do governo esperar as eleições, apesar da proibição de organizar manifestações nas cidades desde 2001. "Fora Bouteflika", "Argélia livre e democrática", com essas canções foram organizadas ações radicais e que geraram importantes tensões com a polícia. Em um país onde os jovens com menos de 30 representam 45% da população que vive uma situação de insegurança e desemprego forte (um terço dos jovens estão desempregados) os elementos de organização que rechaçam as organizações tradicionais do movimento estudantil alinhado com o poder inquieta particularmente.

Na Argélia, 70% do PIB vem das receitas do petróleo e das exportações de gás, que representam 95% das exportações. Nos últimos anos tem havido vários questionamentos ao governo sobre a distribuição da renda nacional, mesmo com mobilizações dos setores de saúde ou educação, e contra a política de ajuste aplicada pelo governo da FLN. Por exemplo as mobilizações de 2017 contra a reforma financeira que incluiu a abertura dos setores públicos para fluxos de capital privado e estrangeiro, se desenvolveu uma grande greve dos trabalhadores da área industrial de Rouiba. Por outro lado, a oposição liderada por Rachid Nekkaz, consciente do risco apresentado por uma mobilização popular e de setores da classe trabalhadora antes das eleições de abril, pediu para manterem a calma e aguardar a decisão das urnas, oferecendo suas provas de governabilidades ao imperialismo Francês. A única diferença entre os candidatos é como eles pretendem organizar a submissão ao FMI, ao Banco Mundial e à União Europeia, o principal parceiro comercial do país.

Por seu lado, a única união central, a UGTA diretamente alienada pela FLN continua a ser o principal obstáculo para a entrada da classe trabalhadora organizada em cena.

A desestabilização da Argélia inquieta a França e os europeus

Bouteflika representa para a França e a União Europeia, e também para as classes dominantes locais, uma figura que até agora conseguiu desempenhar um importante papel de contenção na região (apesar da crise de Tunes que deu início a Primavera Árabe em 2011). O jornalista Sifaoui Mohamed diz que a nova candidatura de Bouteflika foi diretamente apoiada por Macron algumas semanas atrás, contra a possível desestabilização do poder por falta de um herdeiro do atual presidente. Por outro lado, o jornal francês Liberation revelou a preocupação especial de funcionários e diplomatas franceses contra a possível eclosão de uma grande crise política, dizendo que a situação instável na Argélia poderia ser "uma das maiores ameaças geopolíticas do momento" por duas questões-chave. Do ponto de vista econômico, o país africano é o principal fornecedor de gás para a França. Do militar, a França tem uma base militar no Sahel, na fronteira da Argélia. Segundo Le Point, 500 grandes empresas francesas operam na Argélia, como a Renault, e o país representa mais de 6400 milhões de euros em exportações para a França. Vincent Jouvert, do jornal Le Nouvel Obs, expressa o nível de medo que existe na presidência francesa "O pesadelo do presidente da república é a Argélia. Foi também o dos seus antecessores. As mais altas autoridades do Estado estão aterrorizadas com a perspectiva de uma séria desestabilização de nossa antiga colônia após a morte de Bouteflika." Com a forte presença de argelinos e descendentes de argelinos na França, que foi visto através da sua presença de milhares na Praça República este 24 de fevereiro, e em plena crise dos Coletes Amarelos, a Argélia pode abrir uma grande crise para Macron e o imperialismo francês.

[1] (A guerra civil eclodiu quando a Frente Nacional de Libertação, desde o Estado, decidiu fechar a possibilidade de que a Frente Islâmica de Salvação (FIS) pudesse ganhar as eleições, o que gerou confrontos entre grupos islâmicos e o exército argelino)




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